Capítulo 8

1486 Words
Estamos todos de pé numa improvisada sala de recepção daquele condomínio, parece uma kitnet, só não tem cozinha. O homem está sentado numa cadeira e está sendo guardado pelos seus capangas. Deve ser um homem de prestígio, porque dinheiro não presta mais neste tempo. — Então, amados, eu sou o Prefeito Lemos, prefeito deste condomínio usado como refúgio para humanos — diz o homem. — Eu já era dono disto aqui antes de tudo acontecer. O cara se entitula de prefeito de um condomínio. Putz! — Antes que vocês comentem — continua o Prefeito Lemos —, esse título eu recebi do governo. Quê? Esta é a notícia que mais nos desestabiliza no momento. Ficamos tão intrigados que nem conseguimos formular uma pegunta. O Governo ainda existe? — Como assim o governo? — finalmente questiona Adam. — Ah! Vocês falam. Percebo que você é o líder do g***o. Me digam aí os seus nomes. Adam faz o que o homem pede, apresenta a cada um de nós, até o Prefeito Lemos focar no Jordan e perguntar: — O que aconteceu com ele? Foi mordido? — assim que ele faz a pergunta, os capangas apontam as armas para Jordan, como estamos perto, todos viramos alvos. — Não, calma aí — pede Adam, sei que ele tá pouco se lixando para o Jordan, mas tem que ser justo e piedoso —, ele disse que perdeu o dedo ao ligar uma motosserra. — Eh! Faz sentido, por enquanto — os capangas abaixaram as armas. — Desculpem a prontidão, não podemos arriscar uma contaminação e aqui seria muito fácil. Mas como assim "ele disse"? Vocês não viram o que aconteceu? — os capangas apontam as armas de novo e pega a gente de surpresa. — Abaixem essas armas — ordeno o prefeito para nos tranquilizar —, não é assim que se trata os nossos hóspedes — o prefeito se põe de pé. — Como chegaram até aqui? Alguém contou sobre este lugar? Conte-nos a sua história. Vejo que Adam se sente no dever de se comportar como líder e porta-voz da gente, senão, ninguém fará isso melhor. — Prefeito, estávamos morando numa rua abandona a poucos quilômetros daqui, mais ou menos umas três horas de caminhada e tivemos que abandonar por causa de uma invasão de amareles... — Foram seguidos? — Certificamos de que não. Daí, a gente andou sem rumo até encontrar este lugar. Foi pura sorte. — Muito bem, meus amados rapazes, o Governo está de pé, o mundo virou uma terra sem lei, mas ainda há alguns que estão no poder, eles têm energia, tecnologia, armas de fogo, e por aí vai. Por meio de um drone descobriram o nosso paradeiro e fizeram um acordo com a gente, que aqui fosse um refúgio para humanos não infectados, eles sempre nos trazem comida, remédios e armas, temos água de um poço, garanto que não está infectada, fomos instruídos a examinar a cada três dias e aqui vivemos em paz. O condomínio é pequeno, mas os prédios são suficientemente grandes para abrigar muita gente, temos vagas de sobra, somos apenas 68 cabeças, todos maiores de idade, com mais de seus vinte anos — ele aponta para mim —, parece que este aí é o mais novo entre nós. Quantos anos têm, rapaz? — Dezesseis — respondo. — Há muito tempo que não vejo um garoto de 16 anos. Enfim, somos todos homens, só há uma mulher aqui e ela é a minha esposa, a regra aqui é clara, se tocar nela, você morre. Entenderam? Confirmamos. — Somos gays, fofinho, exceto o Jordan, mas tenho as minhas desconfianças — diz Lucas, o que faz o prefeito gargalhar. — O mundo agora é gay, fofinho — ele diz com ironia —, não por escolha, mulher está em escassez, parece que a doença amarela pegou quase todas. Tenho certeza de que se um de vocês tiver uma oportunidade, vai tentar t****r com uma se encontrar. — Eca, que nojo. — Quem sabe, você não. De qualquer forma, dependemos delas para a raça humana não se extinguir de uma vez por todas. Aquele diálogo termina inacabado, sei que há mais coisas para se perguntar, para falar, mas o homem diz que tem o que fazer, e manda alguns dos seus capangas nos levar. Na verdade, ele diz que hoje vai perdir mais munição ao Governo, ele tem um rádio que deram para ele se comunicar diretamente. Os capangas levam a gente para o apartamento no bloco 1, está mobiliada, pois, a maioria das pessoas que moravam naquele condomínio saiu imediatamente com medo da pandemis de anos atrás e deixaram todos os seus pertences. Ficaram apenas os donos e um casal que vivia com a sua filha no bloco 5. Segundo um dos capangas, todos receberam o gás anti-corona e apenas o Lemos continuou humano, o restante virou um amarele, já estavam infectados a família do bloco 5, a mulher dele e os seus três filhos, ficou sozinho por cinco meses, sobrevivendo com o que tinha até outras pessoas aparecerem naquela rua desabitada e fizeram daquele lugar um refúgio. Para mim, a história está m*l contada, assim como a história do Jordan sobre o nosso pai, mas eu sou pequeno demais em um mundo de gente grande, a minha voz é muito baixa e eu tenho dificuldades para formular uma pergunta pertinente. Fora não me darem muito crédito pela idade que tenho e por gostar de livros. Assim que paramos de frente para a porta, o rapaz que conversava com a gente mostra uma chave e diz: — Para a infelicidade de vocês, esta chave vai ficar comigo, não podemos confiar em todo mundo que chega aqui. Fecharemos a porta a partir das 19:00 horas da noite e abriremos a partir das 7:00 da manhã, é bom que estejam todos aqui. Vai ser assim durante 30 dias até nos certificarmos de que são de confiança e, principalmente, de que não estão infectados — ele olha para dois dos capangas que pegam o Jordan pelo braço. — Sinto muito, mas vou ter que levar ele para outro lugar, é o nosso protocolo de segurança, as pessoas mais suspeitas de estarem infectadas ficam em um quarto separado. Vamos examiná-lo e depois, examinaremos vocês para termos, pelo menos, a certeza de que não foram mordidos — os capangas levam o Jordan embora, nós não falamos nada, e também, não estar ao lado daquele homem deixará o nosso ambiente mais confortável. — Mais uma coisa, aqui nós temos regras, e maioria delas leva à expulsão, não admitimos discorda gratuita aqui, não temos um juiz, quem resolve tudo é nosso prefeito. Depois ele vai explicar melhor — o capanga abre a porta e faz menção para a gente entrar. — Última coisa, este é o bloco do apartamento do prefeito, os outros estão lotados, por isso, nunca, jamais vão até o último AP do último andar. Está restrito. Entenderam? — nós fizemos que sim com a cabeça. — Muito bem, se organizem, pois, virá uma pessoa aqui examinar vocês para se certificar de que não estão mordidos. — Obrigado por tudo, irmão — Adam agradece e estende a mão para cumprimentar o capanga, as mãos ficam seguradas até os outros irem embora. Percebo que Túlio fica um pouco enciumado e quero rir disto. Assim que todos os capangas saem de vista, aquele qual o Adam segura a mão retira a sua máscara de esquimó e revela o seu rosto jovial e bonito, queimado como o do prefeito, parece que trabalha muito no sol. Aparentemente deve ter uns 25 anos. — Olha, eu gostei de vocês. Há muito tempo que não aparece uma família aqui, geralmente, são homens solitários e a maioria já matou outros humanos para sobreviver. Eu vejo a humildade em seus olhos e a união de vocês é muito bonita, exceto com aquele cara lá, o Jordan. — Longa história — diz Adam a sorrir. Não só ele, mas parece que estamos todos felizes, finalmente descansaremos sem me medo de um ataque eminente de amareles. — Entendo... Eu só preciso que vocês façam de tudo para não desagradarem ao prefeito, ele parece ser simpático, mas é muito c***l, nem vou comentar as coisas que ele fez porque sei que vocês não ficarão surpresos, este é mundo novo e o maior continua pisando no menor. — Pô, cara. Nem sei como agradecer — diz Adam. — Prometo que seremos cautelosos — Só fiquem bem, valeu!? — o capanga, cujo nome ele não falou, dá duas tapas amigáveis no rosto de Adam, põe a sua máscara de volta e desce. — Não sei vocês — diz Túlio —, mas eu não gostei nada dele. Todos olhamos para o Túlio desconfiados, não vamos levar a sério o que ele diz porque o ciúmes está nítido, aquele capanga foi a melhor pessoa que conhecemos até agora.
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