Capítulo 7

1131 Words
Eu leio muito rápido, já estou mais da metade do livro. Livros quais deveríamos ler em uma semana eu leio em horas, adquiri essa habilidade quando fiquei sem TV. Tudo se explica, não é!? Eu nem percebo os primeiros raios de sol. Imediatamente desligo a lanterna e acordo o Adam. Ele desperta da maneira mais engraçada, pula como quando a gente sonha que tá caindo. Mas desperta tão rápido que nem parece que estava dormindo. — Prego — ele olha no relógio de pulso —, são quase 5:00 horas da manhã? Por que não me acordou antes? O combinado seria eles dormirem por duas horas, o necessário para se descansarem um pouco, e depois, outra pessoa ficaria de vigia. Adam me olha preocupado. — Não se preocupe, estou bem. — Você precisa descansar, e temos que andar durante o dia, não podemos parar. — Não se preocupe, é sério. Foi m*l, eu me empolguei lendo o livro, mas não estou com um pingo de sono. Adam sorri pra mim, eu fui sincero no que disse, mas para ele, foi um ato nobre e eu mereço o melhor. Ele retira da mochila um raro biscoito recheado de 2020, outubro, mês do meu aniversário, pra mostrar o quanto era recente. — Você precisa comer, eu lembro que ontem você subiu para ler um livro e só foi acordado para fugir depois. Realmente, estou com muita fome, a preocupação e a tristeza me tiraram o apetite e nem havia percebido. Eu como o biscoito recheado com muita gula, meu irmão diz para eu não deixar um pedacinho e eu obedeço, ele me observa comer de uma maneira muito doce, agora que papai morreu, ele sente-se incumbido de me dar tudo o que preciso e que esteja no seu alcance para me manter bem, desde amor até comida. Eu não posso ser mais grato pelos irmãos que tenho. Assim que termino, Adam acorda os outros com grosseria, mas faz graça para mim e eu dou risadas, me ajeito para irmos embora. Eu sinto o sono de maneira leve, entretanto, tenho energia para prosseguir, sei que se eu dormir agora, vou desmaiar, então me mantenho focado. Lembro-me de quando ficamos em uma casa uma vez para passar a noite, mas ficamos a noite toda acordados, pois, passavam pela rua centenas de amareles, e alguns de nós fazem barulho ao dormir, poderia nos comprometer, fora o medo não nos deixar pregar os olhos. Estamos acostumados com vigílias. Também me lembro de observar os amareles andarem pela frente da porta, estávamos no andar de cima e tivemos cautela para que nenhum deles nos visse. Eles não andavam normalmente, como os humanos comuns, não balançavam os braços, eram lentos e envergados, como doentes mesmo, os sons que emitiam eram como se estivessem a soltar os ar pela boca, como quando fazemos exercícios físicos e respiramos mais forte. Como nós, também usufruem do oxigênio para respirar, o problema é que as nossas células oxidam muito mais rápido que as deles. Aprendi isso com o livro de biologia. As células deles se estabilizam e eles não envelhecem, porém, "se desligam", a não ser que fiquem sem comer por um ano, e cada vez que comem, demora mais um ano, de novo. Mais ou menos isso. Ou seja, eles foram estudados pouco, mas sabemos que "viverão" por muito tempo. Para piorar, é muito fácil ser contagiado com a doença, as células responsáveis pelo contágio ficam vivas por meses fora do hospedeiro. Que desgraça! Se a gente ingerir ou tiver algum ferimento que tiver contato com o sangue, ou saliva de um amarele, é bem provável que se contamine. Não sabemos se a história que Jordan nos contou é verdade, mas temos a certeza de que ele foi contaminado, estava c*************e de amareles e ele tinha uma ferida exposta naquela hora. Mesmo assim, não tiveram coragem de deixá-lo para trás. Agora, o dedo está enfaixada numa camisa branca, que não está mais tão branca. Antes de irmos embora, os meus irmãos obrigam ele a mostrar a ferida, com relutância ele mostra o indicador, realmente está cortado, não parece que foi mordido. Depois, o obrigam a se banhar com álcool, ainda havia resíduo de sangue de amarele nele, o que era perigoso, qualquer contato poderia nos contaminar. Jordan segura os gritos quando o álcool molha a sua ferida, a cena é agonizante, mas eu me obrigo a assistir, pois, se eu ficar me privando de ver algumas coisas, vou ficar uma pessoa mole, e não tenho tempo para isso. Como ele está sem calças, Lucas tem a ideia de dar a ele o lençol que colocaram no chão para ele fazer uma espécie de saia - melhor que nada - e Túlio amarra um novo pano na sua ferida, sangra um pouco, mas o sangue se estanca imediatamente, o outro pano está inapropriado para o uso. Agora, é só esperar os trinta dias, para ver se Jordan se transformará. Tenho certeza que o Adam vai matá-lo com muito prazer. *** Ficamos uma hora andando até encontrarmos uma rua. Não há movimento de amareles, nem de humanos. Não vemos humanos há muito tempo. O nosso pai nos ensinou a chegar numa rua com muita cautela, e assim fazemos, somos tão sorrateiros quanto uma cobra. Se tem algum amarele ali, está dentro das casas, porque fora não é possível. Andamos até encontrarmos um pequeno condomínio fechado. Os muros são grandes e o portão rolante de metal é alto e completamente vedado, foi construído para dificultar a entrada e saída de possíveis assaltantes, creio. A parte mais interessante é que está pintado numa placa a metros de distância do condomínio uma mensagem: NÃO FAÇA BARULHO. O problema é que a gente consegue ouvir um certo barulho vindo de lá, e à medida que nos aproximamos, o som fica mais alto. Nós entendemos que há humanos comuns ali, e isso foi confirmado quando o portão começa a se abrir bem devagar ao rolar para a direita. Que bom que o portão não faz ruídos muito fortes. Nos deparamos com um homem gordo e bem vestido, a pele era queimada pelo sol. O homem está a sorrir com as mãos nos bolsos, parece simpático, porém, ameaçador, está também rodeado por homens armados e com máscaras de esquimós e roupas camufladas, vejo que as armas possuem silenciadores. O homem abre os braços e diz em alto e bom som: — Olá, remanescentes, entrem, vocês estão seguros agora — o homem percebe que ficamos apreensivos pelo tom de voz. — Não fiquem com medo, não há amareles aqui, nós os abatemos antes mesmo que saibam que existe carne para eles comer. Todos nós nos olhamos intrigados, ao que parece, a nossa salvação está bem diante dos nossos olhos.
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