capítulo 22

2414 Words
O amanhecer rompeu com um sol implacável, prometendo um dia de calor sufocante que faria a cidade pulsar em um ritmo frenético. O crepúsculo tardio traria uma lenta despedida ao dia abrasador. Inácio, fiel à rotina, despertou ao som estridente do alarme, estendendo a mão para o lado oposto da cama, apenas para encontrar o lençol frio e a ausência de Clarência. A quietude da manhã foi quebrada pelo vibrar insistente de seu celular. Era incomum receber mensagens naquela hora, e Inácio supôs que fossem questões urgentes do trabalho. Com um misto de curiosidade e pressentimento, ele pegou seu Iphone15 e deslizou o dedo pela tela, desbloqueando as mensagens que aguardavam sua atenção. As imagens que saltaram diante de seus olhos o deixaram petrificado: Clarência e Vagner, imersos em risadas e conversas íntimas em um café da cidade. Mas foi o abraço capturado em uma das fotos que o atingiu como um soco no estômago, um gesto tão carregado de i********e que lhe roubou o fôlego. E como se não bastasse o tormento visual, a mensagem seguinte continha um endereço – um sinal de onde Clarência poderia estar naquele exato momento. O endereço do banco fez um calafrio percorrer sua espinha; a ideia de Clarência esvaziando suas contas conjuntas para fugir com Vagner era um pensamento que lhe causava náuseas. "Não, isso não pode estar acontecendo", murmurou para si mesmo, uma tentativa desesperada de negar a realidade que se desenrolava diante dele. Inácio vasculhou cada canto da casa em busca de Clarência, mas encontrou apenas o eco de sua própria angústia. Determinado a confrontar a verdade, ele vestiu-se apressadamente, desceu as escadas em dois tempos e entrou em seu carro. O motor roncou à vida, e ele partiu em direção ao banco, cada batida de seu coração um martelo de dúvidas e temores. Inácio chegou ao banco, o coração batendo como um tambor de guerra, ecoando em seus ouvidos. O ar-condicionado do lugar não era páreo para o calor que emanava de sua pele febril. A recepção estava impecável, com plantas verdes contrastando com o mármore branco, mas ele m*l notou. Seus olhos estavam fixos na secretária, que digitava algo em seu computador com uma eficiência que parecia zombar da urgência de Inácio. "É minha esposa que está nesse momento com ele?" A voz de Inácio saiu mais áspera do que pretendia, fazendo a jovem secretária erguer os olhos, surpresa e um pouco assustada com a intensidade que via diante de si. "Infelizmente não posso dar esse tipo de informação, senhor," ela respondeu, a voz trêmula, mas tentando manter a compostura profissional. "Seria bom aguardar no banco de espera," sugeriu, apontando para os sofás de couro que alinhavam a parede oposta. Inácio assentiu, mas sua mente já estava em outro lugar. Ele observou o cartão de acesso preso à blusa da secretária, imaginando-se arrebatando-o e abrindo caminho até a verdade que o atormentava. Num impulso, ele fez exatamente isso, deixando a jovem secretária em pânico, chamando pela segurança enquanto Inácio avançava pelo corredor. Ele irrompeu no escritório do gestor, encontrando Clarência sentada à mesa, conversando calmamente. "Clarência, então é verdade," disse, a voz carregada de uma mistura de raiva e desespero. "O que faz aqui, Inácio?" Clarência perguntou, confusa com a súbita interrupção. Os seguranças e a secretária, agora identificada como Anna, entraram no escritório logo em seguida. "É este senhor que roubou o meu crachá e invadiu o escritório," Anna explicou, ainda tentando recuperar o fôlego. O gestor, um homem de meia-idade com uma calma que contrastava com a tempestade ao seu redor, levantou-se. "Anna e senhores, está tudo bem. Eu resolvo o m*l entendido. Clarência e Inácio são meus clientes," ele disse, dissipando a tensão no ar. "Que tal eu sair e deixar-vos a sós para conversarem?" sugeriu o gestor, percebendo que a situação exigia privacidade. "Eu não preciso de conversar. Fui feito de burro esse tempo todo. Qualquer coisa que você diga não fará sentido, Clarência," Inácio retrucou, a revolta fervendo em suas palavras. "Do que está falando, Inácio? Está paranoico, é isso?" Clarência perguntou, sua expressão uma mistura de surpresa e preocupação. "Veja, é você e o Vagner nessa foto, certo?" Inácio desafiou, mostrando a imagem em seu telefone. Clarência confirmou com um aceno, mas antes que pudesse explicar, Inácio continuou: "E o dinheiro que veio buscar é pra ele, aposto." "Espera, o Vagner pediu emprestado dinheiro. Sabes que ele é nosso maior aliado," Clarência tentou se justificar, mas Inácio não estava disposto a ouvir. "E por que ele não veio pedir a mim? Ou por que me ocultou essa informação, Clarência?" Inácio pressionou, a dor da traição aparente em cada palavra. Clarência ficou sem resposta, o silêncio entre eles pesado como chumbo. "Silêncio, nem... não tem nada para me dizer," Inácio concluiu, a melancolia tingindo sua voz. "Inácio, eu posso explicar tudo. Não é nada disso que você pensa," Clarência implorou, as lágrimas começando a formar em seus olhos. "Eu vou embora, Clarência," Inácio declarou, virando as costas para ela e para o emaranhado de m*l-entendidos que os cercava. Clarência permaneceu imóvel, a respiração superficial, enquanto o eco das palavras de Inácio ainda vibrava pelas paredes do escritório. "Meu Deus, o que está acontecendo?" murmurou ela, a voz embargada pela confusão e o medo de perder tudo o que construíra. Sentou-se, o corpo cedendo sob o peso da realidade que a esmagava. Sabia que correr atrás de Inácio seria inútil; ele estava ferido demais para ouvir. O gerente, observando a cena com uma mistura de preocupação e profissionalismo, ofereceu um copo de água, sua voz um bálsamo em meio ao caos. "Um copo de água pode ajudar," disse ele, estendendo o copo com mãos firmes. Foi nesse momento que o telefone de Clarência vibrou com insistência. Ela hesitou, mas a curiosidade e a urgência falaram mais alto. Pressionou a tela do seu iPhone 13 e atendeu. "Clarência, o que aconteceu? Já passou da hora," Vagner indagou, sua voz transmitindo uma ansiedade que refletia a dela. Do outro lado da linha, ele observava a vida pulsante da rua de sua varanda, alheio à tempestade que se formava. "Eu não vou poder proceder, Vagner. Estou com sérios problemas. Alguém envenenou a mente de Inácio; ele pensa que eu venho lhe enganando esse tempo todo contigo. Espero que compreenda minha situação; se calhar, em outro momento eu faça," Clarência explicou, as palavras saindo entrecortadas pelo choro que ameaçava escapar. "Como assim, Clarência? Há alguma coisa que posso fazer para ajudar?" Vagner perguntou, a preocupação tingindo cada sílaba. "Alguém mandou fotos nossas de ontem para ele, e o fato de eu ter omitido detalhes da noite passada... tudo ficou descontrolado. Não há nada a fazer, Vagner, obrigada. Eu vou dar um jeito," ela respondeu, a determinação surgindo por entre a dor. "Se cuida, por favor," Vagner pediu, a ternura em sua voz contrastando com a frieza da situação. Após desligar, Vagner permaneceu pensativo, a mente trabalhando freneticamente em busca de soluções. Decidiu então ligar para David Miles, na esperança de ganhar mais tempo, apesar de já estar atrasado para o compromisso marcado. A chamada foi atendida prontamente. "Meu caro ilustre, eu estava prestes a ligar para si. Tenho notícias, mas me diga desse lado," David Miles iniciou, sua voz calma e controlada. "Bem, não sei como iniciar. Quero me desculpar pelo atraso em dar o feedback; surgiu algo inesperado," Vagner começou, a preocupação evidente em seu tom. "Preciso de mais tempo. Eu entendo que precisa avançar o mais rápido possível por causa dos britânicos," Vagner continuou, a melancolia se infiltrando em suas palavras. "Não o posso dar mais tempo. Exatamente na hora que marcamos, apareceu um investidor que ofereceu o triplo do que te propus. Até tentei recusar pelo compromisso que temos, mas o embaixador estava a pressionar-me," David revelou, a notícia caindo como um golpe. Vagner ficou em silêncio, a sensação de derrota o envolvendo. "A boa notícia é que esse investidor está disposto a negociar contigo no lançamento do projeto este fim de semana. Acredito que é por causa do teu talento nato. Vendo bem, nada está perdido," David tentou acalmá-lo, oferecendo um vislumbre de esperança. A notícia soou razoável aos ouvidos de Vagner, embora estivesse repleta de incertezas. O que quereria esse investidor com ele, que além de ter-lhe roubado a oportunidade, agora queria agir como seu patrono? "Diga a ele que estou interessado. Me farei presente," Vagner respondeu, a voz serena escondendo a turbulência interna. "Até breve, mandarei o convite," David finalizou, encerrando a chamada com a promessa de um novo começo. Vagner deixou a varanda, onde o ar fresco contrastava com o calor que começava a se acumular dentro de seu quarto. O espaço estava impregnado com o cheiro de livros antigos e madeira, uma testemunha silenciosa dos segredos e das estratégias traçadas ali. Leona, com sua roupa de ginástica que delineava sua silhueta atlética, parou à porta, analisando o semblante carregado de Vagner. "O que foi que aconteceu?" perguntou ela, a voz cheia de preocupação, enquanto ajustava o fone de ouvido que pendia de seu pescoço, preparando-se para a corrida que usava como escape das tensões do dia a dia. Vagner suspirou, sentindo o peso da traição e do desapontamento. "Clarência me ligou avisando que não poderia fazer a transferência porque Inácio fez uma cena. Alguém enviou fotos do nosso encontro para ele, dando a entender que ela é infiel. E para piorar, quando liguei para David, ele me falou que surgiu um investidor que veio a triplicar o valor proposto e quer negociar comigo a parte que roubou de mim. Pelo que eu entendi, ele quer me usar como instrumento dele," explicou, a voz derrotada ecoando pelas paredes adornadas com diplomas e prêmios de uma vida dedicada ao sucesso empresarial. Leona franziu a testa, seus olhos castanhos escurecendo com a suspeita. "Isso me parece muito estranho. Então alguém que sabia da sua relação com David e sabia também que Clarência seria sua fonte," comentou, cruzando os braços enquanto seu cérebro processava as possíveis implicações. "Ou seja, é alguém que vem nos observando," concluiu Vagner, a mente acelerada tentando conectar os pontos. "A Preta tem poder suficiente para fazer isso," disse Leona, a desconfiança em sua voz tão clara quanto a determinação em seus olhos. "Sim, mas quem é o infiltrado aqui?" indagou Vagner, a frustração crescendo dentro dele como uma tempestade. Leona hesitou, sabendo que suas próximas palavras poderiam incendiar ainda mais a situação. "Eu tenho uma sugestão, mas não será do seu agrado. É o mais lógico: a Sófia veio aqui meio estranha e dormiu aqui. Poderia ter dado as informações à Preta," aventurou-se, a cautela tingindo cada palavra. Vagner reagiu com uma mistura de raiva e incredulidade. "Não mesmo, a Sófia não faria uma coisa dessas," rebateu, a voz elevada pela emoção. "A Preta poderia, sei lá, manipular a garota. Afinal de contas, elas vivem juntas," insistiu Leona, a lógica lutando contra o vínculo familiar. "Chega. Não fale mais nisso, Leona. Eu vou te provar que minha filha não faria tal coisa. Confirme com as câmeras ocultas. Eu vou atrás dela; ela costuma almoçar a essa hora," disse Vagner, a determinação substituindo a desolação enquanto ele se dirigia à porta, pronto para enfrentar o que quer que o destino lhe reservasse. E tal como Vagner esperava, Sofia estava pronta para ir almoçar. Ele a tinha ligado antes, dizendo que queria almoçar consigo, e marcaram no mesmo restaurante próximo ao colégio, um lugar que guardava memórias de conversas anteriores e risos compartilhados. Ela chegara primeiro, lá estava ela sentada no mesmo canto que das outras vezes que lá ia, um refúgio que parecia abraçá-la com familiaridade. Ela estava irradiando com a sua beleza, os cabelos longos cacheados da cor de chocolate caíam sobre seus ombros, formando ondas que refletiam a luz suave do meio-dia. Assim que notara a sua presença, levantou-se num movimento fluido e deu-lhe um abraço muito forte, um abraço que carregava o peso da saudade e a leveza do afeto genuíno. "Como você está?" perguntou ele, sua voz trazendo um misto de preocupação e alegria. "Estou perfeita, papá," disse ela, com um brilho de travessura nos olhos. "Tem uma notícia que vai gostar de saber, eu sei como te aproximar do Otávio." Disse ela toda empolgada, suas mãos gesticulando no ar, desenhando a magnitude de seu plano. Ao ouvir aquilo, era difícil imaginar que ela pudesse ter feito tal coisa, que por trás daquela fachada de inocência se escondia uma mente astuta capaz de manobras tão complexas. "Não está feliz?" perguntou ela, sua testa franzindo em confusão ao não ver o entusiasmo esperado nele. "Eu estou, querida," disse ele, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. E depois, ganhando coragem, continuou, "Eu te amo muito, querida, eu perdoaria qualquer que seja o erro que tenhas cometido." Sua voz carregava um tom melancólico, e Sofia sentiu um aperto no coração. Será que ele descobrira que ela testemunhou o espancamento de Liam e ficara em silêncio? "De quê exatamente está falando?" indagou Sofia, sua voz tremendo ligeiramente. "A Preta terá mandado você obter informações ao meu respeito sobre um investimento que pretendo realizar?" perguntou Vagner, e viu a confusão e o choque nos olhos de Sofia. "Papá, é sério? Eu vim aqui feliz para te contar que Otávio não será mais um obstáculo, e me faz acusações." As palavras de Sofia saíram entrecortadas, as lágrimas á espreita ameaçando romper a barreira de seus olhos. "Foi a Leona que colocou isso na tua cabeça, não foi? Porque como meu pai, eu não te vejo a ter essas ideias." A voz de Sofia estava carregada de mágoa. "A partir de hoje, nunca mais quero te ver. Luís Felipe tinha razão, eu sou patética." Com essas palavras, ela pegou sua mochila, colocou nas costas e, sem olhar para trás, saiu do restaurante. "Sofia, por favor, me desculpe, vamos conversar," implorou Vagner, agora arrependido, mas ela já havia começado a correr. Ele a tentou seguir, mas a perdeu de vista e desistiu, seu coração pesado com a realidade de suas palavras precipitadas. Sofia estava tão revoltada que corria feito louca, dava-lhe a sensação de que a sua dor ficaria menos leve. Seus pensamentos giravam em um turbilhão de emoções, cada passo aumentando a distância entre ela e a dor que a consumia. Até que então, atravessara a estrada sem olhar para os lados, e vinha um SUV na sua direção, o motorista buzinando em um alarme desesperado...
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