Clarência estava desconcertada, surpreendida pela situação inesperada. O que poderia ela dizer agora a Inácio?
"Bem... Eu precisava de um momento para mim, então fui tomar um café naquela esquina charmosa. Sabe, aquela pausa me inspirou tanto que decidi que minha nova coleção terá como tema borda de café. Já comecei a esboçar alguns croquis", respondeu ela, sua voz inicialmente trêmula fortalecendo-se à medida que falava.
"Agora, conte-me, o que está te incomodando?" perguntou ela, caminhando em direção ao seu espaçoso closet.
O closet era uma extensão do seu mundo criativo, retangular e amplo, permitindo que Clarência se movesse com facilidade entre suas criações. As paredes, adornadas com um papel de parede floral delicado, emanavam uma sensação de tranquilidade. Do teto, uma luminária elegante derramava uma luz suave, realçando as cores e texturas das roupas e acessórios.
Clarência sentia-se em seu santuário pessoal, cercada pelas peças que desenhara, cada uma pendurada cuidadosamente em cabides de madeira, organizadas por cor e estação. Os sapatos, alinhados em prateleiras de vidro, aguardavam sua escolha. Uma cômoda discreta no canto guardava joias, lenços e pequenos tesouros que completavam seus looks.
Inácio aproximou-se, uma sombra de preocupação marcando seu rosto.
"Clarência, há algo do teu passado que me ocultaste?" perguntou ele, mantendo um semblante grave.
"De onde tiraste essa ideia? O que se passa, Inácio?" indagou Clarência, sua voz denotando uma ligeira alteração.
Um silêncio tenso se instalou entre o casal, apenas quebrado pelo ruído suave da brisa que movimentava as cortinas do quarto.
"Nada demais. Estou frustrado com um problema no trabalho, que agora estou vendo problemas em tudo. Depois tem a Preta, agindo como se fosse a proprietária, está me irritando profundamente", explicou ele, buscando na sinceridade de suas palavras uma ponte para reconectar-se com Clarência, recuando ao perceber que suas suspeitas sobre Ela não passavam de insinuações infundadas de Preta.
"Amor, temos que ser resilientes. Ela está tentando nos desestabilizar, mas não podemos deixar que nada nos abale", disse Clarência, aproximando-se de Inácio com determinação. Um beijo selou seus lábios, um misto de paixão, preocupação e firmeza. O closet e o quarto eram testemunhas do vínculo inquebrantável entre eles, um lembrete silencioso de que, juntos, superariam qualquer adversidade.
[ . ..]
Os treinos tinham terminado tarde, e a noite já se aconchegava sobre a cidade com um manto de silêncio pontuado apenas pelo som distante de carros e o ocasional latido de um cão. Otávio estava decidido a se livrar do fio que Consuelo achou no quarto ocupado por Lila, e só havia um lugar onde poderia encontrá-la naquelas horas avançadas sem levantar suspeitas.
Lá estava ela, Lila, com a testa franzida em concentração, os sons da cozinha e das conversas animadas preenchendo o ar enquanto ela atendia seus clientes no restaurante lotado. Otávio observou-a de longe, sentindo uma pontada de preocupação — será que ela conseguiria sair a tempo de pegar o último ônibus? Entre a multidão de pessoas sedentas por um hambúrguer, Lila o notou. Seus olhos se encontraram por um breve momento, um reconhecimento silencioso antes dela ser engolida pela agitação do lugar.
No final do expediente, quando o tumulto havia se acalmado e o silêncio da noite voltava a se instalar, Lila se preparava para a caminhada solitária até em casa. Foi então que ela o viu, saindo do carro, a luz do poste refletindo em seus olhos cheios de algo que ela não conseguia decifrar.
"Otávio, aconteceu alguma coisa?" A voz de Lila tremulou ligeiramente, revelando sua hesitação em encará-lo.
"Não, você deixou o teu fio em minha casa." Ele respondeu, tirando o delicado objeto do bolso e estendendo-o para ela sob a luz amarelada do poste.
"Ahm, eu pensei que tivesse perdido em algum lugar. Muito obrigada, não vou tomar mais o seu tempo." Lila apressou-se em dizer, virando-se para ir embora antes que a emoção em sua voz traísse a calma que ela tentava manter.
"Daqui para a rodoviária é distante, vem, eu levo-te até lá." Otávio sugeriu, sua voz suave contrastando com a frieza da noite. Ela hesitou, o coração batendo um pouco mais rápido com a proximidade dele.
"Não sei se é uma boa ideia, imagine que alguém nos veja juntos, e todo mundo fica sabendo, acho que não seria bom para a tua imagem." Respondeu Lila, convicta de suas palavras, mas com um leve tremor de incerteza.
"Não consigo ver te a sofrer desse jeito." Otávio disse, sua voz carregada de uma emoção crua e inesperada.
"Não é sofrimento, é ganhar a vida, Otávio." Declarou ela, começando a andar com passos firmes, deixando-o ali, parado sob a luz do poste, a figura dele se tornando uma silhueta contra o brilho suave da lua.
Otávio, por sua vez, entrou no carro, deu ordem para que o motorista acompanhasse o ritmo dela. "Lila, deixa de orgulho, e entra no carro." Gritou ele, e ela ficou perplexa, ele vinha mesmo lhe seguindo de carro.
"Não obrigada, se continuar me seguindo juro que grito socorro, acredito que alguém vai aparecer e digo que estás tentando me sequestrar." Sentenciou Lila, e Otavio gargalhou, o som ecoando na quietude da noite.
"Esse papel não te fica, não parece a mesma que ficava me stalkeando, pelos corredores até mesmo no banheiro. O que mudou?" Indagou Otávio em tom de deboche, mas havia um traço de curiosidade genuína em sua voz.
"Ontem você me colocou no meu lugar. E eu te pergunto o que mudou, porquê me persegue?" Indagou Lila, agora ela tinha parado, enfrentando-o com uma mistura de desafio e vulnerabilidade.
Otávio não viu resposta, ficou totalmente mudo, a surpresa e talvez algo mais profundo marcado em seu rosto.
"Exatamente, foi isso o que pensei." Disse Lila, e continuou andando sozinha naquela noite, o som de seus passos se perdendo na distância. Otavio deu ordem ao motorista para o levar para casa, refletindo sobre o que havia acontecido. Desde quando é que se preocupa com aquela stalkeadora do campo? Ela não tinha nada a ver com ele, até porque não era seu tipo mesmo. Ela já está acostumada com aquela vida.
Se calhar, gostava ele de receber atenção, de ter uma fã correndo ao pé dele, foi o que pensou Lila após notar que ele não vinha mais a sua trás, a solidão da noite envolvendo-a como um velho amigo.
[...]
“Hoje está uma noite incomum”, comentou Sófia, sua voz ecoando suavemente nas paredes da sala de jantar. Os irmãos reunidos à mesa, que estava repleta de iguarias, parecia um banquete digno de reis. O aroma das especiarias e o som do tilintar dos talheres preenchiam o ar.
A Preta juntou-se à mesa um tempo depois, seus passos ritmados e confiantes. “Então finalmente estamos sentados juntos à mesa”, disse com um sorriso que iluminava seu rosto, refletindo a alegria de ter recebido as fotos tiradas por Toledo. Ela ponderou sobre o melhor momento para enviar as imagens a Inácio, talvez nas primeiras horas do dia seguinte.
“Ma’am, vejo que está muito feliz. Que tal me aliviar do castigo? Tenho sido obediente”, disse Otávio, tentando esconder seu nervosismo enquanto servia a comida, o som da porcelana se chocando suavemente.
“Que tal me explicar a história de que você trouxe uma menina aqui em casa?” indagou Preta, sua curiosidade tingida de um tom brincalhão.
Luís Felipe gargalhou, um som estrondoso que reverberou pelo cômodo. “Não é possível, só pode ser fofoca dos empregados, meu maninho é muito certinho”, acrescentou em deboche, provocando risadas abafadas ao redor da mesa.
“É verdade, tanto que ela até esqueceu o fio dela, me contou Consuelo”, afirmou Sófia, sua voz carregada de um misto de surpresa e cumplicidade.
“Ela é minha colega, a encontrei depois dos treinos. Aquele dia chovia demais, e ela vive do outro lado da cidade, as estradas estavam interditadas, fiz o que qualquer um com bom senso faria”, justificou Otavio, sua voz firme, mas suas mãos tremiam levemente, revelando a tensão que tentava ocultar. Sófia e Luís Felipe aplaudiram e gritaram “Bravo!” em tom de deboche, mas o som de suas palmas era abafado pela seriedade da situação.
“Vocês dois esqueceram que estamos na mesa, parem com isso”, repreendeu Preta, sua voz firme e autoritária, cortando o ar e silenciando a sala.
“Ma’am, acredito que já saiba que fui promovido a gestor de Amasia”, declarou Luis Felipe, todo orgulhoso pela conquista, tentando mudar o foco da conversa. Seus irmãos exclamaram “Uau!” em uníssono, um som de admiração e orgulho que aqueceu o ambiente.
“Eu fico feliz que estejas empolgado. Eu estou convicta que não serás mais o mesmo, vais ganhar maturidade, os próximos tempos vão exigir resiliência”, declarou Preta, seu semblante indecifrável, uma máscara que ocultava as emoções turbulentas por trás de suas palavras ponderadas, pois havia tanta coisa que eles não tinham conhecimento e que, em algum momento, poderiam descontrolar-se.
" Te deixarei bem orgulhasa". disse Luis Felipe convicto.
"Ma'am, eu gostaria de visitar a universidade Elite, amanhã," disse Sófia, receosa
Preta olhou para ela, uma expressão pensativa atravessando seu rosto. "Amanhã não sei ao certo qual é minha agenda, mas farei os possíveis de arranjar uma brecha," ela respondeu, o tom de sua voz misturando promessa e hesitação.
Sófia acenou com a cabeça, compreensiva. "Não precisa, Ma'am, eu quero mesmo ver quais são os cursos que oferecem e os programas," ela insistiu, a determinação em sua voz tão clara quanto o céu matinal.
"Tudo bem então" Preta concordou, um sorriso suave tocando seus lábios enquanto ela terminava de comer, satisfeita com a independência de Sófia.
A conversa então tomou um rumo mais alegre. "É verdade, Luís Felipe, precisamos fazer o plano de sua festa de aniversário" Preta acrescentou, e uma onda de excitação varreu a sala. Todos se inclinaram para frente, as vozes se elevando em um coro de sugestões e risadas, enquanto começaram a idealizar cada detalhe da celebração que se aproximava.
Assim que terminou o jantar, Sófia recolheu-se ao seu quarto. A luz suave da luminária criava sombras nas paredes, e o silêncio envolvia o ambiente. O quarto de Sófia era um santuário de tranquilidade, com suas paredes pintadas em tons suaves de azul e cortinas de renda que filtravam a luz da lua, criando padrões delicados no chão de madeira. A cama, com lençóis de algodão macio, convidava-a a se aconchegar e refletir sobre os acontecimentos recentes.
Otávio entrou no quarto, seus passos abafados pelo tapete persa espesso. Ele se sentou na cadeira de veludo
próxima à janela observando Sófia com curiosidade.
"Então, como foi em casa do teu pai?" perguntou Otávio, tentando manter a voz casual.
Sófia sorriu, recostando-se na cama. "Foi bom. Conheci a tal mulher dele. Nos demos super bem, ela até me ofereceu brincos."
A expressão de Otávio mudou. Ele estava desconfiado. "Qual é o teu objetivo com essa amizade? Você pode fingir com quem quiser, mas comigo não."
Sófia suspirou. "Bem... Eu acho que a Preta e o papai fariam um casal perfeito." A declaração de Sófia foi como uma faísca em um barril de pólvora, provocando uma explosão de incredulidade em Otávio. Ele se inclinou para frente, tentando compreender as intenções por trás das palavras de sua irmã.
"Sófia, isso nunca vai acontecer. Eu estou desconfiado de que você está se drogando. Essa pode ser a única razão para o teu comportamento estranho" .Otávio acusou, a decepção tingindo suas palavras de um tom amargo.
"Nem vale a pena comentar isso com Luís Felipe." Ele adicionou, cortando qualquer possibilidade de discussão futura sobre o assunto.
. "Eu só acho que o nosso pai merece uma segunda chance. Deve-nos uma explicação plausível sobre o que realmente aconteceu no passado. Por quê ele desistiu de nós?"
Sófia falou, sua voz baixa e pensativa, como se estivesse falando mais para si mesma do que para Otávio. Ela olhou para a janela, onde a lua lançava um brilho prateado sobre o quarto, refletindo a dualidade de suas esperanças e dúvidas.
Otávio cruzou os braços. "E por quê ele voltou só agora? Será que é um vigarista, como diz Luís Felipe, que o conheceu melhor do que nós?"
"Eu prefiro acreditar que são as associações erradas. Talvez afastando a tal de Leona, a Ma'am possa fazê-lo melhor."
Sófia insistiu, sua determinação em ver o bem no pai era tão forte quanto a luz da lua que agora banhava o quarto.
. "É melhor mudarmos de assunto. Estou ficando entediado com essa tua fantasia."Otávio disse, rejeitando as ideias de Sófia com uma revolta que era quase palpável.
"Ok me fala da garota que você trouxe aqui". Sófia mudou de assunto, sua voz suave e seu sorriso sugerindo uma trégua na conversa tensa.
"Não há nada de especial nisso". Otávio respondeu, desviando o olhar de Sófia. Ele se levantou e sentou novamente, o silêncio entre eles se estendendo como uma ponte frágil sobre um abismo de m*l-entendidos.
"Eu gostava de ajuda-la ela vive no fim do mundo, e depois das aulas trabalha até tarde sobre o risco de não apanhar um carro para voltar a casa". Otávio confessou, sua voz baixa revelando uma vulnerabilidade raramente vista. Sofia, por um momento, esqueceu suas próprias preocupações, tocada pela preocupação sincera de seu irmão.
"Não consigo ver uma maneira de ajuda-la, se calhar o papá podia a contratar como assistente para esse período". Sófia sugeriu, sua mente ágil buscando soluções onde Otávio via apenas problemas.
"Péssima ideia prefiro perguntar a Ma’am a respeito". Otávio rejeitou a ideia rapidamente, sua confiança na Ma'am evidente em sua decisão de buscar seu conselho primeiro.
"O papá faria qualquer coisa, só para ganhar a tua confiança pensa nisso. Não consigo ver o que Ma'am poderia fazer por ela, porque pelo que percebi essa moça só tem disponibilidade de tarde, trabalhar para Ma'am ou com ela é preciso ter habilidades muito fortes." Sófia argumentou, sua lógica entrelaçada com a esperança de reconciliação e a crença na bondade inerente das pessoas.
"Vou falar primeiro com Ma'am". Otávio decidiu, deu um beijo na testa de Sófia selando a conversa, um gesto de carinho que precedia o retiro para o descanso e os sonhos.