capítulo 20

2160 Words
Zara mantinha seu olhar fixo em Luís Felipe, seus olhos ardiam com uma mistura de raiva e desespero. Ela sentia cada músculo de seu rosto tenso, lutando contra o impulso de avançar sobre ele. Com os punhos cerrados, sentia o calor da raiva subindo pelo corpo. Ela queria esbofeteá-lo, fazê-lo sentir a mesma dor que ele havia causado. Mas estava em desvantagem. Ele tinha algo nas mãos, algo que poderia destruir seu sonho com apenas uma palavra. Ao redor, a sala estava em um burburinho de movimento e conversas abafadas enquanto os outros participantes retomavam seus lugares. O som de cadeiras arrastando e risos contidos contrastava com a tensão palpável no centro da sala. A luz suave do entardecer entrava pelas janelas, lançando um brilho dourado que iluminava o rosto determinado de Zara, mas não conseguia aquecer o frio que ela sentia por dentro. "Vocês dois, não escutaram?" A voz de Roxana cortou o murmúrio da sala, mais afiada do que as sombras que começavam a se formar nos cantos. Sua expressão era uma mistura de confusão e um leve vislumbre de preocupação. Luís Felipe, com um movimento quase reverente, finalmente desviou o olhar de Zara e caminhou lentamente até seu lugar. Seus passos eram medidos, e ele parecia carregar o peso do mundo em seus ombros. Zara, ainda imóvel, sentiu um aperto no coração ao ver a distância física aumentar entre eles, mas a batalha emocional ainda estava longe de terminar. "Como havia anunciado anteriormente, Luís Felipe e Zara destacaram-se como os mais talentosos. A decisão foi complexa, exigindo consultas à direção. Daniela revelou isso com uma pausa, sorvendo água. Todos estavam imersos em expectativa, olhos esbugalhados, atenções cravadas nela. O silêncio era palpável, apenas interrompido pelo som sutil do ar condicionado e pelo bater de corações ansiosos. "Esses dois trabalhos superaram os dos anos anteriores, portanto, vamos oferecer a ambos um treinamento avançado. Após este treinamento, estarão aptos a trabalhar globalmente. Serão enviados ao escritório de Amasia, a 78 km daqui, podendo retornar diariamente, por três semanas. O objetivo é revitalizar a produção, que recentemente apresentou declínio em comparação com outras filiais," declarou Daniela. Sua voz ressoava com autoridade, mas uma suave vibração traía a gravidade da missão imposta. "Isso implica que ambos serão gestores, pois confiamos que juntos alcançarão feitos notáveis," acrescentou Roxana. Um estrondo de aplausos e assobios invadiu o espaço, uma sinfonia de entusiasmo e encorajamento que se espalhou pelo ambiente. Luís Felipe ergueu a mão, provocando um sobressalto no coração de Zara. Ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha, temendo que ele pudesse revelar um segredo que ela desesperadamente queria ocultar. "Luís Felipe, por favor," Roxana lhe deu a palavra. "Seria possível obter as informações sobre a situação atual com antecedência para um planejamento mais eficaz?" perguntou Luís Felipe. Ele sorriu, e Zara sentiu seu rosto incendiar-se com um misto de terror e vergonha, enquanto lutava para manter a compostura sob os olhares inquisitivos. "Brevemente iremos fornecer toda a informação, fiquem descansados. Preparem-se psicologicamente, pois o trabalho não será nada fácil, já vou adiantando," advertiu a Doutora Roxana com uma seriedade que reverberava pelas paredes do escritório. A tensão era quase tangível, misturando-se com o zumbido do ar condicionado e o murmúrio baixo dos presentes. Luis Felipe e Zara, embora visivelmente satisfeitos pela distinção, trocavam olhares carregados de uma antipatia velada. A ideia de terem que colaborar era para eles insuportável, um jogo de xadrez emocional onde cada movimento era calculado. Para Luis Felipe, a situação era uma oportunidade de exercer poder, segurando firmemente a carta que tinha na manga contra Zara. Ele saboreava a ideia de tê-la sob seu controle, uma ameaça silenciosa que pendia sobre a cabeça dela como uma espada de Dâmocles. Zara, por sua vez, sentia-se encurralada, a ansiedade e o medo tecendo uma teia apertada em torno de seu peito, dificultando-lhe a respiração. A possibilidade de sua vulnerabilidade ser exposta a deixava em estado de alerta, um animal acuado à espera do momento de ataque. [...] Preta acabara de chegar em casa, exausta da rotina diária, mas com um brilho de determinação nos olhos. Ela atravessou o corredor silencioso, cujas paredes ecoavam os passos firmes de seus sapatos de salto alto, e foi diretamente para o seu escritório, um santuário de tranquilidade e estratégia. O escritório era espaçoso, com uma grande janela que dava para o jardim florido, onde o canto dos pássaros criava uma melodia suave e relaxante. A luz do entardecer banhava a sala em tons dourados, destacando as prateleiras repletas de livros e os quadros de arte contemporânea que adornavam as paredes. Assim que Preta se sentou à sua escrivaninha de mogno, o telefone tocou. Era uma chamada de vídeo, e no visor aparecia "Toledo". Ela atendeu imediatamente, curiosa. "Toledo, o que você tem para mim?" perguntou Preta, sua voz transmitindo uma mistura de autoridade e expectativa. "Ma'am, não sei se essa notícia é relevante, mas estou vendo Vagner e Clarência em um café, há duas quadras de seu atelier," relatou Toledo, sua voz baixa e discreta contrastando com o burburinho do café que se infiltrava pelo micro telescópio. O som de xícaras sendo pousadas nas mesas e risadas abafadas compunha o fundo sonoro da observação. Preta sorriu maliciosamente, sentindo uma onda de satisfação ao ouvir a notícia. "Perfeito, Toledo. Fizeste o meu dia. Se possível, tira umas fotos. Vamos mandar de presente para Inácio. Acho que ele vai gostar de saber que sua esposa encontra Vagner às escondidas," disse ela, sua voz vibrante de entusiasmo e suas mãos batendo ritmicamente na mesa, como se estivessem tocando uma música de vitória. "É para já, Ma'am," respondeu Toledo, e a chamada foi encerrada com um clique. Preta recostou-se na cadeira, um sorriso triunfante nos lábios, enquanto planejava seu próximo movimento no jogo de xadrez que era sua vida. [...] À medida que o sol se punha, o céu era pintado com pinceladas de laranja e violeta, anunciando o fim da tarde. Vagner e Clarência encontravam-se sentados na área externa do café, um local acolhedor que se tornava ainda mais íntimo com a chegada do anoitecer. O murmúrio da cidade ao entardecer era uma sinfonia de sons: o riso das crianças brincando nas proximidades, o zumbido dos carros passando e o ocasional latido de um cão ao longe. O café, um pequeno oásis de calma, estava envolto em sons suaves — o tilintar das chávenas, o sussurro das folhas agitadas pela brisa e a música ambiente que complementava a cena com uma melodia relaxante. O aroma do café expresso, o favorito de Clarência, misturava-se com o cheiro da maresia que vinha da costa, criando uma atmosfera quase palpável de nostalgia e expectativa. "Vagner, vi assim que pude. O que há de tão urgente que precisa me falar?" A voz de Clarência, tingida de preocupação, cortou o ar tranquilo. No mesmo instante, a garçonete aproximou-se com duas chávenas de café expresso, o vapor subindo em espirais delicadas, como se dançasse com a brisa da noite. "Enquanto esperava, pedi café expresso, espero que esse ainda seja o teu sabor preferido." Vagner falou com uma calma que contrastava com a urgência de seu convite. Clarência sentiu um nó se formar em seu estômago, e seus olhos involuntariamente reviraram, traídos pela memória daquele sabor que tanto significava para ambos. "Seria bom que fosses direto ao assunto. Meu marido está prestes a chegar a casa e a estas horas está acostumado a encontrar-me," respondeu ela, com uma firmeza que m*l disfarçava a tempestade de sentimentos que Vagner havia despertado. Ignorando o comentário sobre o café, Clarência fixou-se na chávena fumegante, como se buscasse ali a serenidade para enfrentar o que estava por vir. À medida que o crepúsculo se aproximava, a luz do dia dava lugar a tons de laranja e púrpura, refletindo no horizonte onde o céu encontrava o mar. Vagner, com uma calma aparente, mas com uma urgência palpável na voz, disse: “Eu preciso de um investimento de 300 milhões de Euros para um megaprojeto. Com esse projeto, eu posso passar credibilidade aos meus filhos. Só tenho até amanhã cedo para fechar. Tentei todas as opções e não tive retorno.” Ele fez uma pausa, levando a chávena de café aos lábios, o vapor subindo suavemente no ar fresco do entardecer. Clarência, sentada à sua frente, ponderou a gravidade do pedido. “É muito dinheiro,” ela murmurou, a decisão pesando em seus ombros enquanto se erguia. “Eu vou ver o que posso fazer. Deixe-me ligar ao meu gestor agora.” Ela se afastou, o celular colado ao ouvido, sua silhueta recortada contra o céu que rapidamente escurecia. Seus olhos, distantes, fixaram-se no movimento hipnótico dos carros e na paisagem do litoral, onde as ondas beijavam a areia numa dança eterna. Vagner observou-a, a ansiedade crescendo dentro dele como uma tempestade. Clarência era sua última esperança, e cada segundo sem resposta parecia uma eternidade. Em um gesto quase inconsciente, ele intornou o resto do café, a bebida amarga e forte como o desespero que tentava engolir. Quando Clarência voltou, sua expressão era insondável, mas suas palavras trouxeram alívio. “Amanhã mesmo o dinheiro estará disponível. Só preciso ir ao banco,” anunciou ela, interrompendo o turbilhão de pensamentos de Vagner. Ele a olhou, um misto de alívio e surpresa em seus olhos, enquanto a noite finalmente se estabelecia, envolvendo-os na promessa de um novo dia Vagner, com um impulso súbito e corajoso, envolveu Clarência num abraço que parecia transcender o momento, um abraço que falava de uma i********e esquecida e de um carinho que o tempo não apagou. Clarência, surpresa e desarmada pela ousadia dele, deixou-se levar pelas emoções que o gesto despertava. O perfume de Vagner, uma mistura intoxicante de colônia masculina e o frescor do café recém-preparado, invadiu seus sentidos, deixando-a embriagada pela proximidade. Quando Vagner se afastou, Clarência ainda estava perdida naquela sensação de transe, como se o abraço tivesse sido um portal para um mundo onde só existiam eles dois. “Aguardo o teu sinal amanhã cedo, muito obrigado, Clarência,” disse ele, com uma voz que carregava um peso de sinceridade e uma ponta de esperança. Clarência, ainda imersa naquele estado de semi-consciência, acenou em silêncio, observando a figura de Vagner se fundir com o ambiente ao redor até desaparecer completamente. Ele era o amor que, apesar dos anos e das circunstâncias, ainda residia em algum lugar profundo dentro dela, um amor que persistia mesmo agora que a vida lhe havia presenteado com uma nova família. E ali, parada, com o coração batendo um pouco mais forte, Clarência se permitiu sentir, por um breve instante, a doce dor daquilo que foi e do que nunca mais seria. Após Vagner ter partido, Clarência seguiu seus passos, pois a estrada que serpenteia em direção a Cascais A noite já se aconchegava em Cascais, e as estrelas começavam a piscar no céu, como se acendessem uma a uma. A mansão de Clarência, com suas linhas que evocavam a arquitetura espanhola, destacava-se na paisagem noturna, suas paredes brancas e janelas arqueadas refletindo a luz da lua crescente. O jardim, meticulosamente cuidado, exalava o perfume de jasmim e magnólia, enquanto o som suave das ondas da baía se mesclava com o chilrear dos grilos. O Bugatti vermelho de Clarência deslizou para dentro do estacionamento, juntando-se à coleção de carros que falavam de um gosto refinado e uma vida de luxo: um Mercedes-Benz clássico, um Jaguar com linhas elegantes e um Porsche com um brilho que rivalizava com as estrelas acima. Cada carro, com sua história e caráter, era uma peça de uma coleção cuidadosamente selecionada, um reflexo das muitas facetas de Clarência. Ela entrou em casa, o som dos seus passos ressoando contra o piso de mármore. As luzes do corredor acenderam-se automaticamente, revelando uma galeria de arte que adornava as paredes: retratos de antepassados, paisagens de lugares distantes e obras abstratas que capturavam emoções em cores e formas. O silêncio da casa era um convite à introspecção, apenas interrompido pelo tique-taque de um relógio antigo e o ocasional ranger de madeira que falava da história do lugar. Clarência subiu as escadas, sentindo o frio do mármore sob seus pés descalços, uma sensação que a reconectava com a realidade após o encontro emocionante com Vagner. Seu quarto, um santuário de tranquilidade, aguardava-a com a promessa de conforto e paz. Mas a presença de Inácio, sentado na penumbra, era uma sombra que pairava sobre a serenidade do ambiente. "O que fazes sentado no escuro?" A voz de Clarência, embora calma, carregava um traço de preocupação, enquanto ela observava Inácio, cuja figura parecia absorver as sombras ao seu redor. "Onde você esteve esse tempo todo?" A pergunta de Inácio, tingida de desconfiança, era um eco das dúvidas que Clarência tentava afastar. O silêncio que se seguiu foi um espaço suspenso, um momento em que o passado e o presente colidiam, deixando Clarência à beira de um abismo de incertezas e revelações.
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