📖 CapÃtulo 16 – RaÃzes no Morro
Narrado por Olivia
Um mês. Apenas trinta dias foram suficientes para eu começar a sentir que tinha raÃzes naquele lugar que antes parecia estranho, quase inalcançável. O morro que me aterrorizava nas primeiras semanas agora me envolvia com sons, cheiros e histórias que eu começava a entender e a respeitar. Não era mais apenas o lugar de Kael; estava se tornando o meu lugar também.
Acordei cedo, como de costume, e fui direto ver Júlia no salão. O som do rádio tocava um pagode baixinho, quase tÃmido, e o ventilador antigo girava de maneira irregular, criando aquele barulho engraçado que parecia marcar o ritmo do dia. O cheiro de creme e progressiva dominava o ar, misturado ao perfume de shampoo e condicionador que pairava no salão. Júlia estava ocupada, arrumando tranças em uma cliente, mas não perdeu a energia de cumprimentar-me com o sorriso mais caloroso que alguém poderia ter.
— Segura a cabeça, dona Cida, senão essa trança vai sair torta! — ela brincou, puxando delicadamente os fios.
No meio da movimentação, ouvi dona Raimunda, a mulher mais direta e respeitada do morro, varrendo a entrada e observando cada detalhe do salão com olhos que pareciam enxergar até o mais profundo segredo das pessoas.
— Essa menina tem jeito. Mãos boas, olhar esperto. — Comentou, sem rodeios, enquanto o pano esfregava o chão.
Júlia, como sempre, foi rápida em apresentar-me:
— É a Livi, minha amiga. Veio de Sampa. Tá procurando um trampo.
A dona Raimunda olhou de cima a baixo, avaliando minha postura, meu olhar, a firmeza com que eu permanecia ali. Limpou as mãos no avental florido e veio até mim, o peso de cada palavra pairando no ar.
— Tu quer trabalhar aqui, menina? — perguntou. — É puxado, viu. Calor, cabelo voando, cliente cheia de história… mas é digno. E mulher precisa de autonomia.
— Quero sim — respondi, sem hesitar. — Quero aprender, quero fazer parte.
Ela franziu o cenho por um segundo, avaliando minha sinceridade, e então sorriu levemente.
— Hm… gostei da resposta. Começa amanhã. Chega cedo e traz coragem. Tesoura a gente empresta.
Júlia arregalou os olhos, quase pulando de alegria.
— Mentira que a dona Raimunda te chamou?! Mulher, você venceu!
— Você viu? Tô chique agora — brinquei, fingindo segurar uma postura de funcionária importante.
— Funcionária e futura trançadeira profissional, amor — Júlia completou, rindo. — Vai ter que aprender a fazer baby hair em cinco minutos.
O resto da manhã passou rápido. Varrendo cabelo, escutando histórias de clientes, compartilhando risadas e tomando café preto no copo plástico. Cada gesto, cada conversa, cada cheiro do salão me fazia sentir que estava encontrando meu lugar, que eu podia criar algo meu ali, com esforço, suor e dedicação.
No fim do dia, fui contar para Kael. Ele estava sentado na escadaria da laje, camiseta regata, cigarro apagado entre os dedos, olhando o morro lá embaixo como quem conversa com os próprios fantasmas. A luz do entardecer pintava o céu de tons alaranjados, e tudo parecia ainda mais intenso.
— Arrumei um emprego — falei, me sentando ao lado dele.
Ele virou o rosto lentamente, seus olhos fixos nos meus por um instante, avaliando, quase como se tentasse adivinhar minhas intenções.
— Onde? — perguntou, cauteloso.
— No salão com a Júlia. Começo amanhã cedo.
O cenho dele se franziu, e percebi a preocupação em cada linha do rosto.
— No salão? Aqui no morro?
Assenti, sentindo meu coração bater mais forte.
— É. Quero construir algo aqui. Com as minhas mãos. Do meu jeito.
Kael ficou em silêncio, os olhos perdidos em algum ponto acima das casas, como se buscasse aprovação do céu. Depois, jogou o cigarro no chão, sem nem acender, e respirou fundo.
— Não gosto da ideia.
— Por quê? — perguntei, firme, tentando esconder minha ansiedade.
— Porque tem gente que fala demais, que olha torto. Você sabe como é. E eu queria te proteger disso.
— Kael, eu não vim até aqui pra viver escondida. — Minha voz ficou firme, carregada de determinação. — Eu não quero ser só "a mulher do Kael". Quero ser a Olivia. Que trabalha, que aprende, que erra, que acerta. Se eu tô aqui… é pra viver de verdade.
Ele passou a mão no rosto e olhou para o céu, como quem busca resposta nas nuvens.
— Eu só tenho medo. Medo de você se machucar por minha causa. Esse morro… não é fácil.
— Eu sei. Mas a vida nunca foi fácil pra mim. E aqui, pelo menos, eu tenho você. Tenho a Júlia. Tenho gente de verdade ao meu lado. Isso já é mais do que eu tive por muito tempo.
Kael respirou fundo, finalmente me puxando pela cintura. Encostou a testa na minha e fechou os olhos, um gesto silencioso de cumplicidade, proteção e carinho.
— Desde que eu saà da cadeia, tudo mudou. Achei que ia voltar pro mesmo lugar, com os mesmos problemas. Mas aà você apareceu. E… agora eu quero uma vida que eu nunca imaginei querer.
— Então a gente constrói ela juntos. Passo por passo — respondi, sentindo cada palavra ecoar como promessa no coração dele.
— Você é mais forte do que eu pensei, Livi.
— E você é mais doce do que finge ser.
Rimos baixinho, deixando o vento bater de leve, misturando-se com o barulho do morro: crianças gritando, panelas batendo, motos subindo a viela. Cada som parecia contar histórias de vida, dificuldades, superação e alegria.
O céu já ganhava tons mais quentes quando Kael sussurrou:
— Você tá criando raiz aqui. E eu… tô criando raiz em você.
Naquele instante, senti uma força crescer dentro de mim. Crescer dói. Crescer exige coragem. Mas permanecer no mesmo lugar, sem se permitir tentar, dói mais ainda.
Olhei ao redor, sentindo cada detalhe: o cheiro de café vindo das casas vizinhas, o som distante de uma música que escapava de uma janela aberta, o riso de uma criança correndo na escada, o vento batendo no meu rosto. Tudo era intenso, tudo fazia parte de mim agora.
— Vamos fazer isso juntos — disse, segurando a mão de Kael. — Um passo de cada vez, sem medo.
Ele sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de significado.
— Um passo de cada vez. Mas com você ao meu lado, sei que não tem erro.
E naquele momento, percebi: eu finalmente estava em casa.
Não apenas em um lugar fÃsico, mas dentro de mim, com raÃzes firmes, cercada por pessoas que me acolhiam, me respeitavam e me ajudavam a crescer. O morro, que antes parecia um labirinto de perigos, agora era um terreno fértil para sonhos, trabalho, amizade e amor.
A vida no morro não era fácil. Nem nunca seria. Mas ali, com Kael e Júlia, com o barulho da comunidade e o calor das pequenas vitórias, eu sabia que podia construir algo real.
Crescer dói. Mas escolher crescer, escolher tentar, escolher se lançar no mundo… isso, finalmente, me deu liberdade.
E assim, naquele dia ensolarado de inÃcio de manhã, eu sorri para o morro, para o vento, para Kael, e para mim mesma. Eu estava criando raÃzes. E, pela primeira vez, estava pronta para florescer.