đ CapĂtulo 2 â O Olhar dela
Narrado por Kael
Tem gente que acha que ser dono de morro Ă© sĂł dar ordem e ter muita grana. Que Ă© gritar, apontar o dedo, mandar calar e pronto. Mas isso Ă© sĂł a superfĂcie ta ligado. O que ninguĂ©m vĂȘ Ă© o preço que a gente paga e o que Ă© cobrado da gente ta ligado isso ninguĂ©m vĂȘ.
Pra manter a quebrada de pĂ©, a alma sangra todo o dia â e em silĂȘncio. JĂĄ enterrei parceiro que cresceu comigo jogando bola no campinho. JĂĄ tive que desconfiar de sangue do meu sangue. JĂĄ levei tiro, jĂĄ voltei da beira da morte. E ainda assim, tĂŽ aqui. Fincado. Vivo. ResponsĂĄvel por cada canto dessa favela que carrego como se fosse extensĂŁo do meu corpo e na minha alma.
SaĂ da cadeia faz uns meses.
LĂĄ dentro o tempo nĂŁo passa. Ele se arrasta. Um mĂȘs vira um ano. Cada segundo te ensina na marra aquilo que a rua nunca teve paciĂȘncia de mostrar. E vocĂȘ entende rĂĄpido: ninguĂ©m sente pena. O respeito Ă© fardo, nĂŁo presente. E a guerra nunca acaba, sĂł troca de endereço.
Quando eu voltei, todo mundo queria festa, queria barulho. Mas eu não. A minha cabeça não era a mesma. Voltei com mais cicatriz que tranquilidade. A primeira ordem que dei foi clara: se baile ia voltar, seria do meu jeito. Ordem. Segurança. Moral. Sem loucura, sem tiro a esmo, sem moleque metendo os pés pelas mãos. Quem quisesse bagunça que fosse pra outro canto longe da minha favela.
Naquela noite, eu nem queria descer. O corpo tava cansado, a mente mais ainda. Cobrança de todos os lados. Gente que queria favor, gente que queria medo. Mas o NK apareceu no portão com um copo de gin e a cara de quem não aceita resposta negativa.
â Desce, Kael. A galera precisa te ver. Tua presença Ă© blindagem pĂŽh.
Suspirei. Ele tinha razão. Quando eu apareço, o baile muda. Quem deve, some. Quem é cria, se anima. Quem é de fora, aprende onde pisa.
Desci com ele, Zoio e Menor. Encostamos no carro preto, o meu canto de sempre. A quebrada tava pulsando. O grave do DJ fazia o chão vibrar, churrasquinho soltando fumaça misturada com perfume barato, risadas altas, criançada correndo no meio do povo. A favela tava viva.
â TĂĄ suave hoje â Zoio comentou, observando.
â Se continuar assim, passa liso â Menor disse, sem largar o copo de whisky.
Eu sĂł observava. O baile Ă© mais do que mĂșsica. Ă termĂłmetro da quebrada. VocĂȘ sente na pele quando vai dar r**m, e naquela hora parecia estar tudo no eixo. AtĂ© que vi.
Ela.
Branquinha, meio perdida no meio da multidão, mas com um jeito de quem não aceitava se perder. O cabelo bagunçado pelo vento da moto-tåxi, o olhar firme e, ao mesmo tempo frågil. Era como se todo mundo se mexesse, menos ela. Uma pausa no caos.
â Quem Ă© aquela? â perguntei pro NK, sem desviar os olhos.
Ele olhou rĂĄpido, depois riu.
â TĂĄ com a JĂșlia. Deve ser amiga dela. Cara de asfalto.
â TĂĄ com medo.
â NĂŁo parece â Zoio retrucou, rindo. â Olha o jeito que encara.
E era isso. Ela olhou. E nĂŁo desviou.
Na quebrada, olhar é palavra. E o dela falou muito. Não era atrevimento, não era ousadia de quem quer chamar atenção. Era dor. Uma dor funda, silenciosa, que eu reconheci na hora. Jå tinha visto aquilo no espelho.
â Vai lĂĄ? â NK perguntou, erguendo a sobrancelha.
â JĂĄ tĂŽ indo.
Dei o primeiro passo.
A cada passada, o espaço abria. Não porque eu pedia. Mas, porque todo mundo sabia quando eu andava daquele jeito, era porque tinha algo que me chamava mais forte que o normal. Não era treta. Não era cobrança. Era ela.
Cheguei perto. A amiga dela cochichou alguma coisa no ouvido e tentou puxar o braço, mas ela ficou. Firme. Como se estivesse presa no chão.
Parei a poucos passos. O som do baile parecia distante. Minha voz saiu baixa, sĂł pra ela ouvir:
â Qual foi, princesa? Primeira vez por aqui?
Ela respirou fundo, pensou antes de responder. Isso jĂĄ dizia muito. Mas respondeu.
â Ă. SĂł tĂŽ de visita.
De visita.
Essas palavras ecoaram. A vida nunca avisa quando uma visita vira estadia.
â DifĂcil sair depois que pisa aqui. A quebrada prende.
â Eu sĂł vim respirar um pouco â ela disse, com um sorriso triste.
â E tĂĄ conseguindo?
â Ainda tĂŽ tentando.
Ficamos em silĂȘncio. Um silĂȘncio pesado, mas nĂŁo r**m. Eu olhava nos olhos dela e nĂŁo via brilho. Mas via verdade. Cansaço, dor, resistĂȘncia.
â Qual seu nome? â perguntei.
â Olivia.
â Kael.
Ela jĂĄ sabia. Todo mundo sabia. Mas mesmo assim, balançou a cabeça, tĂmida.
â Prazer.
â VocĂȘ sempre fala assim com quem chega? â ela perguntou, arqueando a sobrancelha.
Sorri de canto.
â NĂŁo. SĂł com quem me olha desse jeito.
â Que jeito?
â Como se enxergasse alĂ©m da casca.
Ela baixou o olhar, pela primeira vez. Mas não de medo. Parecia⊠exposta. Como se eu tivesse visto demais.
â TĂĄ em boas mĂŁos â falei, apontando pra JĂșlia com a cabeça. â Mas qualquer coisa⊠é sĂł chamar.
Dei um passo pra trĂĄs. NĂŁo era hora de mais. NĂŁo ainda. Mas jĂĄ era suficiente.
Voltei a encostar no carro, mas nĂŁo voltei comigo mesmo. Porque, no meio de tanto barulho, o que ficou martelando em mim foi o silĂȘncio do olhar dela.
Aquela meninaâŠ
NĂŁo ia embora tĂŁo cedo.
Nem da favela.
Nem da minha mente.