Capítulo 5 - Angel

1646 Words
Angel Narrando... Dentro do Uber, sinto o coração acelerar, uma mistura de medo. Olho pela janela, enquanto meu pensamento gira em torno de uma única ideia : encontrar um lugar onde o Camilo, não possa me alcançar. O único refúgio que consigo imaginar é a Rocinha, uma comunidade que eu conheço de longe, mas que parece a única opção viável agora. Será arriscado, eu sei, mas o que mais eu posso fazer? Estar em qualquer outro lugar sendo conhecida como a mulher dele é um convite ao perigo. — Me leva pra Rocinha, por favor… ___ minha voz sai quase como um sussurro, carregada de uma expectativa que eu mesma não consigo entender. O motorista me olha pelo retrovisor, uma expressão de hesitação no rosto. Ele deve estar pensando o que uma mulher como eu faz pedindo pra ir para um lugar como aquele. Xxx — Tem certeza, moça? ___ ele pergunta, e eu sinto um nó na garganta. O que pode ser mais arriscado do que continuar vivendo debaixo do mesmo teto que o Camilo? Então, eu aceno concordando, decidida. — Sim, só me deixa lá… ___ A resposta sai com um peso que eu m*l consigo suportar. Ele dá de ombros, mas logo após, o carro ganha velocidade, me levando para um destino incerto. Nunca pensei que minha vida chegaria a esse ponto. O abandono da clínica onde eu trabalhava, o lugar que era meu refúgio, minha paixão, porque eu amo a profissão que escolhi, mas por causa daquele homem, eu tive que sair de lá. A raiva que eu sinto é quase palpável, uma chama ardente que me consome por dentro. Como pude chegar a esse ponto? A dor e a frustração se misturam, e a cada quilômetro que passamos, a sensação de impotência me invade mais. Eu sei que, quando ele perceber minha ausência, ele não vai hesitar em distorcer a verdade. A mídia vai ser sua aliada, e ele usará sua influência como policial do BOPE para me atacar. A ideia de que ele pode dizer que eu envenenei aquela senhora é como um veneno que se espalha em meu peito. Eu juro por tudo que é mais sagrado que eu jamais faria algo tão horrível. Mas sei que ele não vai pensar duas vezes antes de ferrar com a minha vida de vez, e alguém de dentro da clínica, alguém que se deixou corromper, deve ter sido instruído a me destruir. Eles tiraram fotos de mim medicando aquela senhora, e logo após, com certeza, alguém esperou minha saída para cometer o crime que eu nunca cometi, mas como vou provar? eu nem sei o que vai ser de mim, de verdade. A angústia me acompanha, como uma sombra que não se afasta. Enquanto o carro atravessa as ruas, imagino o olhar de desprezo que a sociedade terá sobre mim. Uma mulher que, por causa de um homem, se tornou a vilã de sua própria história. Eu não sou isso. Eu não sou a mulher que envenenou uma idosa. Sou apenas uma mulher tentando escapar de um relacionamento tóxico que me aprisionou. O motorista faz uma curva, e meu estômago se revira. O que eu vou encontrar na Rocinha? Um abrigo ou mais perigos? A ideia de correr para um lugar como aquele me faz sentir como se estivesse saltando de um precipício, sem saber se haverá um colchão macio pra me receber ou se vou despencar em um abismo. Assim que o Uber para em frente a comunidade, uma onda de emoções me invade. As cores, os sons, tudo é diferente. É um mundo que vive à parte, onde as regras são diferentes, e a sobrevivência é uma arte. Posso não ser bem-vinda aqui, mas pelo menos estou longe dele, e isso já é um alívio. A adrenalina corre em minhas veias, e, por um breve instante, sinto uma pontinha de esperança. Talvez, apenas talvez, eu possa encontrar um novo começo aqui, longe das garras daquele homem que fez da minha vida um inferno. Xxx — Moça, é somente até aqui... ___ diz me tirando do transe, e eu concordo, um pouco aérea. Tiro um valor da bolsa e entrego pro motorista. Desço do carro sem nem esperar o troco. E assim, enquanto o carro se afasta, eu respiro fundo, reunindo toda a coragem que tenho. Esse é o meu momento de recomeço, talvez viver aqui seja uma luta constante, mas no momento essa é a melhor opção pra mim. Sinto olhares na minha direção e quando eu olho pra entrada da Rocinha, vários homens armados, como se fossem um exército. Eu começo a me aproximar deles, apertando a minha bolsa e tentando parecer o mais natural possível, enquanto eles me encaram como se fossem predadores. Ln — Qualé patricinha... tá querendo o que aqui? ___ pergunta de uma forma intimidadora, ajeitando a fuzil nas costas. Eu suspiro fundo, sentindo a palma da minha mão suando. — Eu sou médica... doutora Fernandes... gostaria de saber se vocês teriam uma casa pra alugar? eu tô sem bagagem, mas eu preciso muito de um lugar e dinheiro, não é problema... ___ digo firme, não desviando o meu olhar. Ele me analisa de cima para baixo, e de baixo pra cima. Ln — Tu? mô cara de patricinha, querendo uma casa aqui na nossa comunidade? tá de tiração mina, acha que eu vou cair nesse teu papinho? desenrola essa fita direitinho pô... se tu falar a verdade, eu posso ver o que faço por tu, se não, tu pode dar a volta e meter o pé... ___ fala rude, e eu suspiro fundo, antes mermo de eu responder ele, o radinho dele chia. — Não sai daqui, espera aí que eu vou trocar uma ideia com o paizão. — Tudo bem... ___ digo, e ele se afasta com o radinho próximo a boca, a voz do outro lado chega a me arrepiar só de ouvir, o tal " paizão" deve ser muito r**m, eu tenho até medo de cruzar com um cara desse. Aguardo ali uns minutos, sentindo os olhares sobre mim, até que o moço retorna. Ln — Aí mina, vou te dar o papo, eu consegui um barraco pra tu, mas só porque eu senti fé na tua pessoa, já é? e também, quando eu precisar tu vai fazer uns curativos de graça em mim, porque se tem uma parada que eu não suporto e ir lá pra upa, tô te dando uma moral agora, e mais pra frente, se eu precisar, tu vai me salvar, já é? tamo junto? — Combinado! ___ digo sem hesitar. E ele concorda manjando com a cabeça. Ln — Já é então! cê sobe comigo, vou te passar as regras da favela... ___ fala, e eu concordo — Chega pra lá rapaziada que a patricinha tá liberada! Na hora que ele fala isso, os meninos da contenção abrem espaço pra eu passar, e eu só sigo. Minhas pernas estão bambas, mas agora eu já tô aqui dentro e não tem como voltar atrás. Ln — Me chama de Ln, já é? meu vulgo... sobe aí na minha garupa mina que eu vou te fazer voar... ___ fala brincalhão, subindo na moto, e eu dou risada. — Prazer Ln... ___ digo subindo na sua garupa, e ele negä com um sorrisinho de lado. Ln — Satisfação mina, prazer eu só dou na cama, morô? e um prazer safadö, tapão na b***a e puxão de cabelo ___ fala, e eu sinto a minha bochecha esquentar na hora, acabo ficando sem resposta — Segura no pai... ___ quando ele diz isso, eu seguro na sua cintura e ele acelera, meu cabelo voa e ele sobe o morro rápido, questão de minutos ele para em frente a uma casa. — Aí mina, esse foi o barraco que eu consegui pra tu, precinho bacana, 700 o aluguel, incluso água e luz, tá doce né? — Tá ótimo... sei nem como te agradecer... ___ falo descendo da sua garupa, e ele coça o queixo me encarando com um olhar safadö. Ln — Tem que agradecer não pô, paga as paradas direitinho e não faz cagada, tu já vai tá salvando a minha pele. Eu garanti tu pro meu chefe, pegou a visão? não sei nem porque, mas senti confiança em tu... agora não decepciona não mina, papo dez... — Pode deixar... Ln — Agora as regras da comunidade, nem pense em ser x-9, porque aqui não tem vez, não troque ideia com os bota, não se alie com inimigo, viu alguma coisa que não seja pro teu bico? fica cega, ouviu alguma coisa? finge que é surda, já é? e tudo que cê for fazer, precisa de ordem do paizão... — Ok, muito obrigada mesmo... sabe me dizer se aqui fazem entrega? tipo coisas de mercado? Ln — Não mina.. aqui ninguém faz delivery mermo não... mas eu mando um dos cria trazerem umas paradas pra tu, já é? — Ok... muito obrigada mais uma vez ___ digo sorrindo. Ele desce da moto, e abre a casa pra mim, sem chave e nada. Entro junto com ele, o mesmo me apresenta a casa todinha, eu gostei, a casa não é tão grande, mas é confortável, e aos poucos eu vou fazendo daqui o meu novo lar. Ln — É isso então mina, tô metendo o pé, porque o trampo me espera... qualquer parada é só me acionar, já é? tem uma mina, a Raabe, ela vende umas roupas maneiras pra caralhø... vou mandar ela passar aqui pra te dar uma força... — Certo, eu vou aguardar, muito obrigada mais uma vez... ___ digo sorrindo e ele concorda, sem falar nada. Ele sai da casa, me deixando ali sozinha. Eu me jogo no sofá, suspirando fundo, não tô nem acreditando que talvez, só talvez agora eu tenha um pouco de paz. Contínua...
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