TRIBO DE MAUM, SUL DE KEBEN • 27 DE IYAR DE 2760
(Aproximadamente 1° de Junho de 1000 A. E. C.)
Alexander anda vagando há muito tempo. Ele já viu coisas extraordinárias, mas também já viu coisas inimagináveis. Ele é uma delas, inclusive, o que chamam por aí de vampiro. Mas, não qualquer vampiro. Alexander nasceu assim e isso o faz único, como também desperta interesse de pessoas más.
Até completar 16 anos ele sabia que havia algo diferente nele, e seus pais também, porém, não chegavam a saber o que era. Hoje, no auge dos seus 355 anos, vaga por aí, sempre ajudando em aldeias como o “curandeiro voluntário”, e, aproveitando para se alimentar de sangue. Claro que não mata as pessoas, mas várias tribos tentam salvar seus doentes fazendo transfusões errôneas com sangue de animal. Essa é a deixa de Alexander. Apesar da idade, sua aparência não passa dos 20 anos. Ao contrário do que imaginam, Alexander não é imortal. O tempo passa devagar para ele. Mil anos para humanos, é como um ano para Alexander.
Um dia, caminhando pelas ruas gélidas de Keben, onde hoje se localiza Biblos no Líbano, ele notou alguém o seguindo. Logo percebeu que, assim como ele, a pessoa também era um vampiro. Caminhou a largos passos, até porque não queria problemas, mas o homem acabou o alcançando.
— Ora, ora, o que temos aqui. Se não é o poderoso Alexander Bloodyeye. — Disse o homem, o encarando seriamente, segurando seu braço com suas mãos frígidas.
— Vejo que me conhece muito bem, mas receio que não fomos apresentados formalmente. Posso saber como se chama o cavalheiro que comigo fala? — Alexander olhou para a mão do homem em seu braço e o encarou novamente.
— Lenore deseja te conhecer há muito tempo.
— Desculpe-me, quem seria Lenore? — Perguntou Alexander confuso.
— Você nunca ouviu falar dela? — O homem encarou o vampiro boquiaberto. — Nunca ouviu falar da Dinastia Romanov? O maior e mais poderoso clã de vampiros do mundo.
— Perdoe-me, mas não. Não mantenho relações com pessoas como eu.
— Sim, claro. Você só se relaciona com humanos. Mas, não posso deixar essa oportunidade passar. Você vem comigo. — O homem disse com certeza.
— O que te faz pensar que irei acompanhá-lo?
— Vamos! Garanto que não irá se arrepender. Afinal, que m*l poderíamos fazer a você? Você vem comigo!
— Certamente você não me conhece tanto quanto pensa. — Alexander riu com escárnio. — Eu não posso ser hipnotizado.
— Eu... Não... — O homem confuso tentou se explicar.
— Seu... clã, são todos assim? — O loiro manteve o desdém em sua voz.
— Assim como?
— Insistentes. — Finalizou, notando ao redor alguns vampiros espalhados em meio às pessoas. Uma confusão ali poderia ser fatal para os humanos. — Espero que sua casa não seja longe. Não quero me atrasar para o jantar. — Alexander falou, poupando uma anarquia desnecessária.
— Acompanhe-me, por favor.
Era impossível não notar cada detalhe que aquele palacete construído entre enormes árvores possuía. O tom bege mediterrâneo juntamente com os revestimentos mistos das paredes davam um toque sofisticado àquela mansão. Das inúmeras janelas de diferentes formas e tamanhos, se tinha uma grandiosa vista do vale e principalmente do pequeno lago esverdeado que havia à frente da mansão, onde pedras e plantas tomavam seu devido espaço. Ao entrar pelo pequeno hall adornado de pedras em tons de areia, Alexander notou alguns vampiros à sua espera.
— O magnífico Alexander Bloodyeye, na minha casa. — Uma voz feminina ecoou. — Cheguei a imaginar que era apenas uma lenda.
Uma mulher de pele levemente bronzeada, cabelos longos e pretos, olhos levemente puxados, se aproximou dele. Então essa era Lenore, pensou ele.
— Que honra recebê-lo. Ouvi coisas grandiosas sobre você.
— Nunca ouvi falar de você. — Rebateu de maneira banal.
— Bom, — A mulher começou a falar depois de respirar fundo. — como pode ver, comando um clã.
— Maravilha. — Seu tom de voz era de zombaria. — Já que nos conhecemos, irei me retirar. Não quero me atrasar para o jantar.
— Ainda está cedo. — Lenore rapidamente respondeu e dois dos seus homens pararam atrás de Alexander.
— Não quero problemas.
— Não vejo nenhum problema. Apenas não terminei ainda a minha conversa com você.
— Se puder agilizar, pois realmente não quero me atrasar.
— Você nunca quis ser grande? Uma lenda você já é. Agora com meu clã, você seria invencível.
— Não quero ser invencível, pelo contrário, quero distância de problemas. Agora se me der licença. — Alexander se virou para sair, mas os homens ameaçaram impedi-lo.
— Garotos, isso não será necessário. — Lenore falou para seus homens. — Eu gostaria muito que você considerasse. Veja bem, eu gosto de poder. É ótimo tê-lo. Mas, como você sabe, meus poderes são limitados. Hipnose, por exemplo, posso usá-la apenas com humanos. Já você pode hipnotizar outros seres sobrenaturais. Seria maravilhoso incluí-lo em nossa família.
— Duas observações devo fazer. A primeira é que eu não preciso de uma família, a minha já partiu há muitos anos atrás. A segunda coisa é que eu não utilizo meus poderes de maneiras banais. Na pior das hipóteses, em apenas casos de vida ou morte.
— Você é uma vergonha para nossa espécie! — Lenore se exaltou. — Tem poderes grandiosos e não utiliza. Vive nessa de ser bom moço. Um dia nos encontraremos de novo e dessa vez você se unirá ao Clã Bloodlust. Ou eu não me chamo Lenore Romanov.
— Aguardo ansiosamente esse dia. — Debochou ele.
— Tirem ele daqui e tragam a garota. Toda essa discussão me deixou faminta.
Alexander chegou até a porta, mas não conseguiu terminar o caminho. Os gritos da garota pedindo socorro foram demais para sua mente.
— m***a de senso de justiça! — Alexander murmurou.
Empurrou um dos homens que bateu com toda a força na parede e caiu desmaiado no chão. O outro veio para cima dele, e Alexander segurou sua cabeça, quebrando o pescoço e soltando o corpo. Voltou para onde estava e viu Lenore mordendo o pescoço de uma garota que deveria ter no máximo dezoito anos. Ele encarou a cena com repúdio, ao olhar nos olhos da garota notou o desespero dela.
— Voltou para a festa? — Lenore soltou a garota no chão e debochou.
— Antes fosse…
— Peguem ele. — Lenore ordenou para os homens que estavam ali.
Um por um, Alexander derrubou, matando todos com facilidade. Ao notar a desvantagem, Lenore se desesperou.
— Parem! — Ordenou para outros homens que chegavam no lugar. — O que você quer?
— A garota, ou acabo com todos, incluindo você.
— Leve-a. Mas saiba que isso não ficará assim. Nos encontraremos e é bom você ter um ótimo motivo para lutar de volta, pois irei para cima com toda a força que tiver.
Alexander se aproximou e ajudou a garota a levantar, saindo dali.
— Vou te levar para minha casa. Só para te ajudar. — Ele pegou ela no colo e, usando sua velocidade, em questão de segundos estava em sua casa.
— Quem é você? — A garota questionou com dificuldade.
— Alexander Bloodyeye. — A ruiva o encarou boquiaberto. — Não me diga que você me conhece?
— Você… Eu… Achava que era uma lenda.
— Lenda? — Olhou confuso para ela. — Você é?
— Aileen Mackenzee.
— Aileen? — Alexander retrucou. — Um pouco longe de casa, não?
— Sim, eles me pegaram na floresta na Escócia e me trouxeram para cá. Já faz anos e você me salvou.
— Anos? — Ele olhou para a menina. — Essa não é a primeira vez que ela faz isso com você?
— Não, infelizmente. Mas finalmente poderei voltar para minha alcatéia.
— Lobo, não é mesmo? — Ele sorriu para ela.
— Sim, mas ainda não ascendi.
— Ainda não completou dezoito anos?
— Faltam algumas semanas. Eu já não tinha esperança alguma. Lenore dizia que ia me m***r antes de completar minha ascenção. Mas graças a você tudo mudou. Eu serei eternamente grata por isso, até o dia que eu morrer. Até o dia que minha linhagem se extinguir.
— É uma promessa? — Alec brincou, sabia que os lobos levavam suas promessas a sério, sendo até caso de morte.
— É mais que isso. É gratidão eterna. Espero um dia poder retribuir à altura.
A garota de pele branca e cabelos longos e ruivos sorriu para ele. De certa maneira, Alexander estava satisfeito por ter ajudado a jovem que tinha toda uma vida pela frente.
— Bom, eu vou jantar. Você aceita? Deve estar faminta. — Alec ofereceu.
— Confesso que sim. Mas, não quero incomodar, você já fez demais.
— Não incomoda. Vou preparar algo.
— Você… Desculpe, não é nada. — A garota abaixou a cabeça envergonhada.
— Sim, eu como comida humana. — Alec riu. — Porém, de tempos em tempos preciso de sangue para recuperar minhas energias. É como se enfraquecesse a ponto de ficar de cama.
— Certo. Intrigante. — Ela riu levemente.
— Bom, teoricamente os vampiros criados por um upyr, assim como eu, também conseguem. Apenas os dampeer precisam de maior quantidade de sangue para sobreviver.
— Quanto mais longe for a criação dele de você, mais sangue precisa? — Ela questionou confusa.
— Mais ou menos isso.
— E quantos vampiros você criou? — Ela encarava ele atenta.
— Curiosa você. — Alec riu. — Nenhum. Não vejo isso como uma benção, como muitos dizem. É bem mais uma maldição. Não quero outras pessoas com esse fardo.
— Você é mesmo uma lenda. — A garota riu. — E o sol? — Ela perguntou, fazendo Alec rir um pouco alto. — Perdoe-me. Nunca conheci um vampiro antes, ainda mais um upyr.
— Entendo. O sol me incomoda, mas nada demais. Sobrevivo, porém prefiro lugares frios.
— E estacas no coração te matam?
— Sim, mas isso mata qualquer um, não é mesmo? — Ele riu.
Logo após eles comeram, Alexander começou a juntar as suas coisas.
— Você vai embora? — Aileen perguntou.
— Te acompanharei até certa altura e depois irei procurar outro lugar. Não posso continuar nesse lugar. Espero nos encontrarmos algum dia.
— Eu espero um dia retribuir a você. — Ela sorriu para ele.
Mal sabiam que infelizmente não se veriam mais, entretanto, isso não significa que a promessa não continuaria. Muito pelo contrário, Aileen estava mais do que certa. Sua promessa seguiria até a última linhagem da sua espécie. E era o bastante para fortalecer todos os seus descendentes, em gratidão ao vampiro que a livrou da morte. Que a salvou. Como jamais fez com ninguém.