WINDBER, WESTERN USA • 02 DE OUTUBRO DE 2008
Christoffer e Ann-Marie estavam sentados na biblioteca, tentando barganhar um acordo acerca do trabalho.
— Nós precisamos entrar em um consenso, Ann-Marie — Christoffer disse, impaciente.
— Eles eram imaturos. Nada como retratá-los como os adolescentes que eram — a morena rebateu, simplista.
— Eles não eram tão novos como você pensa — murmurou ele em resposta.
— Quem garante isso a você? Shakespeare te contou? — a morena debochou, fazendo Christoffer rolar os olhos.
— Eu acho melhor fazermos isso separadamente. Entregamos e explicamos tudo. — O rapaz passou a mão pelos cabelos.
— Você é teimoso igual a uma mula empacada! — A moça levantou. — Não aceita a opinião alheia e jura que está certo! — exasperou-se.
— Não é isso! Você não entende. Eu estou tentando te mostrar o lado mais belo da história! — Christoffer explicou.
— Lado mais belo? — A morena riu com escárnio. — Imaturos e inconsequentes, isso era o que Romeu e Julieta eram. Fizeram tudo sem pensar nas consequências — completou, irritadiça.
— Podemos entrar em um acordo. Eu faço a minha resenha, você faz a sua. No final, nós juntamos as melhores partes — sugeriu Christoffer.
— Eu vou ter todo um trabalho para no final você escolher a sua — Ann-Marie resmungou, pegando o celular de cima da mesa e indo em direção a saída.
— Eu estou falando com você, não me deixe conversar sozinho! — Christoffer bradou um pouco alto e muito enfezado.
— Eu deveria ter deixado você falando sozinho na feira há muito tempo atrás! — rebateu ela ao gritar, fazendo o rapaz olhá-la assustado, além de chamar a atenção de algumas pessoas por ali.
— O que disse? — perguntou ele confuso, aproximando-se da moça.
— Eu… — Ann-Marie estava transtornada, pois nem mesmo ela se recordava do que havia acabado de falar. — Eu… preciso ir.
Ao virar-se novamente para a saída, a morena acabou esbarrando em alguém e uma maçã que a pessoa segurava caiu no chão.
Imediatamente, memórias surgiram em sua mente. Na cabeça de Ann-Marie era como se um filme estivesse passando. Ela estava em uma feira, derrubou uma maçã e então Christoffer apareceu.
A jovem mulher estava experimentando um misto de sentimentos. Seu coração agitava-se, parecendo querer saltar de seu peito a qualquer momento.
Completamente desorientada, Ann-Marie saiu dali, deixando Christoffer desordenado. Nada fazia sentido naquele momento. O moreno encontrava-se preocupado com a jovem mulher, pois sentia o palpitar alheio agitado, nervoso.
Ela, por sua vez, correu até a saída do prédio, pois precisava de ar puro. Respirando profundamente, a moça acendeu a tela do celular para verificar as horas. Porém, franziu sua testa ao perceber que havia no ecrã a imagem de um lago. Curiosamente, era o mesmo local que sonhara dias atrás.
Sua cabeça parecia explodir naquele instante, visto que nada mais estava fazendo sentido. Logo assustou-se ao receber uma mensagem.
"Você pegou meu celular por engano, depois da última aula te encontro no estacionamento. Te levo até em casa. Chris"
Resmungando alguns palavrões mentalmente, ela clicou na tela para desbloquear o aparelho, entretanto havia uma senha numérica nele. Pensou por alguns segundos e digitou “1580”, fazendo com que o celular fosse destravado.
A jovem estava cada vez mais desorientada, visto que nunca havia mexido no celular de Christoffer antes.
"Só tenho mais uma aula, e então estou liberada. Você tem mais alguma?"
Logo a resposta chegou.
"Apenas uma também."
Ann-Marie respirou fundo e caminhou para dentro do prédio, indo até o seu armário para pegar o material necessário e encaminhar-se para a sala. Sua aula seria no Bloco A, enquanto a de Christoffer ocorria no Bloco G. Logo, ambos não teriam tempo de procurar um ao outro para trocarem os telefones.
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Enquanto isso, do outro lado da cidade, Alexander e Olivia encontravam-se em um campo. Deitados sob o luar, contemplavam o céu estrelado acima deles.
— Conte-me algo que ninguém saiba — Alexander pediu em tom divertido enquanto observava as constelações.
— Sobre o quê exatamente? — Olivia o olhou rapidamente e voltou a encarar a imensidão.
— Sobre você. Um segredo… — Sua fala soava misteriosa.
— Preciso pensar… — falou em diversão. — Meu nome não é Olivia de verdade.
Era a primeira vez que a ruiva admitia tal informação para alguém.
— Olha só, parece que temos uma impostora. — Alexander riu e a encarou. — Como você se chama então?
— É Ayla — respondeu envergonhada. — Quando me mudei, troquei o nome.
— Eu prefiro Ayla. Mais bonito e combina com você, luz da lua.
Olivia olhou surpreendida para o loiro e Alexander lançou uma piscadela para ela.
— Tem… — falaram em uníssono e riram.
— Você pode falar. — O loiro virou de lado, observando a companheira.
— Um segredo de cada vez… Agora é a sua vez de contar. — A ruiva também virou na mesma posição, encarando-o de volta.
— Eu tenho um nome do meio, mas nunca uso. Ninguém sabe dele, nem mesmo Chris.
— E depois eu que sou a impostora. — Ela riu levemente. — E como é esse nome misterioso?
— Tenebris… É latim — revelou ele baixinho ao fazer uma careta. — Meus pais eram criativos.
— Alexander Tenebris Bloodyeye! Achei interessante. O que quer dizer?
— Escuridão… — murmurou. — Então, Ayla… — desviou o assunto. — Ayla Mackenzie? — perguntou arqueando a sobrancelha.
— Escuridão… — Olivia murmurou pensativa.
— O quê? — Alexander chamou a atenção da ruiva.
— Não… Er… Ayla Mackenzee. Quando me mudei para cá, americanizei o sobrenome e usei o nome de meu pai, no caso Oliver. Assim me tornei Olivia Mackenzie.
— Mackenzee? Ayla Mackenzee? Escocês? — perguntou o loiro, surpreso.
— Sim, como sabe? — Ela o encarou confusa.
— Conheci uma Mackenzee, mas isso já faz muitos anos. Muitos mesmo!
— Da Escócia?
— Sim, uma loba. Coincidência, não é mesmo? — Alexander analisou Olivia, que estava com o olhar distante.
— O que aconteceu com ela? — A ruiva encarou o parceiro profundamente com um olhar sério.
— Para falar a verdade, eu nunca mais a vi. Engraçado porque ela me fez uma promessa — O rapaz riu levemente ao se lembrar daquele dia. — Ela disse exatamente assim: "Espero um dia poder…"
— "Retribuir à altura…" — Olivia completou e ele encarou-a assustado. — Foi você!
— Eu… Como você sabe?
— É óbvio! Agora tudo faz sentido. — A moça espantou-se com sua descoberta e rapidamente se sentou. — Você ajudou ela. A minha linhagem. Você nos salvou! É por isso que estamos conectados, é por causa da promessa que ela te fez. O juramento fez surgir a profecia que me envolve. Essa era a retribuição dela!
— Do que você está falando? — Ele também se sentou, tentando entender tudo o que Olivia dizia.
— Não consegue ver? Eu sou a sua retribuição.
— Isso não faz muito sentido. — Alexander não conseguia acompanhar aquela linha de raciocínio da ruiva.
— Escuta, ela foi eternamente grata a você. Se não fosse você, Alec, eu não estaria aqui hoje. Sou a última da linhagem Mackenzee. Sou a sua retribuição. O que nós temos é a sua recompensa.
— Você? Isso não tem o menor cabimento. Está falando que o que temos é mera coincidência?
— Não, eu estou dizendo que estávamos destinados a nos encontrarmos. Era nosso destino e a profecia dizia isso. Não acredito que a minha avó estava certa esse tempo todo e que a predição era realmente sobre mim. Você é meu companheiro de alma!
— Que profecia? — Alexander tentava assimilar tudo. — Companheiro de alma, o que é isso?
— É uma coisa de lobo…
TRIBO DE MAUM, SUL DE KEBEN • 27 DE IYAR DE 2760
(Aproximadamente 1° de Junho de 1000 A. E. C.)
Aileen caminhou pela floresta até onde ficava a entrada do vilarejo onde morava. Já fazia anos desde que havia sido pega. Não cultivava mais esperança, até que Alexander Bloodyeye a ajudou, livrando-a de Lenore Romanov.
Assim que chegou, chamou a atenção de algumas pessoas, que logo chamaram a família Mackenzee. Sem acreditarem, correram até lá.
— Aileen! — Sua mãe disparou até ela, abraçando-a. — Minha filha! — A mulher beijava-a, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
— Mamãe! — A ruiva agarrou-a. — Senti tanto a sua falta.
— Aileen! Filha! — Um homem alto e barbudo aproximou-se das duas.
Depois do emocionante reencontro, Aileen começou a contar o que havia acontecido consigo e como conseguira chegar ali.
— Há alguns anos, estava andando a ermo e acabei me perdendo na floresta. Dei voltas e voltas, até uma mulher vir em minha direção. Primeiro, de maneira amigável, disse que me ajudaria. Porém, logo mais, dois homens surgiram e me levaram para longe. — Aileen respirou fundo, lembrando-se de tudo.
— Fale-me e eu mesmo irei matá-la! — seu pai disse, raivoso.
— Não, pai! Ela é muito poderosa. Faz parte de um antigo clã.
— Como você escapou então, já que essa mulher é tão poderosa? — Sua mãe procurava explicações.
— Uma pessoa me ajudou. Um væarlaï, na verdade.
— Um væarlaï ajudou você? Uma loba? — A mulher custava acreditar na história da filha.
— Sim! Alexander Bloodyeye me salvou.
— Bloodyeye? Ele é apenas uma lenda! — o homem mais velho disse com escárnio. — Além do mais, vampiros não ajudam lobos.
— Não, não é! Ele salvou a minha vida e eu serei eternamente grata a ele. — A ruiva sorriu, recordando-se da promessa.
— Você disse isso a ele? — perguntou a mulher, preocupada.
— Sim, por quê? — Aileen questionou confusa.
— Você fez uma promessa a um væarlaï? — Foi a vez do seu pai perguntar.
— Ele salvou a minha vida! O que mais eu poderia fazer? — a ruiva exaltou-se.
— Então foi ela. Aileen gerou a profecia no momento em que fez a promessa. — a mulher disse, respirando fundo.
— Que profecia? — Aileen questionou, sem entender.
WINDBER, WESTERN USA • 02 DE OUTUBRO DE 2008
— Então, pouco tempo antes de Aileen retornar, os anciãos tiveram uma visão sobre a profecia, que dizia: "Certos amores são necessários e determinados sentimentos vão além do tempo. Companheiros de almas ligados pelo destino sempre se encontrarão. Elas estão destinadas a se encontrarem e se amarem. Vocês foram abençoados com a lua cheia…"
Ambos se assustaram com o som do celular de Alexander tocando. Logo que pegou o aparelho, viu o nome de Christoffer na tela.
— Termina, Liv. Christoffer pode esperar um pouco. — Alexander disse, rejeitando a chamada.
— Sim, claro. — Olivia balançou a cabeça, ainda confusa. Porém, assim que abriu a boca para recomeçar, novamente o celular desatou a tocar. — Atende ele, depois eu termino.
— Chris?
Alexander estranhou a situação, pois aquela seria a hora em que seu irmão estava indo para casa.
— Não, Alec. Sou eu, Ann-Marie — Alexander entrou em estado de alerta pelo tom de voz usado pela moça.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, preocupado. — Onde está meu irmão?
— Eu e Chris estávamos em aulas diferentes hoje. Ele havia combinado de me encontrar na saída, porque acabamos pegando os celulares trocados. Só que eu estou ligando e ele não está atendendo — a morena explicou-se.
— Já olhou na última sala em que ele estava?
— Sim, não tem mais ninguém. Eu estou realmente preocupada, ele não me deixaria aqui sozinha uma hora dessas. — Ela estava com a respiração pesada. — Eu acho que tem algo errado.
— Certo, me espera que logo eu chego aí. — o loiro pediu, inspirando fundo.
— Está bem, eu só… — Um barulho ecoou do outro lado da linha.
— Ann-Marie? — Alexander chamou, preocupado com aquele silêncio repentino.
— Por que Ann-Marie está com o celular de Chris? — Olivia perguntou confusa.
— Eu acho que tem alguém aqui — a morena disse baixinho.
— Ann, vá para um lugar onde tenha mais pessoas — Alexander orientou ao se levantar.
Olivia, sem sequer compreender o que ocorria, acompanhou o parceiro em seus movimentos, sentindo sua agitação repentina.
— Eu… Eu acho que vi o Mitch. — A voz da moça soou como um sussurro.
— Você deve estar brincando comigo! Ann-Marie, vá para o lugar mais movimentado que houver por perto. Corre! Eu logo irei chegar.
Alexander sentiu todo o seu corpo tremer quando escutou barulhos do outro lado da linha, ruídos que pareciam de uma luta; sons de alguém a agarrar a morena.
— Ann-Marie!! — exclamou, alto. — Nós temos que ir!
Perturbado, o rapaz puxou a mão de Olivia e rapidamente entrou no carro.
— Ora, ora, se não é o “poderoso” Alexander Bloodyeye!
Ao escutar a voz de Amaymon, o vampiro sentiu-se enrijecer por toda a sua estrutura.
— Escuta aqui, Amaymon. Se alguma coisa acontecer a Ann…
Sua fala foi interrompida por uma risada repleta de escárnio.
— Você não está em opção de exigir nada, Bloodyeye — debochou o outro. — Foi tão fácil matá-la da outra vez… Você sabe que ela é Intervallum, não sabe?
— Eu cometi o erro de deixar você e sua irmã vivos. Saiba que não irei repetir a falha novamente — Alexander ameaçou completamente irado, fazendo seus olhos ficarem mais vermelhos que nunca.
— Se você conseguir nos encontrar… — Amaymon desafiou ao rir, finalizando a ligação.
— Eles pegaram os dois? — Olivia perguntou, sentindo os seus olhos marejados.
— Não por muito tempo — Alexander garantiu enquanto dava a partida no carro, seguindo para a universidade.