Na mira

1014 Words
(POV Aurora) A sexta começou diferente. Um peso estranho já me acompanhava desde a hora que abri os olhos — o tipo de peso que não tem forma, mas aperta o peito mesmo assim. No posto de saúde, fiz meus curativos, entreguei receitas, atendi idosos, como qualquer dia normal. Mas tudo parecia turvo. Distorcido. Desfocado. Porque eu sabia o que tinha acontecido na noite anterior. Eu vi o carro parado na frente da minha casa. Silencioso. Sombrio. Intocável. Eu não vi o rosto, mas não precisava. Era ele. Dante. O jeito de parar, o jeito de observar, o jeito de não esconder que estava ali — como se vigiar minha casa fosse parte da rotina dele. E o pior é que não foi só ele. Os meninos na esquina, novamente, quando voltei do trabalho. Parados como se fossem parte do poste. Discretos, mas não o suficiente pra me enganar. Eles estavam ali por ordem de alguém. E esse alguém já não era mais uma sombra distante no morro. Quando cheguei em casa, minha mãe percebeu que eu estava diferente. — Aurora, você tá estranha. Aconteceu algo? Sim. Mas eu não podia dizer. — Só tô cansada, mãe. Preciso resolver umas coisas. Ela me olhou com preocupação, mas não insistiu. Subi pro meu quarto, encarei o espelho e respirei fundo. Eu não podia continuar deixando que ele me vigiasse como se minha vida fosse parte do terreno dele. Eu não era soldada, não era criminosa, não era parte do morro. Só era uma enfermeira que tentou salvar um homem ferido. E agora parecia estar presa num jogo que não era meu. Peguei a chave, prendi o cabelo e saí de casa. Subir o morro naquele dia parecia loucura. Tinha clima de guerra no ar. Gritos rápidos no rádio, motos passando velozmente, homens posicionados com armas como se esperassem algo. E, pelo olhar deles, esperavam mesmo. Um dos garotos estendeu o braço pra me impedir. — Não pode subir hoje, dona Aurora. Tá r**m. — Eu quero falar com o Dante — falei firme. Ele empalideceu. — Não dá… — Ele está me vigiando. E eu quero saber por quê. O menino piscou, engoliu seco, pegou o rádio. — KM… a enfermeira tá aqui. Tá dizendo que quer falar com o chefe… — Diz pra ele que eu vi ele parado na frente da minha casa — completei, alta o bastante pra atravessar o rádio. Silêncio. Depois: — ... libera. Mas manda ela vir rápido. O garoto se afastou. — Sobe, mas cuidado. O clima tá feio hoje. Brandão tá rondando. Meu estômago revirou. Delegado Brandão. O policial mais temido da região. Corrupto, violento, e ainda por cima obcecado por “limpar” o morro do jeito dele — com sangue. Dizem que ele tem uma lista. Dizem que quando alguém entra nela, nunca sai. E agora ele estava rondando justo hoje? Chegando perto do barraco, encontrei KM, Coringa e Cabeça. Todos armados, atentos, trocando informações rápidas e tensas. Quando me viram, o silêncio dominou. — Eu falei que hoje não era dia pra subir — KM reclamou. — Pois eu subi — respondi, firme. A porta atrás deles abriu. E Dante saiu. Ele caminhou até nós com aquela postura que controla o ambiente sem esforço. Mas quando os olhos dele encontraram os meus, senti um choque quente subir pelo corpo. Ele sabia o motivo da minha presença. — O que você quer aqui? — perguntou, direto. Eu encarei o chefe do morro, sem abaixar o olhar. — Vim saber por que você ficou parado na rua da minha casa. E por que você colocou meninos pra me seguir. Eu sou só uma enfermeira. Eu só fiz meu trabalho salvando um dos seus. Por que você tá mexendo na minha vida? O maxilar dele travou. O olhar dele escureceu. — Porque eu quis saber se você tava segura. — Isso não é cuidado. Isso é invasão. Eu não te dei esse direito. Ele deu um passo. Depois outro. Até ficar perto demais. — Você ajudou um dos meus. E, gostando ou não, isso te colocou numa mira que você não enxerga. — Que mira? — perguntei, irritada. Ele respirou fundo. — O Delegado Brandão. Meu corpo gelou. — O que tem ele? Dante olhou pelo ombro, como se tudo ao redor fosse ameaça. — Brandão começou a rondar o morro. Ele sabe que teve gente minha ferida. E sabe… que teve alguém de fora envolvido. Ele quer nomes. Quer rostos. E você entrou no radar dele. Eu senti minhas pernas vacilarem. Brandão era pior que qualquer policial comum. Ele fazia tudo fora da lei. Arrombava casa sem mandado. Plantava prova. Torturava. Matava. E Dante sabia disso. Por isso estava na minha rua. Por isso colocou meninos me vigiando. Não era sobre mim. Era sobre Brandão. O rádio de KM estourou de repente: — CHEFE! CONFIRMADO! BRANDÃO TÁ SUBINDO COM DOIS CARROS PRETOS! E ELE NÃO VEM PRA NEGOCIAR! Coringa correu na mesma hora. Cabeça sacou o fuzil. KM começou a gritar ordens. Dante permaneceu imóvel por um segundo. Só um. Depois me olhou como se eu fosse uma peça no tabuleiro que ele não queria perder. — Você vem comigo. — Eu não— — Não é pedido. Eu estou mandando. Os gritos na rua aumentaram. Pessoas correndo. Armas engatilhando. Brandão estava chegando. E eu estava no pior lugar possível: entre o chefe do morro e o delegado mais perigoso da região. Dante segurou o meu braço, e em um piscar de olhos já estávamos dentro de um barraco, ele começou a engatilhar uma arma e veio para o meu lado. — Sabe usar? — Arregalei os olhos, eu não sabia nem como segurar em uma arma. — Pela cara. — Ele respirou fundo e colocou aquela arma na cintura. — Vou te levar para aminha casa, tu vai ficar lá até tudo sossegar. — Não, eu quero ir para a minha casa. — Falei firme, eu não ia para casa dele, ainda mais sabendo que podiam ir lá. — Infelizmente, você não tem nenhuma escolha.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD