(POV Dante)
O morro nunca dorme. Quem manda aqui sabe que cada viela respira junto com a gente, cada esquina tem olho, cada sombra pode esconder perigo. Eu sou o dono, e ser dono não é só ter respeito — é carregar o peso de cada vida que depende da minha palavra.
Encarei os moleques na contenção da boca, cada um no seu posto, fuzil na mão, olhar atento. Caveira queria me derrubar, e isso já era de se esperar depois da última invasão. Mas aqui o chefe não dorme, e se eles vierem quente, eu vou estar fervendo.
— Fala, chefe — um menor chegou, meio ofegante. — A enfermeira já foi pra casa, fiquei só de canto observando ela, assim como tu pediu.
Balancei a cabeça, sem falar nada. Ele entendeu e se retirou.
Eu nem sei o que tava passando na minha cabeça. Mandei uns moleques ficar de olho na Aurora. Ela era muito limpa, muito certinha. E como já disse, é muito difícil alguém assim. Mas algo nela me prendia. Aquele olhar que domina qualquer um me deixou bambeado. E isso não podia acontecer. Não troquei meia palavra com ela, mas não precisou. Ela conseguiu minha atenção só com o silêncio.
— Natália tá querendo subir — KM chegou falando, jogando a pistola em cima da mesa. — Mina chata pra caramba.
— Não é pra deixar subir não. Vai querer pesar minhas ideias, e eu não tô com paciência pra isso. — KM pegou o radinho dele e já passou pros outros.
— Não é pra deixar a guria subir — repetiu, firme.
KM se largou na cadeira e suspirou. — Vai rolar pagodinho esse fim de semana?
— Acho que sim — acendi um cigarro e olhei as luzes do complexo começando a se acender. A noite tava chegando.
— Tu tá precisando esfriar a cabeça — ele disse, soltando fumaça. — A enfermeira lá mexeu contigo mesmo?
— Não. — Falei mais pra mim do que pra ele.
— Sei… — KM deu uma risadinha e acendeu outro cigarro. — Tu é estranho demais.
— Vai procurar o que fazer, tá enchendo minha paciência já. — Joguei o cigarro fora e saí dali.
Precisava tomar um banho. Passei o dia todo na boca, cabeça fervendo. E pra piorar, ficava pensando na guria. Eu só podia estar ficando louco. Ou talvez eu só precisasse ficar com ela e pronto. Às vezes era só atração. Mas no fundo eu sabia que não era isso. Sabia que isso ia fuder com a minha cabeça.
Entrei no carro e, sem raciocinar, já tava na frente da casa dela. Como da última vez, a rua parecia calma demais, pacata demais. Não era nada parecido com o meu mundo. Ela não era do meu mundo. Mas algo queria que ela pertencesse. Pertencesse a mim.
As luzes da casa estavam acesas. Vi movimentação lá dentro, provavelmente ela e a mãe. Fiquei olhando mais um pouco, depois acelerei de volta pro complexo. Precisava relaxar. Precisava de sexo.
Cheguei em casa, tomei um banho e passei um rádio pro Coringa. Pedi pra ele chamar umas gurias pro meu barraco. Minha casa era sagrada, não trazia ninguém lá. Do pouco que meus pais me ensinaram, isso eu preservava. Então tinha um barraco só pra diversão.
Me ajeitei e parti pra lá. Quando cheguei, já tinha duas loironas siliconadas me esperando. Elas me olharam de cima a baixo e sorriram safado. Entrei com as duas e relaxei do jeito que eu curtia. Mas até ali, não conseguia parar de imaginar outra.
Aurora.
Abri os olhos devagar e a claridade bateu na minha cara. Hoje era sexta. Sexta no morro é dia de movimento dobrado. Cliente descendo, caveira rondando, e a boca fervendo.
Cabeça já tava na contenção quando cheguei. — Chefe, caveira tá rondando pesado. Dois caveirinha passaram de moto na Grota.
— Eles tão achando que vão entrar fácil — Coringa riu, debochado. — Tá de s*******m.
— A gente já reforçou as boca, botou os menor na contenção — Cabeça completou. — Mas se eles vierem pesado, vai dar trabalho.
Soltei a fumaça do cigarro devagar. — Trabalho é o que não falta. Mas aqui ninguém recua. Esse morro é nosso.
Ser chefe não é só mandar. É saber quem tá pronto pra segurar a bronca e quem vai fraquejar. KM é sangue frio. Coringa é explosivo, mas leal. Cabeça é firme, não fala muito, mas faz. Eles são meus pilares. Sem eles, o morro não se sustenta.
— A ordem é clara — falei. — Caveira botou o pé aqui, não sai andando. Vai sair carregado.
Eles assentiram. Não precisava de mais palavras.
Mas, no meio de tudo isso, Aurora ainda aparecia na minha mente. Não como prioridade, mas como sombra. Uma sombra que me irritava e me atraía.
Eu podia ter deixado ela fora disso. Podia ter
ignorado. Mas não ignorei. Porque quem toca no meu mundo, mesmo sem querer, já tá dentro dele.
E agora ela fazia parte da equação.