Estratégia

1003 Words
(POV Dante) O motor ainda estava quente quando eu subi o morro. Não acelerei. Também não fui devagar demais. Ritmo controlado. Como tudo tinha que ser. Mas, por dentro… a cabeça não acompanhava a calma da direção. Aurora no portão. O olhar dela quando perguntou se eu voltava. A mãe. A casa. Aquilo não saía fácil. E isso era um problema. Grande. Porque distração, no meu mundo, custava caro. Muito caro. Subi a última curva e já vi movimentação diferente. Mais gente. Mais atenção. Bom. Eles estavam aprendendo. Ou só reagindo ao que aconteceu. Estacionei em frente à casa principal e saí do carro sem pressa. Antes mesmo de fechar a porta, KM apareceu. — Já tava te esperando. — Então não espera. Trabalha — respondi, passando por ele. Ele deu um meio sorriso. — Já comecei. Entrei na casa, tirando a arma da cintura e colocando sobre a mesa. Não porque não precisava mais — mas porque ali dentro, naquele momento, eu precisava pensar. E pensar armado demais às vezes… atrapalha. Coringa estava jogado no sofá, como se não tivesse acontecido nada na noite anterior. — Sobreviveu ao passeio romântico? — soltou, sem nem me olhar. Ignorei. — Cabeça? — Lá fora, organizando os pontos. Assenti. — Chama ele. KM já saiu antes mesmo de eu terminar. Fiquei em pé, apoiado na mesa, olhando pro nada por alguns segundos. Organizar. Priorizar. Executar. Sem erro. Sem espaço pra emoção. Quando Cabeça entrou, já veio direto: — A gente perdeu dois pontos de visão na descida. Tão expostos. — Recupera. — Já mandei gente. — Não manda gente. Manda os certos. Ele assentiu. Sabia o que isso significava. Silêncio curto. Coringa se levantou devagar. — E o Brandão? Olhei pra ele. — Vai voltar. KM voltou nesse momento. — Sem dúvida? — Nenhuma. A resposta veio seca. Porque era óbvio. — Então ele não recuou de verdade — KM comentou. — Não — confirmei — ele só mudou de estratégia. Coringa deu um passo mais perto. — E a estratégia agora tem nome. Silêncio. Ninguém precisou perguntar qual. — Ele viu fraqueza — completei. KM franziu a testa. — Você? Olhei direto pra ele. — Não. — Pausa. — Ela. O clima mudou na hora. Mais pesado. Mais sério. — Então a gente tira ela de circulação — KM sugeriu. — Não. Rápido demais. Sem discussão. — Dante… — ele começou. — Não. O tom cortou qualquer continuação. Silêncio. Coringa cruzou os braços, me observando. — Então protege. Assenti. — Exatamente. Fui até a mesa, pegando o rádio. — Cabeça. — Tô aqui. — Quero dois homens na rua dela. — Direto? — Não. Discreto. — Turno? — Revezamento de seis horas. Sem padrão. Ele anotou mentalmente. — Armado? — Sempre. — E se der movimento? Pensei por meio segundo. — Não reage sem me avisar. KM soltou o ar. — Isso é arriscado. — Eu sei. — Se o Brandão mandar pegar ela— — Ele não vai pegar. Cortei. Firme. Sem margem. — Porque não vai ter espaço. O silêncio caiu. Cabeça assentiu. — Vou organizar. — Escolhe bem quem vai. — Sempre. Ele saiu. Agora só eu, KM e Coringa. — Isso não é defesa de território — KM falou baixo. — Eu já falei. — Eu sei o que você falou — ele rebateu — mas isso aqui… Ele gesticulou ao redor. — Tá ficando pessoal. Aproximei um passo. — Sempre foi. — Não assim. Silêncio. Pesado. Coringa entrou no meio antes que aquilo virasse outra coisa. — Tá, então vamos parar de discutir o óbvio. Olhei pra ele. — Fala. — Se o Brandão entendeu que ela é a brecha… ele vai explorar. — Vai. — Então não é só casa dela que precisa de olho. Assenti. — O morro também. — Exatamente. Voltei pra mesa, pegando o rádio de novo. — Todo mundo escuta. Estática. Depois vozes. — Fala, chefe. — Reforço em todos os acessos. Frente, fundo e lateral, ninguém entra sem ser visto, quero rotação de posição a cada duas horas, sem padrão fixo. Quem errar... sai! O silêncio do outro lado mostrou que entenderam. — E mais uma coisa. Pausei. — Hoje ninguém trabalha sozinho, dupla mínima, sempre. Soltei o rádio. O ambiente ficou quieto. Mas carregado. KM passou a mão no rosto. — Isso aqui virou outro nível. — Sempre foi esse nível — respondi. — Não… — ele negou — agora tem mais em jogo. Olhei pra ele. — Sempre tem. Coringa riu baixo. — Vocês dois são dramáticos. — Cala a boca — KM respondeu. Mas sem peso. Era tensão falando. Fui até a janela, olhando o morro. Movimento. Organização. Gente indo e vindo. Tudo funcionando. Mas eu sabia. Aquilo era só o começo. Brandão não ia atacar igual de novo. Ia esperar. Observar. Testar. E quando viesse… ia vir melhor. Mais preparado. Mais direto. E dessa vez… não ia ser só tiro. Passei a mão na nuca. Pensando. Ajustando. — KM. — Fala. — Quero levantamento completo de quem entrou e saiu do hospital ontem. Ele franziu a testa. — Tá achando que— — Eu não acho. Eu confirmo. Ele assentiu. — Vou puxar isso. — Discreto. — Sempre. Coringa me observava em silêncio agora. Diferente de antes. Menos brincadeira. Mais leitura. Ele me conhecia muito bem. — Você não vai sair disso rápido — ele falou. — Nunca saio rápido. — Mas dessa vez… — Ele pausou. — Vai demorar mais. Não respondi. Porque ele estava certo. E eu sabia disso. Voltei o olhar pro morro mais uma vez. Depois… pra direção da cidade. Pra rua dela. Pra casa dela. E, sem perceber… minha mente já estava lá de novo. Errado. Mas inevitável. Respirei fundo. Endureci o olhar. E voltei pro que importava. Controle. Estratégia. Proteção. Porque, no fim… era isso que mantinha todo mundo vivo. E agora… incluía ela nisso. Querendo ou não. Gostando ou não. Aceitando ou não. E eu não ia deixar falhar. Não dessa vez.
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