(POV Dante)
Porta fechada.
O som foi simples.
Leve.
Mas, pra mim, foi como se tivesse separado dois mundos de vez.
Fiquei parado onde estava, ao lado do carro, os olhos ainda na madeira já gasta da casa. Pequena. Simples. Com marcas do tempo… e de vida.
Nada ali combinava com o que tinha acontecido na noite anterior.
Nada ali combinava comigo.
Passei a mão pela nuca devagar, soltando o ar. O bairro era quieto. Gente andando, criança brincando mais ao longe, uma televisão ligada em alguma casa vizinha.
Normal.
E era justamente isso que deixava tudo mais tenso.
Porque o normal… não era o meu lugar.
Dei dois passos pra frente, parando perto do portão. Não entrei. Não precisava. Já estava perto o suficiente.
Olhei ao redor.
Instinto.
Sempre ativo.
Rua limpa.
Sem movimento estranho.
Sem carro suspeito.
Mas isso nunca significava segurança de verdade.
Apoiei a mão no ferro do portão, ainda atento.
Lá dentro…vozes.
Baixas.
Depois mais altas.
A mãe dela.
Dava pra reconhecer pelo tom.
Preocupação misturada com medo.
E um pouco de raiva.
Justo.
Qualquer pessoa no lugar dela reagiria igual.
Ou pior.
Desviei o olhar por um momento, encarando a rua vazia.
— Complicado, né?
A voz veio do lado.
Virei o rosto.
Coringa encostado no poste, como se estivesse ali há horas.
Revirei levemente os olhos.
— Tu não sabe chegar quieto?
Ele sorriu.
— Eu cheguei. Você que tava distraído.
Aquilo não me agradou.
Mas deixei passar.
— Era pra você estar no hospital.
— KM ficou lá. Cabeça também. Tá tudo sob controle.
Assenti uma vez.
— E você veio fazer o quê?
Ele deu de ombros.
— Ver até onde você vai com isso.
Olhei direto pra ele.
— Não começa.
— Não tô começando. Tô observando.
Silêncio.
Ele inclinou levemente a cabeça, olhando a casa.
— Bonitinha.
— Some daqui, Coringa.
Ele riu baixo.
— Relaxa. Não vou bater na porta e pedir café.
Passei a mão no rosto, impaciente.
— Fala logo o que você quer.
Ele me encarou de verdade agora.
Sem sorriso.
— Você nunca trouxe ninguém pra dentro.
Eu não respondi.
— Nunca — ele reforçou — nem quando fazia sentido.
— Continua.
— E agora você não só trouxe… como tá aqui fora esperando.
O silêncio caiu.
Pesado.
Mas eu sustentei.
— Já falou?
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Isso não é sobre território.
— Nunca foi só sobre território.
— Não — ele negou — mas agora é menos ainda.
Apertei o maxilar.
— Acabou?
Ele deu um meio sorriso.
— Só cuidado pra não esquecer quem você é no meio disso.
Aquilo ficou.
Mesmo eu não demonstrando.
— Vai embora, Coringa.
Dessa vez, ele não insistiu.
Empurrou o corpo do poste e começou a se afastar.
— Qualquer coisa, chama — falou por cima do ombro.
Não respondi.
Esperei ele sumir na esquina.
E o silêncio voltou.
Mas diferente.
Mais carregado.
Voltei o olhar pra casa.
Mesma porta.
Mesmo lugar.
Mas agora…com mais peso.
Cruzei os braços, mantendo a postura firme.
Sem invadir.
Sem recuar.
Minutos passaram.
Talvez mais.
Difícil medir.
Até que a porta abriu.
Aurora apareceu primeiro.
O rosto ainda tenso.
Mas diferente de antes.
Mais… consciente.
Mais presente.
Atrás dela, a mãe.
Olhar desconfiado.
Braços cruzados.
Distância mantida.
Eu não me mexi.
Deixei que viessem.
Aurora parou a poucos passos de mim.
— Ela quer falar com você.
Aquilo me surpreendeu.
Mas não mostrei.
Olhei pra mulher atrás dela.
— Quer?
A mãe dela hesitou.
Mas deu um passo à frente.
— Não muito tempo.
Assenti.
— Não precisa.
Aurora olhou de um pra outro.
Claramente desconfortável.
— Eu vou… pegar água.
Ela entrou de novo.
Nos deixou ali.
Sozinhos.
A mulher cruzou os braços com mais força.
— Eu não sei quem você é.
— Não precisa saber.
Ela franziu a testa.
— Mas eu sei o tipo de coisa que você traz junto.
Direta.
Sem rodeio.
Gostei disso.
— Sabe o suficiente então.
— O suficiente pra ficar com medo.
Assenti levemente.
— Justo.
Ela pareceu não esperar aquela resposta.
Mas continuou.
— Minha filha não tem nada a ver com isso.
— Eu sei.
— Então por que ela tá no meio?
Silêncio curto.
Porque não tinha resposta simples.
— Porque fizeram ela entrar.
— E você trouxe ela mais fundo ainda.
Aquilo…não era mentira.
Segurei o olhar dela.
— Eu tirei ela de onde era pior.
— E colocou onde?
— Onde eu consigo controlar.
Ela riu. Sem humor nenhum.
— Controle não é garantia de nada.
— Pra mim é.
O silêncio voltou.
Ela me analisou por alguns segundos.
Mais calma agora.
Mas ainda firme.
— Você pretende manter ela nisso?
— Não.
Resposta imediata.
Sem dúvida.
— Então por que ainda tá aqui?
Olhei de relance pra porta.
Depois voltei pra ela.
— Porque ainda não acabou.
Ela absorveu.
Respirou fundo.
E então disse, mais baixo:
— Eu não posso perder minha filha.
Aquilo… não era ameaça.
Era medo.
Real.
Cru.
— Não vai.
A resposta saiu firme.
Mas sem peso de imposição. Só… certeza.
Ela me encarou por mais um tempo.
Como se estivesse tentando decidir se acreditava ou não.
Aurora voltou nesse momento, segurando um copo.
O olhar passando rápido entre nós dois.
Tentando ler o que tinha acontecido.
— Tá tudo bem? — perguntou, cautelosa.
A mãe dela respondeu primeiro.
— Não.
Mas o tom já não era o mesmo.
Menos agressivo.
Mais… cansado.
Aurora se aproximou, entregando o copo.
O silêncio caiu de novo.
Mas agora… diferente.
Menos confronto.
Mais realidade.
Eu me afastei um passo.
— Eu tenho que ir.
Aurora olhou na hora.
— Já?
— Tenho coisa pra resolver.
Ela assentiu devagar.
Mas não pareceu gostar, ou era só medo.
— Você vai volta?
A pergunta veio antes que ela pudesse segurar.
E aquilo… não passou despercebido.
Nem pra mim.
Nem pra mãe dela.
Segurei o olhar dela.
— Se precisar.
Não prometi.
Mas também não neguei.
Ela respirou fundo.
— Tá.
Olhei uma última vez para as duas.
— Fica aqui hoje. — Falei direto pra Aurora. — E não sai sozinha.
Ela ia responder.
Mas a mãe dela falou primeiro:
— Ela não vai sair.
Assenti.
— Melhor.
Me virei sem esperar mais.
Caminhei até o carro.
Entrei.
Liguei o motor.
Mas, antes de sair… olhei pelo retrovisor.
Aurora ainda parada no portão.
Me olhando.
E, pela primeira vez em muito tempo… aquilo ficou na minha cabeça por mais tempo do que deveria.
Engatei a marcha.
E fui.
Porque, se eu ficasse mais um pouco…
talvez começasse a esquecer exatamente onde era o meu lugar.
E isso… eu não podia permitir.