DULCE Saviñon pov's
Acordei sentindo falta do calor humano ao meu lado. Por um breve momento, pensei que poderia conversar com Christopher e quem sabe tentar ir além naquilo, mas aí ele mostrou o babaca que ainda era. Nada mudou. Essa experiência foi até boa para que eu parasse de ser boba e colocasse em minha cabeça que algumas pessoas simplesmente não mudam.
Minha campainha tocou e eu fui atender. Quando abri a porta, Maite olhou para mim como se já soubesse de tudo. Respirei fundo e me joguei no sofá. Ela veio até mim e sentou ao meu lado.
— Você não deveria ter transado com ele. — ela disse.
— Uma pena eu só ter me dado conta disso depois que aconteceu. Christopher não mudou nenhum pouco. Foi só saber quem eu era que todo o desprezo voltou. Como ele pôde achar que isso foi algum tipo de vingança? Há vinte e quatro horas atrás eu preferiria morrer do que tocar nele.
— O que te fez mudar de ideia?
— Por mais babaca que seja, ele é de tirar o fôlego e nossa... ele sabe como se mexer. — bati em minha testa de leve. — Idiota... idiota...
— Então a noite foi boa? — ela sorriu maliciosamente.
— Eu não quero falar sobre isso. Na verdade, quero fingir que não aconteceu, então o assunto Christopher Uckermann morre aqui e agora.
— Mas você não acha que ele exagerou? Ele te desprezava tanto assim a ponto de ficar tão irritado?
Olhei para May e decidi pensar um pouco antes de dar uma resposta.
— Olha, falando como uma profissional, o Christopher parece ter questões com si próprio. Ele fez questão de dizer que sai com mulheres e não liga depois, então eu diria que ele se sente o alfa em todas as relações. Ou talvez ele tenha uma autoestima tão frágil que ele precise agir como um i****a para se sentir superior. Isso meio que ficou claro desde o colégio. E aí quando ele achou que eu estava zoando com a cara dele, isso afetou o seu ego.
— Ele não parece mesmo ter muita inteligência emocional. — ela disse concordando comigo.
— E isso é um problema dele com ele. E agora falando como uma pessoa irritada e sentida, eu diria que ele é só um grande babaca machista e arrogante. — cruzei os braços. — E o assunto morreu aqui.
— Não se fala mais nisso. — fez sinal de zíper na boca.
— E a sua noite com o Travis?
— Rendeu bons frutos. Acho que vamos sair de novo, não sei. — deu de ombros.
— Isso é ótimo. Você precisa mesmo sossegar. — sorri.
— Calma, eu não disse isso. — riu. — Ah, a Anahi chamou a gente pra sair hoje à noite. Vai estar livre?
— Eu tenho algumas consultas hoje. Se não estiver muito cansada, eu vou.
— Trabalhando em pleno sábado. O orgulho da família. — bateu no topo da minha cabeça como quem diz "boa garota".
[•••]
CHRISTOPHER Uckermann pov's
— Você só vive puto, garoto? — meu pai perguntou assim que me viu entrar na oficina pisando firme e com uma expressão bem carrancuda.
— Eu só tenho que trabalhar. — falei apenas.
— Sabe que não precisa colocar a mão na massa. Nós somos os patrões, apenas administramos.
— Você pode até ter perdido a paixão por carros, mas isso ainda é a minha válvula de escape. — fui até o armário de ferramentas e comecei a separar o meu material.
— Você deveria arranjar uma mulher.
— Tá. — ri sarcasticamente. — E quando uma mulher me fez algum bem?
— Filho, esquece o passado. — suspirou.
— A gente não pode esquecer as experiências que nos fazem aprender.
— E o que você aprendeu?
— A não confiar em nenhuma mulher. — ajeitei o meu macacão e peguei a caixa de ferramentas. — Agora eu vou trabalhar.
Fui até o interior da oficina onde vários dos nossos funcionários estavam trabalhando. Cumprimentei a todos e fui até um dos carros que eu ainda não havia acabado. A BMW de Alfonso. E do jeito que eu estava com a mente virada, finalizaria ainda naquela manhã.
Meu pai montou aquele negócio bem devagar, pensando principalmente em focar na sua paixão. Ele era vidrado em carros e motos, mas também adorava a ideia de controlar uma empresa. Então ele fez administração enquanto eu estava no colégio e começou o projeto da "Victor&Son". Começamos com uma oficina de garagem e dez anos depois já estávamos com cinco filiais, sendo a principal no maior centro comercial do estado da Califórnia.
Não, eu não fui para a universidade, mas aprendi tudo o que precisava sobre consertar automóveis e também levava jeito ajudando meu pai a administrar. A verdade é que eu sempre tive muita sorte em ter esse apoio, pois duvidava que chegaria muito longe sozinho. Diferente de Dulce, que mesmo que não tivesse o apoio de ninguém, chegaria onde chegou sem dificuldade. Ela sempre foi brilhante.
Passei esses últimos dez anos sem nem pensar muito sobre ela. Eu nunca a odiei de verdade e até pensei em pedir desculpas caso nos víssemos de novo. Mas ao invés de agir com maturidade, ela resolveu ser tão babaca quanto eu fui com ela. Não que eu a culpasse, não sei como uma pessoa que sofre bullying se sente, nem mesmo sei se ela fez terapia. Mesmo sendo uma psiquiatra, ela pode muito bem ser desequilibrada. E se tem uma coisa que me deixa puto é quando tentam me fazer de i****a. E fiquei ainda mais puto por ter gostado tanto de t*****r com ela. Seria difícil encontrar alguém que a superasse.
Terminei o conserto do carro pouco antes do horário de almoço. Era um dos poucos ainda na oficina e recusei todos os convites que me fizeram para comer. Quando eu usava o trabalho como uma forma de me aliviar, só terminava quando realmente estivesse satisfeito. E só fiquei satisfeito quando a BMW ligou num ronco sonoro e firme.
— Isso aí. — eu disse com as mãos no volante.
— Que saudade eu senti desse ronco! — ouvi Alfonso dizer ao entrar no local.
— E aí, cara? — saí do carro e o cumprimentei. — Está novinha em folha.
— Valeu, Christopher. Sempre muito rápido. — sorriu satisfeito.
— Quando a gente faz o que gosta, faz rápido. — peguei a minha flanela e enxuguei o suor da testa.
— E aí, o que achou da festa de ontem? Eu não vi com que garota você saiu no jogo das chaves.
— É, pois é... — bufei. — Não quero falar sobre isso.
— Não me diga que acabou com alguma feiosa? — fez careta.
— Ex-feiosa.
— Mas... — ele pareceu pensar e quando lembrou de quem eu estava falando, arregalou os olhos. — A Dulce! p**a merda, ela ficou muito gostosa! Mas o que deu errado? Não me diga que ela ainda te odeia.
— Sim, ela ainda me odeia e a noite passada foi só uma vingança.
— Eu adoraria que alguém se vingasse de mim assim. — riu.
— Alfonso, fala sério! — bati nele com a flanela. — Sou eu quem brinco com as mulheres, não o contrário. Aposto que ela só se dedicou a ficar bonita porque eu pegava demais no pé dela. Deveria me agradecer pelo incentivo e não guardar rancor.
— E daí que foi vingança? A transa foi boa?
— Foi. Pra c*****o. — admiti.
— Então para de reclamar e me dá o telefone dela. — ele estava brincando. Alfonso sabia que eu não colecionava telefones.
— O melhor é esquecer que essa garota existe e que eu transei com ela.
— É incrível como o seu ego é maior do que a sua masculinidade. Aquela mulher poderia querer t*****r comigo pelos motivos mais horríveis possíveis e eu ainda diria um grandioso sim.
— Você não tem respeito consigo mesmo, eu sim.
— Respeito o que o meu pênis quer. — riu.
— Que incrível seria se você pensasse mais com a cabeça de cima. — falei vendo ele entrar no banco do motorista de seu carro.
— Disse o homem que transa com umas dez mulheres por semana. — ele ligou o carro e eu peguei o controle remoto que abria os fundos da oficina, por onde os carros entravam e saíam.
— Vou cobrar 40% a mais pelo serviço depois desse comentário. — gritei quando ele começou a sair.
— Não abuse da sorte, Uckermann. — ele acenou e deu partida.
Trabalhei pelo resto do dia e à noite saí com alguns amigos. Conheci uma morena e a levei para casa na mesma noite. O sexo foi bom, mas eu não parei de comparar aquela garota com Dulce. Ela não era tão quente quanto Dulce, não me deixou tão e******o, não rebolava tão bem quanto a Dulce, nem mesmo o beijo era tão bom. Maldita mulher que não desgrudava da minha cabeça! E parecia que quanto mais eu tentava afastá-la, mais ela se fazia presente.
Peguei muito pesado na oficina no resto da semana. Às vezes meu pai precisava mandar eu parar para que eu fizesse algumas pausas. Nunca fui tão produtivo como agora. E aquela também foi a semana em que eu mais saí com mulheres. Nem mesmo ter duas ao mesmo tempo estava me satisfazendo. E eu saía daquelas camas com uma sensação de que o serviço nunca estava completo.
No fim da tarde de sexta, saí da oficina de moto, pretendendo ir para casa, tomar um banho e ir curtir o melhor dia da semana. Alfonso havia me convidado para sair com alguns amigos do colégio. O último encontro havia reaproximado algumas pessoas e queríamos manter uma boa relação com os antigos amigos.
Estava atravessando o sinal quando um carro que vinha na outra pista atravessou. O motorista parou bem em cima de mim. Se ele tivesse continuado mais um pouco, teria passado por cima da minha cabeça, que acabou bem ao lado do pneu do carro. Senti uma dor aguda na minha testa e apertei meus olhos numa expressão de dor. Comecei a ouvir várias vozes ao meu redor e quando abri um pouco os olhos, vi um par de pernas caminhar rápido até mim.
— Ah... fala sério! — eu reconheci aquela voz.
Foi como se alguma coisa tivesse me despertado e eu voltei totalmente a mim, mesmo ainda sentindo uma leve dor de cabeça. Tentei sentar, mas senti alguém me impedindo.
— Fique parado. — alguém disse ao meu lado.
— Mocinha, você estava no celular enquanto dirigia? — ouvi outra pessoa perguntar.
— Eu... eu... — a voz familiar gaguejou. — Era uma emergência. — ela suspirou pesadamente. — Eu sou médica. Deixem que eu o examine.
Vi quando ela se ajoelhou ao meu lado. Seu rosto estava acima do meu e eu estreitei os olhos tentando driblar a luz do sol. Aqueles cabelos brilhantes...
— Christopher — o meu nome saindo daquela boca... — Ok, ele está olhando para mim. Está consciente. Consegue falar? — aqueles olhos castanhos...
— Sim. — eu disse.
— Sente dor ou tontura?
— Dor de cabeça.
— Você teve um leve corte na testa. — ela abriu sua bolsa e vi quando tirou alguns lenços de lá e começou a fazer pressão na minha cabeça.
— Au... — tentei virar o rosto.
— Não mova o pescoço, você pode ter fraturado a coluna.
— Eu estou bem. Consigo levantar se eu quiser.
— Não vamos arriscar, ok?
— Dulce — a chamei.
— O que?
— A minha moto. c*****o, se você destruiu a minha moto...
— É com a sua moto que está preocupado? — ela elevou o tom de voz. — Só fique parado. — continuou a pressionar a minha testa. — A ambulância já deve estar chegando.
— Eu estou bem. — repeti.
— Pare de ser teimoso.
Depois de alguns minutos, ouvi o barulho da ambulância e então os paramédicos vieram até mim e me colocaram em uma maca. Eu não queria ir até o hospital, não sentia nenhuma dor além do corte na testa e ainda estava preocupado com o estado da minha moto. Além disso, meu celular caiu do meu bolso quando eu bati e eu não tinha como entrar em contato com o meu pai.
Cheguei até o hospital e os médicos me examinaram, fizeram algumas perguntas e depois de me deixarem em observação por uma hora, finalmente constataram o que eu já sabia: eu estava bem.
Saí do quarto do hospital e fui até a recepção. Dulce estava lá e parecia nervosa. Assim que me viu, ela veio até mim apressada.
— Eu peguei o seu celular. — ela tirou o celular de sua bolsa e me entregou. — Sua moto só teve alguns arranhões. Eu falei com a Maite, que falou com o Alfonso, que foi buscá-la. Eu conversei com o seu médico e já avisei ao Alfonso que você está bem. — peguei o celular da mão dela e analisei se tinha estragado tanto, mas não havia nada além de um arranhão na tela.
— Sabe que eu vou te processar, não é? — eu disse. — Ouvi quando disseram que estava falando no celular enquanto dirigia. Atravessou o sinal vermelho e me acertou.
— Era uma ligação importante.
— Que parasse o carro para atender.
— Duvido que você não faça ligações dirigindo.
— A diferença é que eu nunca bati em ninguém. Hoje não é o seu dia de sorte, doutora.
Ela ia responder, mas então seu celular começou a tocar e ela o pegou com muita pressa.
— Eu tenho... — ela ia se explicar, mas desistiu e simplesmente saiu de perto de mim levando o celular até a orelha.
— Outra ligação importante? — alfinetei, mas ela me ignorou.
Dulce saiu até a parte de fora do hospital e eu segui a minha curiosidade. Fui atrás dela e enquanto ela estava de costas, eu fiquei encostado na porta de entrada, ouvindo tudo.
— Ele está mesmo bem? — ela fez uma pausa. — Ah, graças a Deus! — sua voz embargou. — Eu queria ter ido até lá, mas aconteceu um imprevisto. Fiquei no telefone com ele tentando convencê-lo a não pular e enquanto isso eu dirigi o mais rápido que eu pude pra chegar a tempo. — outra pausa. — Obrigada por ter feito isso por mim. Se eu tivesse o perdido, nunca me perdoaria.
Caramba. Dulce estava tentando impedir alguém de cometer suicídio? Isso me amoleceu, devo admitir. Eu ainda não gostava dela, mas admirava boas ações. Me perdi em meus pensamentos e nem notei que ela já havia desligado e estava voltando para dentro. Assim que virou de frente para mim, ela ficou parada e bem séria. Vi que seus cílios estavam úmidos e a ponta do nariz levemente vermelha.
— Estava ouvindo a minha conversa? — perguntou na defensiva.
Antes que eu respondesse, vi um policial aproximar-se de nós.
— Christopher Uckermann? — ele perguntou.
— Sim.
— Fomos informados do acidente e algumas testemunhas disseram que a motorista do carro estava falando ao telefone e atravessou o sinal vermelho. Gostaríamos de saber se deseja prestar queixa.
Mordi o lábio inferior e olhei para Dulce, que agora estava bem desapontada. Ela acreditava que eu prestaria queixa e sua expressão de derrota me deu até um pouco de pena. Talvez ela não fosse uma maluca no trânsito em outras circunstâncias e naquela única vez senti que ela não merecia ser punida por estar tentando salvar a vida de alguém.
— Não. — respondi. — Eu estou bem, não quero prolongar isso.
— Tem certeza? Isso pode lhe render uma boa indenização. — ele insistiu.
— Eu disse que estou bem.
— Como quiser. — ele assentiu uma única vez e se afastou.
Agora Dulce estava surpresa, olhando para mim como se me estudasse.
— É, eu ouvi a sua conversa. — expliquei. — Se estava mesmo tentando salvar alguém, eu vou te safar dessa.
— Obrigada. — soltou o ar aliviada. — Eu estou a um passo de perder a minha habilitação.
— c****e, então você é uma maluca no trânsito? Será que o policial está muito longe? — olhei em volta. Dulce voltou com a expressão de pânico e então eu comecei a rir. — Eu estou brincando.
— Que babaca. — colocou a mão sobre o peito.
— É o que eu sou, doutora.
— Eu sei disso melhor do que ninguém.
Ficamos em silêncio nos encarando e eu pude sentir uma tensão entre nós. Não uma tensão qualquer, mas s****l. Vi ela entreabrir os lábios, a respiração ficando mais profunda, os olhos castanhos cintilando enquanto me observava. Sempre achei ter o controle do meu corpo e minhas emoções, mas Dulce parecia estar tirando isso de mim. E agora eu só conseguia pensar em beijar aqueles lábios rosados.
— Christopher! — e toda a tensão foi cortada quando ouvi a voz do meu pai.
— Oi! — virei-me de costas para Dulce.
— Desculpe não ter vindo antes, eu acabei de sair de uma reunião e acabei de ver as mensagens do Alfonso. — colocou as mãos em meus ombros. — Você está bem?
— Sim. A Dul... — olhei para trás, mas notei que ela não estava mais ali. — Bom, não importa. — dei de ombros.
— Vai ficar em casa e descansar hoje, certo?
— Acredite, vai ser bem melhor se eu sair.
O fato de Dulce ter me atiçado apenas me olhando daquele jeito era motivo suficiente para que eu saísse e encontrasse alguém para descarregar os meus desejos.