13

2435 Words
CHRISTOPHER Uckermann pov's  Saí de casa perto do horário definido por Dulce. A esperei na frente do seu prédio, encostado contra o carro. E mais uma vez a cena de mais cedo aconteceu. Eu a observei andar até mim quase como se estivesse em câmera lenta. Agora ela usava um vestido amarelo com flores brancas, alças finas e bem soltinho, de um jeito que parecia que o tecido dançava ao redor de suas pernas a cada passo que ela dava.  Ela parou em minha frente, sorridente. O perfume dela era adocicado e suave e o cabelo estava preso na lateral com uma presilha de brilhantes em formato de borboleta.  — Uau. — soltei involuntariamente, tão baixo que que ela nem ouviu.  — Animado? — perguntou.  — Não mais que você. E agora pode me dizer onde vai ser o meu abate?  — Por que acha que os meus hobbys são tão horríveis?  — Porque você é a Dulce e a Dulce é chata.  — Não pensou assim quando estava com a cabeça no meio das minhas pernas. — retrucou.  — Fala logo. — ri.  — Vamos ver um show de jazz em um lugar especial.  — Jazz? Você gosta de jazz? — arqueei as sobrancelhas.  — Surpreso?  — Não. Acho que é disso que os nerds e os idosos gostam.  — Você vai ter que morder a língua no final da noite. — deu a volta, indo até a porta do carona.  Entramos no carro e antes mesmo que eu pedisse, ela colocou o endereço no gps. Eu não sabia que lugar era aquele, então seria uma coisa genuinamente nova.  Paramos em frente à um casarão e eu consegui achar uma vaga em meio a tantos carros estacionados. Quando saímos, li a fachada em voz alta.  — Casa de repouso Sunflower.  — Tchanrãm! — cantarolou.  — Foi você quem deu o nome? — brinquei. — Sim.  Olhei para ela surpreso.  — Foi mesmo você?  — Meu avô fundou o lugar quando eu tinha cinco anos e pediu que eu desse o nome de alguma coisa que eu gostava.  — Girassol. — afirmei e ela assentiu. — Ok, um show de jazz em um asilo. — suspirei. — Não errou quando disse que idosos gostam de jazz. É o passatempo favorito deles. Caminhamos pela estrada de pedras até chegarmos às portas, que estavam totalmente abertas para quem quisesse entrar. Uma moça estava recebendo as pessoas gentilmente e quando avistou Dulce, abriu seus braços e a abraçou apertado.  — É tão bom te ver! — ela disse após as duas se afastarem.  — Desculpe não vir aqui mais vezes, há tanta coisa nova na minha vida profissional que eu ainda não consegui conciliar tudo. — Dulce explicou.  — Tudo bem. Pelo menos não faltou à noite de Jazz. A senhora Page ficaria bastante chateada se você não viesse. Ela está testando um novo sabor de torta e quer que você prove.  — Eu vou adorar! — Dulce sorriu. — Esse é o meu amigo Christopher. E Christopher, essa é a Lucy, ela é diretora do lugar.  — Seja muito bem-vindo, Christopher. — estendeu a mão para mim.  — Obrigado. — sorri gentilmente ao apertar a mão dela.  — É melhor vocês entrarem, o show já começou. — deu espaço para nós. — Divirtam-se!  Eu e Dulce passamos pelo hall de entrada e chegamos até o salão de festas. A música estava mais alta do que eu esperava e os músicos tocavam algo muito animado. Tinha uma mesa com comes e bebes, um lugar com cenário e acessórios para tirar fotos com um fotógrafo e mais na lateral, mesas para quem quisesse ficar sentado.  O que me deixou surpreso era que a maioria dos idosos estava de pé, dançando pelo salão sozinhos ou em casal. E eles não dançavam devagar nem nada do tipo, balançavam com animação de um lado para o outro, sorrindo e conversando alegremente.  — O que acha? — Dulce olhou para mim esperançosa.  — Parece um baile de formatura, porém com idosos.  — E isso é r**m?  — Não.  — Quer comer alguma coisa?  Sem me deixar responder, agarrou minha mão e me puxou até a mesa com a comida. Estávamos segurando demais a mão um do outro ultimamente, mas eu não sabia se deveria reclamar ou não. Nunca achei que segurar a mão de alguém fosse uma coisa tão íntima, afinal, Dulce estava apenas me guiando para um local determinado. Mas eu não sabia se significava a mesma coisa para ela. Mulheres se importam com pequenos detalhes, certo? E se aquele fosse um pequeno detalhe?  — Framboesa com amora. — saí dos meus pensamentos quando ouvi a voz dela ao descrever o sabor da fatia de torta que acabara de colocar em um prato. — Vamos ver se você é boa em tudo, senhora Page. — deu uma garfada. — Hum... excelente! — sorriu. — Você deveria provar.  — Vejamos. — passei o dedo no canto da boca dela, que estava sujo com um pouco de recheio e pus em minha boca. — Muito bom, mesmo.  — Engraçadinho. Come um pedaço de torta. — ofereceu-me o garfo cheio.  — Não sou fã de doces. — recusei. — Bom, da maioria deles. — sorri maliciosamente.  — Christopher, come a torta ou vai se arrepender. — riu, praticamente enfiando o garfo na minha cara.  — Eu não quero. — afastei meu rosto.  — Quem está recusando a minha torta? — uma senhorinha perguntou ao chegar perto de nós.  — Eu não como doces. — expliquei, tentando me controlar para não completar com uma piada maliciosa na frente de uma idosa.  — Christopher, esta é Shirley Page e ela é uma cozinheira de mão cheia. — Dulce disse, entornando a senhorinha com um dos braços. — Eu adorei o novo sabor de torta.  — Eu sabia que ia gostar. — sorriu, acentuando as maçãs avermelhadas do rosto. — E o seu amigo? Ele tem que provar também.  — Eu disse. — Dulce sussurrou.  — Ok. Eu posso comer um pouco. — peguei o prato de Dulce e comi um pedaço. — Ah, meu Deus! — proferi ao sentir minhas papilas gustativas dançarem com a nova sensação. — Isso é perfeito! — comi mais umas três garfadas de uma vez.  — Vai com calma, rapaz. — Shirley riu, dando um tapinha em meu ombro.  — Dulce, querida! — outra senhora se aproximou.  — Olá, senhora Smith! — Dulce sorriu. — Adorei o seu vestido e o seu penteado está um luxo!  — Ah, querida, sabe que eu prefiro que me chame de Grace. — a mulher disse, passando as mãos pelos cabelos.  — Sempre querendo ser mais jovem do que é. — Shirley sussurrou para mim, me dando uma cotovelada de leve e me causando uma risada.  — E quem é o seu amigo? — Grace se aproximou de mim e tocou meu rosto com uma das mãos. — Você é a cara do meu falecido marido quando jovem. — Ah, é mesmo? — sorri.  — Sim. E cá entre nós, ele é o homem mais lindo que eu já conheci. — deu uma piscadela.  — Sendo assim, obrigado. — ri.  — Você poderia ser avó dele, Grace. — Shirley a repreendeu.  — Não estou dando em cima do garoto, afinal, ele está acompanhado da namorada. — acenou com a cabeça em direção a Dulce.  — O nome dele é Christopher e eu não sou namorada dele. — Dulce explicou.  — Bom, então retiro o que eu disse. — Grace enlaçou seu braço ao meu. — Não vai me convidar para dançar? — sorriu.  — Dançar jazz? — arqueei a sobrancelha.  — Ele adoraria. — Dulce respondeu por mim, rindo com leveza.  Grace me puxou para o meio do salão e nós começamos a dançar. Ela começou a falar sobre sua vida, as coisas que gostava de fazer no asilo e claro, coisas que gostava nos homens. Apesar de já ser idosa, ela parecia não querer aceitar a velhice e era muito vaidosa e engraçada. Eu admirava pessoas assim e queria poder manter o meu espírito jovem tanto quanto ela.  Outras senhorinhas quiseram dançar comigo e eu virei a atração do lugar, ouvindo as diferentes histórias e me divertindo com a forma fácil que eu as encantava.  Agora eu estava dançando com Mary Green, que me contou sobre sua juventude atlética e os lugares que já visitou pelo mundo. Ouvi tudo com muita atenção e fiquei bastante interessado.  — Sua garota está dançando com o Paul. — Mary comentou.  — Ah — olhei para o lado e vi Dulce dançando com um senhor. — Ela não é minha garota. — voltei minha atenção para Mary.  — Do jeito que você olha pra ela? — franziu o cenho. — Se ainda não é, vai ser.  Resolvi não contestar e apenas sorri, olhando de relance para Dulce mais uma vez.  — Por que não dança com ela? — Mary sugeriu. — Eu estou mesmo de olho no Paul. — sussurrou.  — Então eu acho que deveria ajudar você. — sussurrei de volta, guiando Mary para perto de Dulce e Paul. — Hey, Paul, que tal se trocarmos de parceiras?  — Algo me diz que uma certa pessoa estava esperando você sugerir isso. — ele respondeu em tom de brincadeira, acenando para Dulce. — Mary? — estendeu a mão para ela.  — Paul — colocou a mão sobre a dele e piscou uma única vez para mim antes de ambos se afastarem.  — Doutora? — ofereci minha mão para Dulce.  — Babaca — respondeu no mesmo tom cordial, pousando sua mão dentro da minha.  Puxei Dulce para perto de mim, enquanto segurava sua cintura. Ela enlaçou meus ombros com os braços e me olhou fixamente, enquanto eu fazia o mesmo. Uma música mais lenta começou a tocar e as luzes ficaram mais baixas. Com aquele clima, algo estranho e novo começou a acontecer comigo. Por alguma razão, eu fiquei nervoso, mas não quis sair da situação. Eu queria mesmo dançar com ela daquele jeito.  — O que está achando? — perguntou.  — Mais divertido do que imaginei que seria. — admiti. — Isso funciona como um trabalho pra você?  — Não. Eu não ganho nada vindo aqui. Todo o lucro do lugar é da minha avó. Mas eu sempre visitei desde criança e os idosos sempre gostaram de mim. Eu não me dava bem com as crianças da minha idade, mas me dava bem com eles.  — Você deve ter sido uma criança muito esquisita. — brinquei.  — Pode ser. — deu de ombros. — Esse lugar fez parte da minha evolução como pessoa, sabe? Aqui eu tive o primeiro contato com a amizade e também tive que lidar com o falecimento de alguns desses meus amigos. Eu aprendi muito cedo que as pessoas não são eternas.  — Isso é... meio sombrio.  — Não é. — negou com a cabeça. — É bom ter noção da realidade desde cedo. Quando o meu avô se foi, ninguém precisava encontrar um jeito ameno de me dizer isso. Eu sabia o que era a morte e sabia que era inevitável.  — A gente pode parar de falar sobre morte? — sorri sem jeito.  — Claro. — sorriu também. — E o jazz? Gosta do jazz?  — Até que é agradável.  — Sim. — suspirou.  Dulce encostou sua testa na minha e ambos fechamos os olhos, ainda balançando no ritmo da música. Com muita naturalidade, aproximei meu rosto do dela e lhe dei um beijo, que foi devolvido no mesmo instante. Outra coisa que estava se tornando comum eram os beijos. Antes eles eram apenas um combo do sexo, a cereja do bolo para uma noite de transa. Agora eram quase rotineiros.  Pensar sobre isso despertou um bloqueio em mim. Parei de beija-la e também parei a dança.  — Algum problema? — Dulce perguntou confusa.  — Eu só... fiquei com um pouco de dor de cabeça. — menti.  — Eu posso pegar um remédio pra você, tem remédio pra tudo aqui. — ela fez menção de se afastar, mas eu segurei seu braço.  — Não, eu não me automedico.  — Christopher, eu sou médica. Posso te dizer que remédio tomar.  — Remédios não funcionam muito para as minhas dores de cabeça. Eu preciso mesmo é de um banho gelado e um cochilo.  — Você quer ir embora agora? — Vai ficar chateada? — o que eu estava fazendo? E daí se a Dulce se chateasse comigo?  — Não. Tudo bem. — sorriu fraco.  Droga, fique com raiva de mim, não seja compreensiva!  — Eu vou pegar a minha bolsa e a gente pode ir. — falou.  — Não precisa ir embora por minha causa.  — É que eu prefiro ir também.  [•••] Quando chegamos ao prédio dela, ela insistiu que eu a acompanhasse até seu apartamento.  — Não quer ficar até a dor de cabeça amenizar um pouco? — perguntou depois de abrir a porta.  — Não. — fui curto.  — Tem certeza? Eu posso te fazer uma massagem e... — chegou mais perto, dedilhando o meu peito e falando de um jeito mais sedutor. — te fazer uma massagem. Se a dor passar, nós podemos... — aproximou seus lábios dos meus, mas eu a parei.  — Não, Dulce. Eu vou pra casa. — fiquei sério.  O resquício de sorriso que ela tinha no rosto morreu. Dulce se afastou de mim e ficou bem séria.  — O que deu em você?  — Eu só quero ir pra casa. Qual parte disso você não entendeu? — falei com impaciência, podendo ter soado até um pouco grosso.  — Tá. — arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços. — Boa noite, Dulce.  — Boa noite, babaca. — fechou a porta na minha cara.  Agora sim ela estava brava.  Alguma coisa em mim me fez querer tocar a campainha, pedir desculpas por algo que eu nem sei o que era e depois agarra-la, mas eu optei por dar as costas e seguir o meu caminho.  Dentro do meu carro, enquanto dirigia para casa, eu fiquei pensando sobre o que eu senti. Poderia ser um sinal vermelho para algo que eu nunca quis e nunca me permiti sentir antes, ou poderia ser apenas a parte de mim que a detestava sumindo e dando lugar a uma parte que a via como uma amiga.  Minhas amizades femininas não eram tão íntimas e eu não sabia como deveria funcionar isso. Talvez funcionasse da forma como estava sendo com Dulce e o meu consciente ainda não tenha entendido.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD