III. Uma Guerra Fria

1202 Words
— Sigamos observando. Quero atualizações de cada avanço ou novo rumor — dizia Luke ao estagiário. — Sei estar fora do nosso escopo, mas posso poupá-lo de outros trabalhos por ora. — Sim, senhor! — O jovem assentiu rapidamente. O tempo de Luke durante o dia era escasso. Na ligação com sua mãe, fora avisado de um almoço com o pai e um homem, que o rapaz já sabia ter alguma filha. Mesmo que conseguisse usar o trabalho como desculpa para não se prolongar nesse tipo de conversa, sabia que logo não conseguiria justificar o porquê de ser solteiro. Seu pai fora muito paciente e isso estava acabando. Mesmo com a ajuda de sua mãe, a validade estava chegando… Foi uma manhã de muito trabalho, principalmente lidando com as expectativas dos números nos próximos dias. O cenário não era positivo e o mercado já conhecia o rumor da corte iraniana, o que fazia a exportadora perder um pouco mais de valor de mercado que ele gostava de ver. Moveu-se com alguns dos seus para atenuar os impactos das notícias na especulação, o que ajudou, mas precisava de algo concreto quando o rumor se provasse real. Na hora do almoço, dirigiu para encontrar o pai, que o aguardava na companhia de um homem. Os óbvios traços árabes já lhe davam uma ideia do que esperar. — Salaam aleikum! — O jovem abriu seu melhor sorriso para cumprimentar ambos ao se aproximar. — Wa aleikum essalam… — Ambos retribuíram e sentaram. Lidaram com seus asseios, antes da refeição, e todos os preceitos necessários para pedirem sua comida. Enquanto aguardavam a chegada da refeição, seu pai apresentou: — Esse é Tariq bin Muhammad Al-Ali. Expoente na alhicultura e um grande amigo de seu pai. Tariq, meu primogênito e único filho, Luke bin Ibrahim Al-Malik. — Tasharrafna, senhor! — Luke sorriu-lhe. — Presumo ser uma formidável área de atuação, mas confesso que me falta conhecimento para ter grandes conversas sobre — riu. — É jovem… fala como intelectual… tem postura de soldado. — O homem analisou. — Gosto do que vejo, Ibrahim… Quantos anos têm e com o que trabalha… Luke, não? — Sim. Tenho vinte e três anos. Sou atual CFO da Franco & Silva Exportações. Graduado em Ciências Contábeis; tenho um MBA em Finanças e planejo me lapidar cursando Economia, Engenharia Financeira e Matemática Aplicada. — Nasceu aqui ou no deserto de casa? — arguiu. — Sou brasileiro. Visito minha casa, mas não tenho ambições de retornar a Arábia, senão para as sagradas visitas à Meca, senhor. — Luke foi objetivo, mesmo sabendo do quanto aquela resposta era impopular. Tariq franziu o cenho, desconfortável com o que ouviu, mas assentiu com a cabeça e cessou seu interrogatório. Muito incomodado, Ibrahim fitou o filho. A refeição foi servida e eles comeram, solenes. — Foi formidável conhecê-lo. Infelizmente, não posso me estender! — Luke o disse, tirando um cartão do paletó. — Contate, caso necessite de algo. Será ótimo atendê-lo. — Masha’Allah, jovem! — Tariq sorriu-lhe. — Também não posso me demorar, mas ligarei para marcarmos um jantar. — Ficarei feliz em aceitar, senhor! Tariq se levantou e cumprimentou ambos para partir. — Essa precisava ser a resolução, Malik? — Ibrahim indagou o filho, respirando fundo para omitir seu desgosto. — Perdão, meu pai. Falei algo que o incomodou? Luke sabia bem o que falara e o porquê do pai estar tão desgostoso, mas ainda fingiu que nada fizera de propósito. — Continue assim e será ainda mais difícil casá-lo! — Hm… pretendia me casar com ele!? — debochou. Ibrahim bufou de raiva, mas não respondeu o filho. — O senhor está muito nervoso, meu pai. Perdoe a brincadeira, mas não pode levar isso tão a sério, eu acho. — Não posso levar a sério!? — O homem riu, irônico. — São oito anos desde que se tornou adulto e ainda tenho um filho solteiro, sem a menor perspectiva de me dar netos! — Tenho vontade de dá-lo netos e constituir família, meu pai. In sha’ Allah! — Luke se defendeu. — Infelizmente, não conheci ninguém que me pareceu enviada por Allah para tal. — Fugir de casamentos já me parece haram suficiente! — Não estou fugindo, perdão. — Ele se reparou ao perceber que o irritara mais do que ocorria comumente. — Pode ir para o trabalho! — Ibrahim disse, desgostoso. — Sim, senhor, meu pai. Salaam aleikum! — Wa aleikum essalam, filho. Juízo! — O homem desejou. Luke se apressou ao carro e suspirou. Realizou suas íntimas preces, afinal, não tinha o menor intuito de se casar com uma desconhecida e a demora poderia acarretar nisso. Voltou ao trabalho por volta das duas da tarde. Não foi um dia tão fácil dada a mente avoada com as dificuldades pessoais, mas Luke conseguiu continuar traçando as possíveis estratégias para o futuro. Com um esboço bem desenhado, conseguiu nutrir o setor de comunicação para boas sinalizações ao mercado que seriam aplicadas na estratégia de marketing do mês. Encerrou seu dia de trabalho às cinco, horário padrão. Aguardou o pôr do sol, observando-o da janela para ter seu momento íntimo de oração, antes de assumir o volante. Não enfrentou um trânsito tão agitado. Chegando em sua casa, foi até sua mãe, que dispensara as empregadas do dia para cuidar da refeição. O silêncio na casa evidenciava que o pai ainda não chegara. — Boa noite, minha mãe. Salaam aleikum! — Ah, meu amor. Wa aleikum essalam! — Luiza beijou sua testa. — Seu pai conversou comigo e está muito irritado. Tento ajudar, mas respostas malcriadas para ele não são a saída. — Perdão, minha mãe! — Luke riu. — Não consegui segurar, mas vi o quanto ele ficou mais irritado que o normal. — Ele não quer ser incisivo… mas, está cogitando te dar um prazo para casar; senão ele fecha um acordo de casamento sem o seu consentimento. O jovem olhou para a mãe, engolindo seco. — Tentarei ajudar, mas não acho que consigo. — Claro… — Luke assentiu com a cabeça, chateado. — E-eu… já… deveria- — suspirou, desapontado. — Eu… estarei pronto… procurarei… sei lá! — deu de ombros, aturdido. Luiza se aproximou para abraçá-lo. — In sha’ Allah! — O jovem bem-disse. — E-eu… vou… — Vá se banhar… Você merece! Onde passou a noite? — Amanda pernoitou no escritório de novo. Para não deixar Mariana ficar, a dispensei e fiquei. — O jovem disse. — Não é haram, mas é, com certeza, makruh… cuidarei no banho. Luiza apenas assentiu e desvencilhou-se do filho para permiti-lo ir ao seu quarto. Era uma casa grande e o quarto de Luke ficava no segundo andar. Apenas quando chegou ao quarto, Luke sentiu o peso do pernoite sobre seus ombros. Seguiu ao seu banho para lidar com a limpeza pela noite inapropriada. Ficou algum tempo na banheira, aguardando o total cair da noite para realizar suas preces antes de sair do quarto. O jantar fora extremamente incômodo. Ao chegar, seu pai ainda deixou o descontentamento claro. Ficou silenciado a maioria do tempo e não parecia ter vontade alguma de conversar com o filho. Tempos difíceis definitivamente estavam por vir.
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