
Amanda sorriu daquele jeito doce que desmontava qualquer defesa. E Nathan precisou desviar o olhar na mesma hora, porque ouvir ela defendendo Miguel… doía mais do que deveria.Ela ainda segurava o braço dele no corredor da casa.— Nathan, você tá bem? O Miguel é assim mesmo, eu tô me acostumando.Ele soltou uma risada curta, sem humor.— Você não devia se acostumar com certas coisas, Amanda.Ela franziu a testa.— Vocês brigaram?— Não. — Ele respirou fundo. — A gente só enxerga as coisas diferente.Ela ficou olhando pra ele por alguns segundos. E aquilo era um problema. Porque Amanda olhava de verdade. Como se tentasse entender as pessoas além da superfície.Miguel nunca olhava assim.Lá da sala, Miguel gritou:— Amor, traz outra cerveja pra mim!Nathan fechou os olhos por um instante. Amanda apenas respondeu:— Já vou!E saiu andando.Ele observou ela atravessar a casa usando uma blusa simples, o cabelo preso às pressas e aquele sorriso paciente que parecia existir até nos dias ruins. E foi naquele momento que Nathan percebeu uma coisa perigosa:Aquilo não estava passando.Não era mais atração de festa. Não era ego ferido porque o irmão “roubou” outra mulher. Não era competição entre irmãos.Ele estava apaixonado.E isso destruiu ele aos poucos.—Os meses viraram anos.Miguel e Amanda ficaram noivos.Nathan chegou a tentar se afastar. Começou a viajar mais a trabalho, recusava jantar em família, evitava estar em casa quando ela aparecia. Mas sempre voltava. E sempre encontrava Amanda ali, tentando fazer aquele relacionamento funcionar praticamente sozinha.Ela organizava aniversário de Miguel.Esperava ele chegar de madrugada.Passava pano pras grosserias dele.E Miguel… Miguel parecia amar a ideia de ter Amanda, mas não o suficiente pra cuidar dela.Nathan via tudo.Via quando ela fingia que não chorou no banheiro. Via quando ela sorria depois de ser ignorada. Via quando ela olhava pros casais na rua como se quisesse aquilo pra si também.E cada vez que percebia essas coisas, mais culpado se sentia.Porque uma parte dele pensava:“Eu faria diferente.”—Numa noite chuvosa, Miguel chegou alterado em casa depois de uma festa da empresa.Amanda estava na cozinha esperando por ele. Nathan tinha passado lá pra buscar uns documentos do pai e acabou ouvindo a discussão sem querer.— Você sumiu por horas! — ela disse, magoada. — Eu liguei várias vezes!— Ah, Amanda, para de drama!— Drama? Miguel, você me deixou sozinha naquele evento!Nathan ouviu o barulho de algo sendo jogado na pia.Então Amanda apareceu no corredor com os olhos cheios d’água. Quando viu Nathan ali, ficou imóvel.Constrangida.Ferida.Miguel veio logo atrás.— Ah, ótimo. Plateia agora.Nathan encarou o irmão.— Você tá bêbado.— E você tá se metendo no que não é da sua conta.Amanda passou a mão no rosto rapidamente.— Para, os dois.Mas Nathan não conseguiu ficar quieto daquela vez.— Não fala com ela desse jeito.Miguel deu uma risada debochada.— Nossa. Virou defensor dela agora?O silêncio pesou.Amanda olhou de um pro outro, confusa.Nathan sentiu o sangue gelar porque, pela primeira vez em cinco anos, ele teve medo de que alguém percebesse.De que Amanda percebesse.Então ele pegou os documentos na mesa e respondeu seco:— Diferente de você, eu sei respeitar alguém.E saiu antes que falasse coisa pior.Mas naquela noite, dentro do carro, parado na chuva, Nathan finalmente admitiu algo que vinha tentando negar há anos:Se Amanda pedisse, ele destruiria a própria vida por ela.

