1 Drake
Fugir. O que fugir quer dizer? Por que as pessoas fogem? Eu acabei de fugir.
Tenho fugido a minha vida inteira, de alguma forma eu sempre fugi.
As pessoas estão sempre fugindo, e parece um pouco irônico para mim dizer que fugi por amor. Depois de tanta coisa, eu fugi.
Minha vida não é um conto de fadas, nunca esperei que fosse. Até porque eu sou um escudeiro, fui treinado para proteger um príncipe, e não sonhar com a minha própria felicidade.
Eu só não contava com uma paixão platônica pela noiva do príncipe, cujo eu deveria proteger o mesmo.
Induzo o cavalo a parar na beira de uma montanha, o mesmo relincha algumas vezes não querendo parar, mas para mesmo assim.
— O que aconteceu? Por que parou aqui, Drake? Ainda estamos muito próximos do Reino. — Amice questionou com a voz assustada, cheia de nervosismo aparente. Está assustada, isso é perceptível.
— Desça, Amice. — Ordenei.
— Mas por qu...
— Desça! — Repeti cortando sua fala.
Senti o olhar de reprovação de Amice sobre mim, mas fingi não perceber. É melhor fingir mesmo, porque tudo está errado.
— O que vai fazer agora? — Amice questionou batendo as mãos na cintura como gesto de indignação.
A encaro enquanto também desço do cavalo. Me posiciono em sua frente já alisando o queixo como se estivesse pensando, mas eu realmente estava. Procurava as palavras e como as diria para ela.
— Drake! — Amice gritou chamando minha atenção.
— Calma! — Pedi calmo.
— Qual o seu problema? Precisamos fugir daqui, Drake. Se nos encontrarem aqui eu...
— Você quer voltar? — Questiono de uma vez por todas.
Amice me olha com os olhos arregalados como se eu estivesse falando a maior asneira que ela já ouviu em toda a sua vida.
Aila abre a boca algumas vezes mas não fala nada. Deve estar em choque.
— Amice?
— Como é que é? — Ela questiona pausadamente com o tom de voz baixo.
— Isso mesmo que ouviu. Você quer voltar? — Repito a pergunta como se estivesse perguntando algo simples.
— Por que está me perguntando isso? Drake... Eu fugi com você, estou aqui pronta para fugirmos e ir para qualquer lugar, e você simplesmente para à beira de uma montanha qualquer para perguntar se eu quero voltar? — Amice questiona indignada com seu tom de voz nervoso demais.
— Amice... Querendo ou não, você é apenas uma menina ainda. Tanto eu, quanto Magnus somos bem mais velhos do que você. É normal que se confunda, e eu acabei de perceber a besteira que acabei de cometer.
— Besteira? — Aila repetiu rindo pelo nariz. Sua risada é irônica e tem um pouco de mágoa. Está magoada, Princesa?
— Amice... Não entenda errado, você sabe bem que não foi isso o que eu quis dizer.
— Eu entendi bem o que você quis dizer, Drake. — Amice disse nervosa.
É normal que esteja, ela não entende. É jovem demais, não tem porquê eu me surpreender.
— Amice, Magnus era meu amigo... Tudo bem, não éramos bem amigos. Mas você é noiva dele... Aila, fomos precoces. Fugimos sem olhar para trás, sem pensar direito. — Comecei a falar mas não conseguia falar exatamente o que eu queria falar.
— Você quer voltar, Drake? Porque meu pai adoraria enforcar você amanhã ao meio-dia. — Amice ironizou.
Balancei a cabeça caminhando de um lado para outro com as mãos na cabeça sem saber exatamente o que eu queria fazer, o que eu queria dizer a ela, eu estava no modo automático desde de manhã quando acordei e levantei da cama sentindo como se o mundo pudesse desabar em meus pés se eu não fosse atrás de Amice para confessar o quanto a amava.
— Você realmente me ama, Amice? — Questionei quebrando o silêncio que ficou enquanto eu caminhava de um lado para outro totalmente sem estruturas e sem chão, podendo cair em um abismo infinito e escuro abaixo do chão.
Amice me encarou com os olhos lacrimejando como se eu estivesse falando a maior besteira que ela já ouviu em toda a sua vida.
Fiquei a encarando de volta sem saber o que poderia falar para amenizar as coisas, mas no fundo não queria mudar o que falei, porque era o que eu estava sentindo de verdade. Era isso o que estava passeando pela minha cabeça naquele exato momento, então não teria porquê mudar o que eu falei ou sequer me arrepender.
Mas me arrependi. Me arrependi no momento que ela correu em minha direção batendo com tanta força no meu peito que era possível ouvir o som dos seus punhos me batendo a quilômetros de distância.
— Você... Você... — Ela só conseguia falar isso enquanto praticamente me espancava alí em sua frente.
— Amice, se acalme! — Peço tentando segurar seus pulsos.
— Você só pode estar brincando comigo! — Ela gritou tão alto que ecoou por aquele deserto.
O dia estava amanhecendo, e já podíamos ver maioria das montanhas e a estrada perfeitamente.
— Você não acha que eu te amo!? — Amice gritou novamente. — Eu fugi com você! Cometi adultério... Abri mão da minha vida no reino... Abri mão do trono, Drake. Da minha irmã, do meu noivo... E você tem a coragem de vim até mim me perguntar se eu tenho certeza que te amo?... Você...
Ela... Citou o trono... Até mesmo Magnus ela citou... Se ela citou, isso quer dizer que se arrepende. Que acha tudo um grande erro ter deixado tudo para trás para estar comigo. Eu sei bem o que ela falou sem ter falado de verdade.
— Então você acha que foi uma grande burrice ter deixado tudo para trás? — Questionei ofendido.
— O que?... — Amice caminhou para trás me encarando confusa.
— Você acabou de falar que abriu mão do Magnus, do trono... Você se arrependeu, não é? Acha tudo um grande erro, não queria ter fugido comigo de verdade, porque acha tudo uma grande idiotice deixar toda a sua vidinha recatada por um simples escudeiro.
— Drake você está brincando comigo? — Amice riu irônica sem nenhum humor, totalmente desacreditada e sem nenhum humor mesmo, seu tom de voz continha cansaço.
Fiquei em silêncio. Não conseguia falar nada para ela, até porque eu não tinha o que dizer, deixei meu sangue quente falar por mim. Posso ter sido duro com ela, mas tenho certeza de que é isso exatamente o que ela pensa.
— Vamos sair daqui. Daqui a pouco, os soldados do Rei nos encontram, e por mais que eu queira muito que eles acabem com você agora, eu também não quero ter que voltar e encarar minha família depois desse ato de rebeldia tão humilhante para mim e para eles. — Amice disse baixo sem nenhum pouco de vontade, como se falar comigo a irritasse.
— Entendo, para você seria um grande fardo voltar para a sua vida de luxo e paparicação. — Ironizei subindo no cavalo e erguendo a mão para ela subir também, não olhei para ela, virei o rosto para o outro lado para que não precisasse trocar olhares com ela.
É assim que algo tão rápido acaba, com o fim, na mesma velocidade que começou.