João Santore
Ainda sinto os braços de Ryder ao meu redor, apesar da situação que me encontro, é calmante, reconfortante, me sinto aquecido, pronto para enfrentar o que for, é tão bom ter alguém ao nosso lado quando tudo desmorona assim, e é ainda melhor quando ele esse alguém está lá nos momentos de felicidade, quando essa pessoa nos proporciona essa felicidade, eu tenho muita sorte de ter ele comigo, ele é amigo, gentil, amoroso, se preocupa, cuida mim.
— Licença, — Tenho que me forçar a sair dos braços de Ryder e me virar para encarar o homem vestido de bombeiro em frente a porta da minha loja, mas ainda sinto o braço direito de Ryder em minha cintura, me mantendo perto e aquecido. — Vamos isolar todo o local até pelo menos amanhã. É o proprietário?
— Sim, João Santore. — Sinto minha voz soa trêmula ao falar, rouca, minha garganta incomoda um pouco.
— Alvarez. — Ele se apresenta, estendendo sua mão a quão aperto. Ele aponta para a saída, e com um último olhar ao redor, eu saio sendo amparado por Ryder. Ficamos na calçada quando eles colocam umas fachas amarela na porta, a fechando. — Vão investigar a origem do fogo, mas temos suspeitas que pode ter sido fio desencapado, que levou a um pequeno curto-circuito, pode me passar seu contato? Para informar quando a loja será liberada e termos o resultado da pequena investigação.
— Claro. — Lhe passo meu contato e ele se vai com um breve aceno, levando com ele o caminhão de bombeiros.
— João. — Pri aparece em minha frente, Augusto está ao seu lado. Saio um pouco de perto de Ryder e abraço minha amiga, sentindo-a tremer um pouco contra mim. — Sinto muito, pode contar comigo, quando for reformar, vamos isso juntos, vou te ajudar em tudo.
Sorrio, verdadeiramente feliz.
— Que sorte a minha ter vocês. — Olho por cima de seu ombro, para Augusto. — Não se preocupem por agora, continuaram a receber todo final do mês até que tudo esteja de pé e funcionando.
— O importante agora não é o dinheiro, senhor. — Augusto se manifesta e Pri concorda.
— Mas vocês ainda pagam contas. Não discutiremos isso, vão para casa, descansem, vai ser tipo umas férias forçadas. Entro em contato quando eles liberarem tudo.
Eles acenam.
— Você ficará bem, certo? — Ela olha por cima do meu ombro, dando um sorriso pequeno. Eu retribuo.
— Sim, podem ir.
— Te dou uma carona, Pri.
— Obrigada, Augusto.
Eles se vão, e contínuo parado, virando para a frente da minha loja, encarando a facha amarela, que diz claramente, "Não ultrapasse".
Meus ombros caem, em tristeza, mas sinto mãos gentis os apertando e confortando.
— Vamos para casa. — Ele diz essas pequenas palavras, e algo se agita em meu estomago, olho para seu rosto, tem uma expressão pesarosa, parece até mesmo que foi ele quem acabou de perder algo precioso. Quero saber a intensidade dessas palavras. Casa, nossa casa? A casa dele?
— Não quero te atrapalhar. — Resolvo seguir pelo caminho em que essas palavras não significam nada mais do que apenas um pequeno conforto, uma escapada sem querer de três palavrinhas erradas com sentido totalmente diferente.
Ele segura meus ombros, abaixando a cabeça a procura dos meus olhos, quando ele os encontra, ele sorrir, um sorriso lindo que me deixa de pernas bambas, todo meu corpo treme, é como se estivesse passando por um pequeno terremoto.
— Você não me atrapalha, na verdade me salva de viver numa solidão naquele apartamento vazio, então, se te faz sentir melhor, não estou fazendo isso por você, e sim por mim, por puro e cru egoísmo. — Tem um lampejo de verdade em seus olhos, mas algo a mais também que eu não sei definir. Me sinto confuso com tudo que passo a ver em seus olhos brilhantes. O olhando melhor agora, sua pele n***a brilha contra a luz do sol, seus olhos castanhos parecem um caramelo derretendo, delicioso, quente, doce, seus cabelos cacheados soltos e muito bem definidos indo até seu pescoço e balançando contra o vento fresco, queria poder tocar aquelas mechas e os senti contra meus dedos, sabendo que são macios e bem cheirosos. Ele parece divino, apaixonante. — Vamos? Vou te preparar um leite morno, irá relaxar em meu sofá, assistindo um filme.
— Você não tem que trabalhar? — Pergunto, suas mãos saem dos meus ombros e vão para o topo da minha b***a, na base das minhas costas me incentivando a andar, sinto um arrepio tomar meu corpo, está quente e não é o sol das três da tarde, ele me guia até seu carro, estacionado não muito longe.
— Na verdade tenho, mas não tinha muito o que fazer, então me dei essa tarde de folga. Viu? — Ele sorrir genuinamente. — Mas algo que estou tirando proveito de você.
— Não fale muito isso, posso realmente acreditar. — Digo enquanto ele mantém a porta do passageiro aberta, entro terminado minha fala e sentindo aquele cheiro de Ryder que eu amo.
— Eu pensei que eu fosse r**m com mentiras. — Ele diz divertido, fechando a porta e dando a volta no carro, tomando o lugar do motorista, ao meu lado.
Me recosto sobre o encosto do banco, viro meu rosto para a janela de vidro preto, olhando a paisagem irem passando rapidamente, alguns prédios, casas, lojas, e então minha mente se desliga, penso demais, chegando a uma conclusão.
E se foi Edgar? Ele faria isso para me prejudicar? Ele iria tão longe? O que eu faria se essa teoria se concretizasse?
Mas volto a pensar, que eu estava muito disperso, minha cirurgia, meus olhos falhando, o relacionamento que eu arrastava preso a correntes em meus pés, tudo isso fez um nó em minha cabeça e eu não tinha tempo de fazer muito mais do que me afundar numa tristeza ao pensar em como minha vida estava se transformando de perfeita para um completo caos, então eu esqueci a revisão da parte elétrica da loja, já que sou o responsável por essas coisas.
Acho que no fim apenas eu tenho culpa.
Crescer numa família onde todos os seus irmãos são adultos formados e com suas próprias vidas formadas faz com seus pais tenham a atenção apenas para você. Eles me criaram bem, fizeram de mim o homem que sou hoje, mas talvez, eu tenha uma família tão perfeita, apesar das brigas, assim como todas tem, mas só talvez, isso tenha feito eu fantasiar que todos são assim, pensam e agem como minha família, com lealdade e amor, cuidado. Esperei tanto isso de Edgar, e no fim, ele fez o que fez, me usou, descartou, e me deixou ali, para usar quando quiser, como um brinquedo quebrado que vez ou outra parece interessando quando os outros brinquedo melhores perdem a graça.
Então quem eu devo culpar, o amor de meus pais? Com toda certeza não, eles fizeram de tudo para que meu mundo, minha vida, fosse feliz e cheia de pessoas que me amam. Então devo culpar apenas a mim, que não soube diferenciar, saber a diferença de ser amado e ser usado como algo para atender necessidades do outro, deixando as suas próprias de lado.
Levo um pequeno susto quando sinto a mão de Ryder contra a minha em cima do meu colo, olho ao redor e vejo que estamos no estacionamento de seu prédio, miro seus olhos e sorrio fraco para ele.
— Sei que deve estar pensado em milhões de coisas, se culpando talvez, mas lembre-se que somos apenas humanos, vivendo nossas primeiras vidas, cometendo erros e aprendendo com eles, os concertando e tentando ser melhor. Está tudo bem João, você fez o que pode, fez seu melhor.
Sorrio para ele, apertando sua mão com ainda mais força do que ele me segura.
— Já falei que tenho muita sorte de ter você? O destino não falhou comigo quando colocou você na minha vida.
Ele tem um sorriso lindo em seu rosto nesse momento, ele levanta sua mão, levando a minha junto e planta um beijo na palma da minha mão, um beijo longo e demorado.
— Eu penso do mesmo jeito, o destino teve compaixão de mim e me presenteou com você.
— Ryder... — Seus olhos, o brilho neles, a doçura, o carinho, a pequena chama de algo que se eu souber o nome, não quero lembrar agora.
— João...
— Eu...
— Você...?
Abaixo a cabeça olhando nossas mãos juntas agora sobre sua coxa, o contraste da cor de nossas peles, é lindo, fascinante.
— Muito obrigado, sério mesmo, obrigado por tudo que faz por mim.
Falo baixinho, sentindo minha respiração acelerar quando ele olha diretamente para a minha boca, abro os lábios com um suspiro e ele olha para meus olhos, eu vejo, vejo o desejo. Nossas respirações baixas, um pequeno ruído naquele silencio que parece durar horas, nossos olhos conectados agora, nos puxando, e quando sinto sua mão livre na minha nuca, eu apenas me deixo ir, me deixo ser levado de encontro ao seu rosto, nossas bocas se chocando, meus lábios se abrindo e sua língua revivificando a minha, é lento, saboroso, e gosto disso, pois sei que não serei capaz de esquecer jamais, em toda minha vida irei lembrar da forma em como ele aperta meus cabelos curtos da nuca, me puxando impossivelmente mais para perto, seus dedos apertam os meus com força e minha mão livre vai diretamente para seu peito, musculoso, que sinto o batimento acelerado contra minha palma, seus lábios são doces, perfeitos para estarem no meu, busco por sua língua novamente, sentindo meu corpo nas nuvens, flutuando, ele geme baixinho e o sigo quando sinto a mordida em meu lábio inferior.
O beijo é molhado, lento, depois acelera e ele apenas solta minha nuca, levando seus dedos para cima, se firmando em meus fios, os puxando com delicadeza, mas tem firmeza em sua pegada, me colocando parado ele faz o que bem quer com minha boca, chupa meus lábios, enquanto sinto seus olhos preso em meu rosto, como se ele tivesse sonhado muito com isso e não pudesse perder nenhuma reação minha.
Então sua boca deixa a minha, um beijo sendo depositado em minha testa, sinto sua respiração acelerada contra meu rosto e abro meus olhos, os arregalando ligeiramente quando finalmente me dou conta do que acabou de acontecer dentro do carro de Ryder, no estacionamento do prédio dele, ele me beijou, devorou, e eu apenas deixei, me entreguei como se não tivesse controle sobre meu corpo e minhas emoções.
— Eu... — Meu coração bate, quase saindo para fora do meu peito, minha voz está rouca, meus óculos estão num formato estranho em meu rosto. Nunca fui beijado dessa forma, com esse carinho, com essa fome, com tanto desejo.
— João...
— Ryder.
Nossos olhos estão presos um no outro, suas mãos, uma ainda segura minha nuca, a outra se entrelaça em meus dedos.
— Eu sinto muito, se fui precipitado, sinto muito se...
Meus olhos arregalam novamente, ele não queria esse beijo? Ele se arrepende?
— Você não queria esse beijo?
— Não. — Ele diz alarmado e tristeza toma conta da minha feição, ele percebe e finalmente nos soltamos, ele passa a mão sobre os cabelos e bufa com irritação. — Eu quis dizer que não me arrependo de ter beijado você, nunca seria capaz de me arrepender de algo assim. — Ele olha ao redor, parece nervoso. Em dúvida, quando finalmente me olha ele volta a falar. — Eu sempre quis seu beijo, não teria como eu me arrepender dele sendo que foi o que sempre desejei, desde o momento que lhe conheci.
Agora estou de boca aberta, espantado com sua declaração.
— Ryder, eu...
— Eu sei que é muito para processar, mas, sempre fui a fim de você, quando Alberto nos apresentou, eu gostei de você, parecia legal, divertido, mas quando eu passei a realmente conhecer você, te entender, nutri sentimentos, eu passei a ver você de um jeito que um amigo não vê. Sei que pode ser confuso para você, terminou um namoro a pouco, mas por favor, não descarte a ideia de sermos algo futuramente, ficarei ao seu lado, respeitarei seus limites, nunca mais voltaremos a falar sobre isso enquanto não se sentir confortável para tal, mas não me afaste, e não tome uma decisão sobre isso... — Ele aponta com suas mãos entre nós dois. — Nesse momento, pense mais sobre, levo o tempo que for para esquecer Edgar, para pensar em mim como algo além de apenas seu amigo. Eu vou esperar o tempo que for.
Tomo uma, duas, três respirações, e quando ele nota que não falarei nada ele abre a porta do carro.
O que eu quero?
O que eu quero?
Vou continuar sofrendo por algo que não pude controlar ou até mesmo prever em relação ao meu antigo relacionamento ou o caráter do meu ex? não, não devo continuar assim.
Seguro seu braço quando ele está para sair e me deixar ali.
— Não me deixe. — Falo baixinho, como uma súplica. Ele se volta para mim, seu rosto sério, me passando verdade e confiança.
— Nunca irei te deixar, mesmo que apenas sejamos amigos.
— Não. — Falo rapidamente, ele se assusta com meu rompante, tentando entender a pequena palavra. Continuo falando, segurando sua mão direita entre as minhas. — Eu não preciso de tempo para esquecer o Edgar, nosso relacionamento estava desgastado muito antes de eu finalmente colocar um ponto final. Não tenho dúvidas quanto a isso. Quando a ver você com outros olhos, bem, eu tenho feito isso desde quando dormi em seus braços, talvez um pouco antes disso. Eu só...— Hesito. Ele segura nossas mãos juntas com sua outra mão, viramos um emaranhado de mãos juntas, se apertando. — Eu só tenho um pouco de medo de embarcar em um novo relacionamento, longe de mim achar que você faria algo como Edgar fez, mas ainda assim tem algo que me freia.
Ele sorri carinhoso para mim, um sorriso amoroso e gentil, com paciência.
— Vamos superar isso juntos, então quando você estiver pronto, podemos dar mais um passo nisso que estamos começando, vamos tentar nos conhecer, não como amigos, já sabemos muito um do outro nesse quesito, mas vamos nos descobrir como dois homens que tem sentimentos além de uma amizade um pelo outro, está bom assim.
Eu aceno, sorrindo verdadeiramente feliz que ele me entenda e não force nada, apenas tenta descobrir uma nova forma de ficamos juntos, superando qualquer medo que tenha sem forçar nada, ou um relacionamento.
Finalmente seguimos para dentro, ele prepara alguns lanches e um leite morno para mim, sentamo-nos no sofá, estamos confortáveis, vesti um short e camiseta que Ryder me emprestou, ele tirou a camisa social e trocou por shorts e camisetas também, ficamos ali, sentados em seu sofá, assistindo e comendo, conversando algumas bobeiras, enquanto penso que estou a cada dia mais apaixonado por Ryder.