Capítulo 7

2713 Words
João Santore Algo me sufoca, aperta meu pescoço até que eu esteja sem ar, implorando, rezando para que alguém venha ao meu socorro, alguém me ajude, mas parece que ninguém me escuta, meus gritos sufocados não parecem chegar aos ouvidos das pessoas, elas passam ao meu redor, me olham, mas não me escutam, não me ajudam. Vejo os cabelos dele em meio à multidão, grito mais ainda sentindo meu corpo perder todas as forças, estou suando, minha garganta doe, meus olhos têm lágrimas, mas eles não me escutam, será que sou a baleia solitária? Destinado a gritar, implorar, mas nunca, jamais ser escutado por outros de minha espécie. Ryder, ele está vindo em minha direção, é ele, os cabelos cacheados, eu finalmente podia parar de gritar por ajuda, ela tinha chegado, ele chegou, mas porque os cabelos agora não são mais cacheados, por que são lisos e castanhos? Seu rosto está borrado, não é nítido. Meus olhos arregalam, minha respiração falha, todo meu corpo treme, não, de novo não, eu estou preso a ele, não posso ficar preso ao Edgar, não novamente. Grito com tudo de mim, sinto minha garganta seca e finalmente meus olhos se abrem, meu coração bate forte em meu peito e procuro com desespero em meus pulsos a corda que me matinha preso, mesmo vendo embaçado, enxergo meus pulsos sem nada, olho ao redor vendo alguns borrões, mas sei que estou em meu quarto, o sol entra pela porta de vidro que dá para a pequena varanda do prédio onde moro, na cabeceira ao meu lado esquerdo vejo alguns poucos livros que estava lendo. Passo a mão por meus cabelos, sentindo-o completamente encharcado, volto a deitar na cama e me cobrir com a coberta, na quarta depois do término eu dormi no quarto de hóspedes da casa de Ryder, na quinta dormi sozinho, mas sem nenhum pesadelo, na sexta dormi literalmente nos braços de Ryder, então hoje vem esses sonhos, pesadelos na verdade, sufocantes. Como posso ter um proveitoso e tranquilo relaxando se ele começa assim? Com pesadelos que me tiram o ar? Ia fazer uma pequena faxina no apartamento, meu quarto até que está arrumado, mas meu closet está uma bagunça, calçados para todos os lados e roupas espalhadas, é a parte que mais faço bagunça aqui. Mas perdi totalmente meu animo, quero apenas ficar aqui, deitado, assistir algo na tv em frente a cama, na parede, e voltar a dormir mais, rezando para que não haja mais pesadelos. Resolvo ao menos tomar café da manhã, pego meu celular em cima dos livros e vejo que são apenas seis da manhã, solto um suspiro, é domingo, e eu acordei cedo? Sendo que tenho muito trabalho para levantar-me durante a semana para ir trabalhar, e olha que eu amo meu trabalho, aí quando posso finalmente permanecer por mais tempo na cama acordo com a maior facilidade. Me debato sobre a cama com raiva, a coberta sai de cima do meu corpo, mostrando meu pijama de calças e camisa de seda, com desenhos fofinhos de caixas de leite com carinhas de vacas, sim gente, eu amo leite, se não percebeu. Esse líquido branco me tem totalmente viciado, não leve para o caminho pervertido por favor. Me levanto, calçando minhas pantufas de vaquinhas. 'Tá, pode rir agora. Eu riria de mim mesmo, mas no momento ainda estou puto por causa desse maldito pesadelo, quando pensei que tinha aniquilado toda a existência de Edgar da minha vida, isso começa. Sentado na lateral da cama encaro a porta fechada que me leva ao restante do meu apartamento, atrás de mim tem a porta do meu closet e banheiro privado, então levanto e dou a volta na cama, entro no banheiro, escovo meus dentes e lavo meu rosto, esvazio minha bexiga, nada de ereção matinal hoje, não depois do pesadelo que tive. Saio do banheiro e entro na porta ao lado, não preciso acender as luzes, está um pouco escuro mais consigo me guiar pelo closet, abro uma gaveta na parte de baixo ao que guardo alguns perfumes que são exclusivamente meus, vejo apenas várias cores, pequenas linhas de cor, e sei que são meus óculos, eu tenho praticamente uma coleção deles de cores diferentes, eles são em formato todos iguais, um pouco grandes e redondos, escolho a cor cinza para entrar totalmente no clima que acordei hoje. Logo minha visão toma foco, consigo enxergar tudo com mais clareza, mas estranho a pontada em minha cabeça ao colocar os óculos e por alguns segundos a vista escurece e fica tudo turvo, mesmo com os óculos, então, medo cobre meu corpo. É mais real do que eu imaginei, está acontecendo. Logo terei que ir ao médico e tenho medo da resposta. Se for negativa vou ter que me adaptar todo para minha nova vida, isso vai ser um choque em minha realidade. Já pronto sigo para minha cozinha, coloco leite numa xícara e esquente no micro-ondas, pegos pães de forma e passo requeijão, então meu café está pronto, resolvo terminar o episódio da série que comecei ontem, sento-me sobre o sofá e ligo a tv, tomo meu leite calmamente enquanto como meu pão, sinto-me satisfeito e vinte minutos depois levanto e lavo tudo que sujei. Meu domingo é preguiçoso, passo ele todo sozinho e assistindo séries e filmes, nada melhor para fazer já que nenhum dos meus amigos se manifestarem, então resolvi que seria bom esse tempo comigo mesmo, sem fazer nada, e apenas descansar. Mas logo a segunda se inicia, levanto cedo e tomo um pouco de leite morno com torradas, saio do apartamento depois de checar umas duas vezes se desliguei o gás e todas as luzes, desço de elevador direto para o estacionamento, entro em meu carro e saio no trânsito agitado da cidade, hoje vou um pouco mais cedo, já que eu mesmo que vou abrir a loja. Quase trinta minutos depois estaciono no outro lado da rua que minha loja está e atravesso, logo chegando na fachada, entro pelas portas do fundo e sigo logo para abrir todas as portas da loja, passo o olho por todas as vitrines. O dia se passa comigo, trancado em meu pequeno laboratório, Pri ficou totalmente responsável pelas vendas hoje, não tinha cabeça para lidar com o público, ao meu dia eu sair do laboratório e saia pela porta, entrando em meu escritório quando ela bateu em minha porta, um embrulho em suas mãos e um sorriso largo em seus lábios. — Eu tenho quase cem por cento de certeza que foi o mesmo homem que veio trazer seu almoço naquele dia que mandou o seu almoço novamente hoje, é aquele seu amigo, não é? O Ryder. — Com toda certeza, ele é meu amigo, se preocupa comigo, por isso mandou, não tenho me alimentado bem ultimamente e ele está sendo gentil e amigo comigo. — Ok, você pode tentar me enganar, mas sei que tem coisa aí. — Ela deixa o embrulho em cima da minha mesa. — Você pode querer tentar me enganar ou até mesmo fingir que não tem nada, mas eu reparei em vocês no outro dia, os olhares, as vezes eles dizem mais que nossas palavras. Acabo revirando meus olhos, sentindo meu coração martelar meu peito. — Você está enfiando coisas em minha cabeça Pri, não faz isso. — Estou apenas sendo realista, você tem que aceitar amigo, e viver. Eu não posso viver, nem sei o que será da loja da minha mãe se caso eu tenha que passar por uma cirurgia e perca toda a minha visão. Como posso viver algo incerto? — Por favor, Pri, eu acabei de terminar meu relacionamento. — E o que isso tem a ver? Se apaixonar faz bem, seu outro relacionamento acabou? Ótimo, chore, sofra, coloque tudo para fora, mas sua vida não acaba aí, tem muitas pessoas para conhecer, novos amores possíveis, você pode ter gostado dele, mas existe milhões de gostar, de amar, então, se der uma chance, der uma chance para aquele homem, ele pode ser o seu grande amor. Fecho meus olhos com força e me sento sobre minha cadeira, é muita coisa para pensar e digerir, eu não ter que pensar nisso agora. Não mesmo, não quero na possiblidade de perder a amizade dele, colocando fé em um romance que eu não faço a mínima ideia de que pode dar certo. — Pri, é tudo muito novo. Pensar nele, na possibilidade de ter ele comigo, amanhecer em seus braços novamente, aquele dia, ter seu calor contra mim, sua atenção e carinho, a forma que ele sorrir e até cuida de mim, é tão extraordinária, tão, tão apaixonante, estou começando a amar cada detalhe dele, estou começando a... a amar ele. Meu corpo trava, meus olhos se enchem de lágrimas, é um sentimento tão intenso, meu coração está tão cheio. — Seus olhos, tipo, se iluminaram, foi lindo, foi como ver uma lua cheia, brilhante, intensa. Olho para Pri, sinto meus olhos se encherem de lágrimas. — João. — Ela se senta na cadeira a minha frente e segura minha mão em cima da mesa. — Me dar conta da intensidade dos meus sentimentos me deixa com medo. Muito medo na verdade. Acho que nunca me senti assim. — É normal ter medo, faz parte de quem somos, mas, também temos que enfrentar isso, lutar, sabe? Depois você pode se dar conta que deveria ter feito mais, aí vai ser tarde, se sente que é isso que realmente quer, não hesite. Sinceramente? Ele parece muito a fim de você. Sorrio, verdadeiramente, secretamente implorando para que o que ela diz seja totalmente verdade, e se ele gosta realmente de mim, sente algo, como nunca me falou ou demonstrou? Será que isso aconteceu desde que comecei meu namoro com Edgar? Pri sai de minha sala e eu sorrio olhando o pacote com minha comida, e a pequena garrafa de leite está ali também, ele me conhece muito bem. Meu almoço é feito comigo nas nuvens, querendo que ele mesmo tenha vindo trazer meu almoço como no outro dia, mas dessa vez ele apenas pediu para entrega, não quis me ver. Talvez eu tenha que me convidar para sua casa novamente? Chamar ele para ver um filme só nós dois? E se o clima acontecer investir? Eu não sei o que fazer, se devo realmente seguir meu conselho dado a Marcos, assim como o que Pri me deu, é muito confuso e ainda estou um pouco assustado, seguir em frente depois do meu relacionamento com Edgar parece ser difícil, ele me fez sentir um nada, perdoar ele por coisas que não tem perdão, me fez sentir inferior, menos incapaz de receber e dar amor, ele me fez refém do que eu imaginei ser carinho, proteção, desde que ele me via apenas como uma posse, um brinquedo que ele podia fazer o que bem entender ser ter maiores consequências, e eu apenas seguir isso sem questionar. Eu fui muito fraco. Me assusto com a porta sendo aberta e Augusto entrando, ele tem sua respiração ofegante e vem rapidamente até mim, pegando meu celular e carteira em minha mesa, quando estou para perguntar o que está acontecendo, sinto um fedor de fumaça, assim como vejo ela entrando aos poucos em minha sala, antes que eu possa reagir Augusto está me puxando apressadamente para fora, começo a tossir e tapo minha boca e nariz com meu braço coberto pelo casaco, meu segurança segue me puxando, olhando ao redor, tudo está tomado por fumaças, assim como vejo o fogo subindo pela parede do meu lado direito, me assusto quando alguns fracos de perfume explodem, me assusto e acabo caindo, tropeçando em meu próprios pés. — Temos que sair agora, senhor, já liguei para os bombeiros, mas vão demorar para chegarem. — Augusto diz e tiro meu foco das chamas se espalhando nas paredes e foco meus olhos cheios de lágrimas em seu rosto preocupado. — Temos que ir. — A Pri ela... — Está bem, já me certifiquei que ela estivesse fora quando fui até o senhor. Balanço a cabeça e me levanto, sentindo as lágrimas descerem, sinto minhas pernas trêmulas quando paro ao lado de fora, na calçada, olhando para trás, vendo fumaça sair da porta da loja que minha mãe construiu. Como isso foi acontecer? Como? Ouço o toque de celular ao longe e Augusto estende o meu para mim quando olho ao redor a procura do som. — Obrigado. — Vendo o visor vejo logo que é minha mãe, ela tem acesso as câmeras do local assim como todos os censores do lugar, deve ter chegado um alerta para ela assim como acaba de chegar no meu celular. Ainda com lágrimas em meus olhos eu a atendo. — Meu filho, diz que é você por favor, e que foi apenas um erro com os censores da loja. — Sou eu mamãe. Mas não foi um erro. — Começo a chorar e ela entra em desespero. — O que aconteceu meu amor? Está ferido? Estamos voltando agora mesmo. — Ela diz apressada, eles viajaram a uns dois dias para o Brasil, para casa dos meus irmãos. — Não mamãe, eu estou bem, vou resolver isso. — Meu filho, você está chorando, o que aconteceu? — A loja. — Mais lágrimas descendo pelos meus olhos, sinto que decepcionei ela, mamãe confiou em mim para cuidar dela, e eu deixei que isso acontecesse. — Está pegando fogo, eu sinto muito, desculpa mamãe, desculpe. — Meu amor, não, não é sua culpa, deve ter acontecido algo, um acidente, mas não foi sua culpa, por favor amor, não se culpe por algo assim, eu te amo, seu pai te ama, seus irmãos também te amam, sabe disso, não é? Nunca te culparia por algo assim meu amor, tenho certeza de que não tem culpa. — Choro ainda mais ouvindo suas palavras, estou me sentindo muito sensível. Ao fundo escuto vozes alarmadas e preocupadas, reconheço que são meus irmãos e meu pai, choro muito e abaixo a cabeça, desviando da loja que estava sendo coberta pela fumaça e alguns picos de chama podiam ser visto pelo teto pela grande janela de vidro que parecia que logo iria explodir. Me assusto com as sirenes e olho para o lado quando sinto as mãos de Pri nos meus ombros. — Os bombeiros estão chegando, acho que vão conseguir salvar tudo, ou a grande parte. — Ela diz com seus olhos triste e aguados, me dando um sorriso pequeno. Apenas aceno com a cabeça, quando os homens nos pedem licença, nos afastando mais da calçado, fomos instruídos a ir para o outro lado da rua, e segui com os olhos eles trabalhando. — Vou desligar mamãe, os bombeiros chegaram, vou resolver tudo por aqui. — Ok, meu amor, ligue para mim assim que chegar em casa, ou melhor, vá para casa de Ryder, fique com um de seus amigos, será melhor, pode fazer isso? — Claro mamãe. — Falo sem muita convicção. — Te amo filho. — Também te amo. Ela desliga o celular e fico ali durante os próximos quarenta minutos que eles usam para conseguirem controlar o fogo e apagarem por completo. Quando entro novamente na loja quando eles vão embora e tenho Pri ao meu lado assim como Augusto, eu quase desabo no chão ao ver os vidros dos perfumes estourado e todos espalhados pelo local, as prateleiras queimadas e cheias de cinzas, a parede está toda danificada, sorte que não passou para as lojas e o prédio ao lado. O choro vem forte novamente, e quando estou para ir direto com meus joelhos no chão, braços fortes me seguram, me mantendo em seu abraço quente e acolhedor. O cheiro, esse cheiro são reconfortantes, Ryder veio até mim novamente, me permito desabar em seus braços, sentir minha dor, tive sorte que saímos ilesos, que o fogo não chegou ao meu laboratório, mas ainda me sinto perdido e um fracasso, talvez eu tenha culpa nisso. Mas me deixo fechar os olhos e relaxar quando ele fala baixinho em meu ouvido, quando ele me aperta e abraça mais forte contra seu peito. — Eu estou do seu lado, eu estou aqui, não sairei do seu lado meu pequeno bolinho.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD