A tarde caía devagar pela janela do meu antigo quarto. O sol se infiltrava pelas frestas da cortina como dedos tímidos, riscando o chão de madeira. O mesmo quarto de anos atrás — intacto, como se ninguém tivesse tido coragem de tocar. Ainda tinha a p***a do troféu de montaria na estante, os livros de escola que eu nunca li empilhados na prateleira, e a colcha grossa de linho que minha avó insistia em manter ali. A mesma. A p***a da mesma.
Eu me sentia um intruso dentro da minha própria história.
Me joguei na cama sem pensar muito, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, o peito ainda pressionado pela discussão com meu pai. O velho desgraçado tinha o dom de me levar ao limite com meia dúzia de palavras. Mas não era só ele. Era tudo. O rancho. A casa. Os olhares.
E principalmente... ela.
A imagem dela não saía da minha cabeça desde que entrei. Aquela mesma garota da dança. A que tremia entre minhas mãos, que arfava com o toque da minha boca em sua pele. A que sorriu tímida e depois se entregou inteira no escuro da boate.
Agora ela estava aqui.
Vestida de uniforme.
Cabelos presos.
Agindo como se nunca tivesse me visto na vida.
Odiava isso.
Esse tipo de mentira muda.
Essa farsa m*l encenada.
A maçaneta do quarto girou com cuidado.
Meu corpo reagiu antes da mente entender.
Me ergui, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Ela entrou com passos hesitantes, segurando um balde com panos e um frasco de desinfetante nas mãos.
Estava diferente. Menor. Menos ousada. Mais contida.
Como se tivesse encolhido desde aquela noite.
— Vim... vim só dar uma ajeitada aqui, desculpa incomodar — disse sem me encarar, indo direto até a janela para abri-la.
O silêncio entre nós era pesado. E ela fazia de tudo pra fingir que ele não existia.
— Você vai continuar fingindo que a gente não se conhece? — soltei, sem rodeio.
Ela congelou no meio do caminho até a estante. O pano na mão tremeu um pouco.
— Eu… eu só tô aqui pra trabalhar.
— E lá na boate? Você tava lá pra quê?
Ela respirou fundo, os ombros se movendo devagar. Ainda de costas.
— Aquilo foi um erro.
Meu maxilar travou.
— Engraçado. Porque não parecia erro nenhum quando você ficou me olhando daquele jeito… lembra?
Ela se virou devagar. Os olhos, agora fixos nos meus, tinham um brilho de vergonha e raiva misturados.
— Por favor, não fala assim comigo.
— Assim como?
— Como se eu fosse uma daquelas mulheres que… que vão sempre atrás de você. Eu fui naquele lugar uma vez. UMA VEZ. E nem sabia o que era de verdade. Eu fui levada. Minha amiga queria comemorar o aniversário, e eu…
Ela parou de falar. Mordeu o lábio, baixou o olhar.
— E você subiu no palco comigo.
— Eu fui chamada. Empurrada. Eu não sabia que era… que você era…
— Que eu era o stripper? — completei, levantando da cama. Me aproximei devagar. — E mesmo assim, não saiu correndo. Ficou. Quase desmaiou quando eu cheguei perto.
Ela deu um passo pra trás. O balde encostou no armário com um baque seco.
— Eu não sou desse mundo, tá? Não era pra isso ter acontecido. E eu tô aqui agora só pra ajudar minha mãe. A gente tá precisando. Não… não conta pra ninguém.
— O quê? Que você tava lá? — me aproximei mais um pouco, devagar, como um predador cercando a presa. — Que você dançou comigo? Que ficou tremendo quando encostei na sua cintura?
— Por favor… — a voz dela saiu baixa, quase um sussurro implorando. — Por favor, Max. Não conta.
A forma como ela disse meu nome mexeu comigo. Era a primeira vez que ela falava em voz alta desde que cheguei. E me atingiu de um jeito estranho. Quase íntimo demais.
— Quem você acha que eu sou? — perguntei, baixando o tom.
— Eu não sei. — ela desviou os olhos. — Eu só sei que se alguém aqui souber… eu perco tudo. A chance da minha mãe continuar trabalhando aqui. A vaga. O quarto. Tudo.
Ficamos em silêncio.
Ela estava tremendo. Eu via nas mãos, nos olhos, na forma como os lábios pressionavam um contra o outro pra não vacilar.
E pela primeira vez, eu percebi que ela não era só a garota que subiu comigo no palco.
Ela era alguém tentando sobreviver.
Abaixei o tom. Suspirei, dando um passo pra trás.
— Ninguém vai saber.
Ela piscou, surpresa. Como se esperasse que eu fosse jogar isso na cara dela. Usar. Chantagear. Fazer o que muitos fariam.
Mas eu não sou como o velho que vive nessa casa.
— Obrigada — ela murmurou, aliviada, voltando a encarar o chão.
— Qual é o seu nome verdadeiro?
Ela hesitou. Depois respondeu baixinho:
— Clara.
— Clara — repeti, como se provasse o nome na boca.
Ela assentiu com a cabeça e foi até a escrivaninha, limpando com movimentos cuidadosos, sem fazer barulho. Como se quisesse desaparecer ali mesmo.
Eu observei.
Cada detalhe.
A forma como ela mordia o lábio. Como mexia no pano. Como evitava cruzar o olhar comigo.
Ela me odiava por saber.
E talvez… me desejasse pelo mesmo motivo.
— Você vai ficar aqui muito tempo?
— O tempo que precisarem. — respondeu sem me olhar. — Ou até mandarem a gente embora.
— E você vai continuar fingindo que nada aconteceu?
Ela parou de limpar. Soltou o pano devagar sobre a mesa e virou de lado.
— Se for pra proteger minha mãe… vou fingir até o fim.
Aquilo me atingiu mais do que deveria.
Porque tinha força na voz dela. Medo, vergonha, mas também uma coragem fodida. E dignidade.
E era impossível não admirar isso.
— Eu não vou te expor, Clara — repeti, firme. — Mas não me trata como se eu fosse um erro seu. Porque eu não me arrependo de p***a nenhuma.
Ela não respondeu.
Mas eu vi o rubor subir no rosto dela.
— Posso continuar? — perguntou, voltando a segurar o pano.
Assenti, sentando de novo na cama. Sem dizer mais nada.
E então, ela limpou o quarto inteiro em silêncio.
Tensa.
Com os olhos abaixados.
Mas sem fugir.
E eu fiquei ali.
Observando.
E me perguntando como é que um corpo que já tinha sido meu por alguns minutos…
Agora estava tão inalcançável.
*
Clara terminou de arrumar o quarto em silêncio, cada movimento dela calculado, como se estivesse sendo vigiada. E eu sabia que ela sentia meus olhos cravados nela o tempo todo — porque ela não olhou pra mim nem uma única vez desde que respondeu “Clara”.
O pano sujo foi dobrado com cuidado, colocado de volta no balde junto com o frasco. Tudo arrumado como se ela estivesse fechando uma cena de teatro. Como se fosse o fim de um ato que nunca deveria ter acontecido.
Ela respirou fundo antes de virar em direção à porta.
— Terminei — disse baixo, a mão já na maçaneta.
Eu não respondi.
Ela girou o trinco e saiu sem dizer mais nada.
Mas eu fui atrás.
Me levantei e segui o som dos passos dela no corredor de madeira. Eu sabia o caminho dessa casa com os olhos fechados — cada rangido do chão, cada centímetro de silêncio entre as paredes. E ali, naquele corredor estreito, com as janelas abertas deixando entrar a luz avermelhada do fim de tarde, ela caminhava rápido. Quase como se fugisse.
Mas não estava correndo.
Estava… resistindo.
E eu senti isso no ar.
A tensão entre nós ainda estava viva. Palpitante. Quente.
Ela virou à direita, em direção ao quarto de hóspedes onde estava com a mãe. Eu acelerei o passo. Quando ela estendeu a mão pra abrir a porta, eu segurei o pulso dela.
Ela travou.
Não virou o rosto, mas o corpo inteiro enrijeceu. Ficamos assim por um segundo, sem dizer uma palavra, a mão dela presa na minha como se eu tivesse o poder de pará-la no tempo.
— Me responde uma coisa — falei, a voz baixa, quase um sussurro. — Foi mesmo só um erro pra você?
Clara fechou os olhos por um momento. Um momento longo demais pra ser só desdém. O tipo de pausa que entrega tudo o que a boca se recusa a dizer.
— Por que isso importa? — ela respondeu, ainda sem me encarar.
— Porque você mente bem demais — falei. — Mas sua pele treme toda vez que chego perto.
Ela tentou puxar o braço. Eu segurei com mais firmeza, mas sem machucar.
— Max, por favor… eu só quero fazer meu trabalho e…
— Fingir que eu não existo?
Ela me olhou então.
E p***a, aquele olhar me destruiu.
Ela não estava brava. Nem assustada.
Ela estava… devastada.
— Você sabe o que acontece com garotas como eu quando a cidade começa a falar? Quando uma patroa descobre que a filha da empregada foi dançar num clube de stripper? Você sabe quantas portas fecham?
Soltei devagar o pulso dela. Mas dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Eu nunca disse que ia te expor.
— Mas estar aqui, sozinha com você, já me expõe — ela rebateu. — Você é dono de tudo isso, Max. Mesmo que negue. Mesmo que odeie. Seu nome ainda pesa. E o meu... o meu é invisível.
Aquilo me acertou como um soco seco.
— Eu não sou dono de nada — murmurei. — Eu sou um estranho nessa casa. Um problema que voltou pra dizer adeus à única pessoa que me amava. E você? Você é a única coisa que ainda me parece real aqui dentro.
Ela arregalou os olhos. Um suspiro saiu da boca dela sem permissão.
— Não fala assim…
— Por que não? — insisti. — Você acha que eu não vejo? A forma como você me evita. Como seus olhos ficam mais escuros quando me encara por mais de dois segundos. Como você respira diferente quando eu passo perto.
Ela recuou. As costas encostaram na parede.
— Eu tô tentando esquecer aquela noite.
— Eu não — falei firme.
Ela me olhou, finalmente sem máscaras. Os olhos brilhavam, como se as lágrimas estivessem esperando qualquer provocação pra cair.
— Foi errado.
— Foi verdadeiro.
Ela fechou os olhos, e uma lágrima solitária escorreu. Ela não tentou limpar.
— Eu não posso, Max. Eu não posso me meter com você. Você é tudo o que minha mãe me avisou pra manter distância. Rico, bonito, impulsivo. E pior… você me viu por um lado que ninguém mais viu.
— E mesmo assim você me deixou tocar — falei, me aproximando de novo. — E você me tocou de volta, Clara.
Ela mordeu o lábio inferior, virando o rosto pro lado como se o peso do que sentia fosse insuportável de carregar no olhar.
— Por favor, só… me deixa entrar. Eu só quero passar o resto do dia em paz.
— E depois? Vai continuar fingindo?
Ela não respondeu.
Me afastei devagar. Um passo, dois. As mãos ainda quentes do toque dela. O ar pesado. O cheiro da pele dela grudado em mim como maldição.
— Se você quiser continuar fugindo de mim… tudo bem.
Ela olhou surpresa.
— Mas não espera que eu faça o mesmo — completei.
E então dei as costas, deixando que ela respirasse.
Mas cada passo que dei de volta até meu quarto, cada centímetro de distância entre nós…
Só serviu pra me deixar com mais vontade de voltar.
Porque Clara agora era uma ferida aberta.
Uma que eu não conseguia, nem queria, fechar.