Inferno de volta ao lar

991 Words
O carro cruzava as estradas de terra e cada quilômetro parecia arrancar um pedaço da minha alma. A janela do lado estava aberta e o vento batia no meu rosto como se quisesse esfregar na minha cara que eu tava voltando. Voltando pra esse buraco, pra esse rancho que me engoliu a vida inteira e que eu passei anos tentando deixar pra trás. Mas lá estava eu — como um filho pródigo forçado, não por arrependimento, mas por culpa. No banco de trás, minha mala tremia a cada buraco na estrada. Era a única coisa que me restava. O resto — minha liberdade, minha identidade, minha p***a de orgulho — já tinha ficado na cidade. No palco. No camarim. Naquela boate onde, pela primeira vez, eu sentia que era alguém por conta própria. Agora eu voltava a ser o filho. O que foi embora. O que desonrou o nome. O que virou vergonha. Assim que o portão da fazenda surgiu no horizonte, meu peito começou a se fechar. O mesmo portão de madeira velha, que range sempre que abre. O mesmo caminho cercado por cerca branca e as árvores gigantes que faziam sombra na entrada. A mesma sensação de prisão. Quando o carro parou na entrada principal, desci sem dizer nada. Meus pés tocaram o chão como se pisassem num campo minado. O silêncio da terra, o cheiro da grama cortada e do couro velho me atingiram em cheio. Ali estava ela. A casa. Enorme, imponente. As janelas com cortinas brancas que dançavam com o vento. A varanda onde minha avó sentava todo fim de tarde, tomando chá e falando sobre a vida. A mesma varanda onde meu pai passava, sem olhar pra ninguém, apenas controlando tudo como se fosse dono do mundo. E como se já soubesse da minha chegada, ele apareceu. Parado no topo dos degraus. De braços cruzados. Me esperando. O olhar dele era o mesmo de sempre. Duro. Frio. Sem uma gota de emoção. Como se eu fosse apenas mais um funcionário voltando ao serviço — não o filho que ele ignorou por anos. — Chegou — foi tudo o que ele disse. Não teve “como foi a viagem”. Nem “entra”. Nem p***a nenhuma. — Ainda dá tempo de voltar e fingir que nunca pus os pés aqui — retruquei, jogando a mala no chão da varanda com força. Ele nem piscou. — Você veio porque teve medo de perder a única pessoa que ainda se importa com você. — E você veio por quê? Pra controlar até o último suspiro dela? O olhar dele endureceu mais. Se é que isso era possível. — Não se atreva a falar da sua avó como se soubesse o que ela quer. Você abandonou essa família há anos. — Eu me libertei. Isso é diferente — disparei, subindo os degraus. — E não me venha com esse discurso de pai de comercial de margarina. Você nunca me quis aqui. Só quer alguém pra cuidar daquilo que você mesmo já não aguenta mais. Ele desceu um degrau, ficando frente a frente comigo. Os olhos dele queimavam. — Eu queria um homem. Mas recebi um moleque mimado que fugiu assim que sentiu o cheiro de responsabilidade. — Eu fugi de você! — explodi, o grito saindo como um trovão. — Fugi desse lugar onde a única coisa que importa é parecer forte, ser perfeito, seguir regras que você mesmo criou pra ninguém nunca ser melhor que você. — Você só pensa em si mesmo. Em tirar a roupa e dançar pra estranhos, como se isso fosse conquista! Como se isso fosse liberdade! — É mais liberdade do que você jamais vai entender! — cuspi com raiva. — Lá, pelo menos, eu sou alguém. Aqui, eu sou só mais uma decepção. Ele deu um passo pra frente. O suficiente pra me fazer enrijecer. A tensão entre nós era cortante. — Se você virar as costas de novo, ela vai morrer sem te ver. — E se eu ficar, eu morro junto com ela — disparei, firme, encarando ele sem piscar. Um silêncio pesado se formou. Até que uma voz atrás de mim quebrou tudo. — Com licença… o chá da senhora está pronto, senhor. Virei o rosto. E ali estava ela. A garota da dança. Aquela que eu tinha feito subir no palco, que tremia entre minhas mãos e me olhava como se eu fosse pecado puro. Agora ela estava… de uniforme. Um avental simples, cabelos presos num coque baixo, postura séria. E o mais estranho? Ela fingiu que não me conhecia. Eu fiquei ali, encarando. O mundo pareceu girar por um instante. — Você… — murmurei. Ela baixou o olhar. — Desculpe, eu... não quis interromper. Foi então que outra mulher surgiu atrás dela — mais velha, com um olhar cansado e honesto. Devia ser a mãe dela. — Essa é minha filha — disse, dirigindo-se ao meu pai. — Estamos aqui como combinado. Eu cuido da senhora e ela ajuda com a casa. Eu não consegui dizer nada. Estava em choque demais. — Ele já conheceu ela — meu pai disse, seco. A garota me olhou de relance, o rosto corando sutilmente. — Foi só… uma noite. — Ela respondeu, baixo. Meu coração deu um nó. Como se aquela noite tivesse sido uma coisa errada, suja, vergonhosa. Mas não tinha sido. Eu lembrava da forma como ela tremia sob meu toque. Do olhar nos olhos dela. Do cheiro. Do gosto. E agora ela estava ali. Na minha casa. Cuidando da minha avó. E eu? Eu era o neto desnaturado que abandonou tudo e voltou tarde demais. Ela não disse mais nada. Apenas deu meia-volta e sumiu pelo corredor. E eu fiquei ali, travado. Odiando cada segundo daquele retorno. Sem saber se queria explodir, correr ou gritar. Mas a única coisa que fiz foi respirar fundo... ... e aceitar que o inferno agora tinha novo endereço.
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