A fumaça do cigarro subia lentamente enquanto eu encarava o teto do camarim.
A noite tinha sido como todas as outras. O palco, os gritos, as mãos deslizando pelo meu corpo, o dinheiro voando no ar. Tudo funcionava no mesmo ciclo vicioso.
Mas agora, depois da ligação de ontem, nada parecia igual.
Minha mente estava longe. Perdida no peso das palavras que eu tinha ouvido.
"Sua avó está doente, Max. Ela não tem muito tempo."
A única pessoa que realmente se importava comigo estava morrendo.
E eu sabia o que isso significava.
Voltar.
Voltar para aquele lugar, para aquela vida que eu odiei.
Voltar para os campos intermináveis, para os corredores silenciosos da casa grande, para os olhares pesados e cheios de expectativas que eu nunca quis carregar.
Meu pai queria que eu assumisse tudo. Que eu fosse o herdeiro perfeito.
Mas eu nunca fui esse cara.
Nunca quis ser.
E agora ele achava que podia me arrastar de volta só porque a avó que eu amava estava morrendo?
Não.
Peguei o celular e disquei o número.
A linha tocou três vezes antes de ser atendida.
— Maxwell. — A voz dele saiu baixa, carregada de tensão.
Sempre Maxwell. Nunca Max.
— Eu não vou voltar.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Então ele riu. Um riso seco, cheio de incredulidade.
— O quê?
Engoli em seco, firmando minha decisão.
— Eu não quero essa merda de herança. Não quero a fazenda. Não quero a empresa. Não quero nada de vocês.
Ouvi um barulho do outro lado da linha. Como se ele tivesse jogado algo sobre a mesa.
— Você enlouqueceu?
— Não. Eu só tomei minha decisão.
— Essa não é sua decisão para tomar.
Respirei fundo, sentindo o nó no meu estômago apertar.
— Eu não sou seu funcionário. Não sou seu fantoche. Você acha que pode mandar na minha vida só porque quer? Eu não sou parte dessa família há anos.
O silêncio dele agora era diferente. Era frio. Calculista.
— Então é isso? Vai jogar fora seu nome? Sua história? Vai trocar tudo isso para rebolar em um palco para um monte de vadias gritando?
Minha raiva explodiu.
— f**a-se você!
— f**a-se você, Maxwell! — Ele berrou de volta.
Os músculos do meu maxilar doíam de tão forte que eu os contraí.
— Eu não quero ser como você. Nunca quis.
— Então fique longe. Mas não ouse aparecer quando for tarde demais.
A linha ficou muda.
Olhei para o telefone na minha mão, sentindo o peso da escolha que acabei de fazer.
Eu terminei.
Com essa família. Com essa história.
Com tudo.
E pela primeira vez em anos, eu senti um alívio.
Um alívio amargo.
A manhã chegou mais rápido do que eu queria.
O sol m*l tinha nascido quando uma batida forte me despertou.
Abri os olhos devagar, ainda grogue.
Mais batidas. Dessa vez, mais fortes.
Me levantei, irritado, e fui até a porta.
— Que p***a é—
A porta foi aberta com violência, me empurrando para trás.
E ali estava ele.
Meu pai.
Firme. Imponente. O olhar como uma lâmina afiada, atravessando tudo ao redor.
Ele nunca mudou.
Os mesmos traços duros, o mesmo semblante de aço, o mesmo terno impecável que nunca combinou com o rancho.
Mas a fúria nos olhos dele?
Essa era nova.
— Você perdeu a p***a do juízo, garoto?!
Soltei uma risada seca.
— Você realmente veio até aqui para essa merda?
Ele entrou no camarim, fechando a porta atrás de si com um baque.
— Eu vim porque você me forçou.
Cruzei os braços, encarando ele de frente.
— Eu não te forcei a p***a nenhuma. Eu tomei uma decisão. E você não gostou.
Ele deu um passo à frente, a expressão mais perigosa do que nunca.
— Você não tem ideia do que está fazendo.
— Tenho. Estou escolhendo a minha vida.
— A sua vida? — Ele riu, sarcástico. — E o que você tem aqui? Mulheres temporárias? Dinheiro fácil? Você chama isso de vida?
— Eu chamo isso de liberdade. Algo que você nunca me deu.
O silêncio pesou.
Os olhos dele escureceram, carregados de julgamento.
— Você sempre foi um erro.
As palavras me atingiram como um soco.
Mas eu não recuei.
— E você sempre foi um péssimo pai.
Ele se moveu rápido.
Antes que eu percebesse, sua mão segurou a gola da minha camisa e me empurrou contra a parede.
Minha visão ficou turva por um segundo com o impacto.
Mas eu não demonstrei fraqueza.
Levantei os olhos para ele e sorri. Desafiante.
— Vai me bater?
Os olhos dele ardiam de raiva.
— Eu deveria.
— Então faz.
Ficamos assim por um tempo. Nenhum dos dois recuando.
Até que ele me soltou com um empurrão brusco.
— Você sempre foi um moleque mimado.
— E você sempre foi um velho amargurado.
Ele puxou o celular do bolso e jogou na minha direção.
A tela estava acesa.
Um vídeo estava pausado.
E então ele deu play.
Minha respiração travou.
Era a minha avó.
Deitada em uma cama.
Fraca. Muito fraca.
Os olhos fundos, a pele pálida.
A boca se movia lentamente.
Mas eu ouvi.
Ouvi a voz dela.
"Max... Max... eu quero ver meu menino..."
Eu senti meu peito se apertar.
Eu senti cada centímetro do meu corpo se incendiar com uma dor que eu não queria sentir.
Ela estava me chamando.
Meu pai se aproximou.
— Diz para ela que você não se importa. Diz para ela que você escolheu essa vida em vez dela. Diz, Max.
Meus olhos continuaram presos na tela.
Eu vi a mão dela se movendo devagar, como se tentasse alcançar alguma coisa.
Como se tentasse alcançar a mim.
Engoli em seco.
Meu pai abaixou o celular.
— Agora, seja homem e tome uma decisão.
O silêncio era ensurdecedor.
Eu não conseguia respirar.
E, naquele momento, eu soube que estava fodido.
**
O silêncio do camarim era insuportável.
A tela do celular ainda estava acesa na minha frente.
Minha avó.
Fraca. Vulnerável. Me chamando.
Meu peito se apertava cada vez que eu lembrava daquela imagem.
A mulher que um dia segurou minha mão, que me ensinou a montar em um cavalo quando eu ainda era um moleque desajeitado, agora estava ali, deitada, sem forças até para abrir os olhos direito.
E o que eu fiz?
Joguei tudo para o alto.
Mandei meu pai e essa merda de herança pro inferno.
Mas agora… eu estava fodido.
Meus dedos deslizaram para o maço de cigarros sobre a mesa. Peguei um e acendi, puxando uma tragada profunda. O cheiro de nicotina queimando preencheu meus pulmões, mas não fez nada para aliviar o nó na minha garganta.
Eu queria ignorar tudo isso.
Queria pegar uma garrafa de uísque, afundar em um corpo quente e esquecer que essa conversa aconteceu.
Mas não dava.
Não depois de ver aquele vídeo.
Fechei os olhos e passei a mão no cabelo, tentando organizar meus próprios pensamentos.
E se eu não fosse?
E se eu simplesmente seguisse minha vida aqui?
Eu já tomei essa decisão antes.
Mas será que… será que conseguiria viver com isso?
Viver sabendo que ela partiu sem me ver uma última vez?
Merda.
Apertei o cigarro entre os dedos com tanta força que a brasa caiu sobre a mesa, queimando um pequeno ponto na madeira.
Soltei um riso seco.
Era simbólico, não era?
Tudo estava queimando.
Minha liberdade. Minha convicção.
E agora, até essa maldita mesa.
Me levantei de supetão, empurrando a cadeira para trás. O barulho ecoou pelo pequeno espaço, mas não me importei.
Comecei a andar de um lado para o outro.
Minha mente ia e voltava para aquele rancho.
O rancho que eu passei a vida odiando.
A mesma terra onde aprendi a andar a cavalo, onde caí tantas vezes e me levantei.
Onde ouvi pela primeira vez que eu tinha que ser um Caldwell, que eu tinha que assumir tudo um dia.
Onde ouvi meu pai dizer que eu não tinha escolha.
Eu queria cuspir nessa ideia.
Mas agora…
Agora era diferente.
Agora era a minha avó.
Soltei um grunhido de frustração e joguei o cigarro no chão, pisando em cima com força.
O que eu deveria fazer?
Se eu pegasse um avião agora e voltasse, estaria me rendendo.
Dando ao meu pai exatamente o que ele queria.
Mas se eu não fosse…
Se eu não fosse, eu perderia a única pessoa que realmente significava alguma coisa para mim.
Essa escolha não deveria ser difícil.
Mas era.
Porque voltar para aquele lugar significava mais do que apenas me despedir da minha avó.
Significava me prender lá.
Significava assumir um papel que eu passei a vida fugindo.
Significava olhar meu pai nos olhos e admitir que, no final, ele sempre soube que eu voltaria.
E eu odiava perder.
Me joguei no sofá, passando as mãos no rosto.
Minha respiração estava pesada.
Aquela maldita ansiedade subindo pelo meu peito, comprimindo tudo, me deixando sem ar.
Fechei os olhos.
Imagens da fazenda vieram como um maldito filme na minha cabeça.
O portão grande de madeira rangendo quando alguém entrava.
O cheiro da grama cortada e do couro das selas dos cavalos.
O barulho das botas no chão de madeira quando eu passava pelos corredores da casa.
A voz do meu pai, sempre firme, sempre dizendo o que eu deveria fazer.
E então…
O riso dela.
Minha avó.
Sempre sentada na varanda, observando o pôr do sol.
Ela sempre dizia que aquele era o momento mais bonito do dia.
Que o céu se tingia de cores de despedida, mas que sempre trazia esperança de um novo amanhecer.
Ela costumava dizer isso para mim quando eu era criança.
E eu sempre revirava os olhos.
Porque, naquela época, eu não entendia o que ela queria dizer.
Agora, tudo fazia sentido.
Ela estava se despedindo.
E eu estava aqui.
Longe.
Preso no meu orgulho.
Soltei um suspiro trêmulo e olhei para o celular de novo.
O vídeo ainda estava lá.
Eu poderia dar play de novo, mas… não precisava.
A voz dela ainda ecoava na minha mente.
"Max... Max... eu quero ver meu menino..."
Fechei os olhos e senti o peso disso tudo desabar sobre mim.
Eu podia ignorar a fazenda.
Podia ignorar a empresa.
Podia ignorar meu pai.
Mas não podia ignorar ela.
A única pessoa que me amou sem tentar me moldar.
A única que viu algo de bom em mim, mesmo quando eu não via nada.
Eu não queria voltar.
Mas eu precisava.
E, pela primeira vez em anos, eu não sabia o que ia acontecer depois disso.