O som abafado da música ainda vibrava nas paredes do camarim. O cheiro de perfume, cigarro e desejo impregnava o ambiente, mas minha mente estava distante dali.
Mel tinha saído há alguns minutos, e eu deveria estar me preparando para outro show. Mas, em vez disso, me vi sentado no sofá de couro, observando o teto, perdido nos próprios pensamentos.
Mulheres vinham e iam. Algumas passavam algumas noites, outras algumas semanas. Mas nenhuma ficava.
Porque eu não deixava.
E não era porque eu não podia ter algo sério. Era porque eu não queria.
Eu nunca quis.
Nem sempre fui assim. Houve um tempo em que eu acreditava no tipo de amor que fazia os idiotas perderem a cabeça. Já fui esse tipo de i****a uma vez.
Mas isso foi antes de aprender da pior maneira que confiar em alguém dá merda.
Eu tinha dezessete anos quando acreditei que estava apaixonado. Amor juvenil, intenso e burro, daquele que parece que vai durar para sempre. Eu faria qualquer coisa por ela. Entreguei meu coração de bandeja, sem pensar nas consequências.
E ela esmagou ele sem hesitação.
Traição.
Essa palavra grudou na minha pele como uma cicatriz que nunca sumiu.
Eu lembro da sensação exata de abrir aquela porta e encontrar minha namorada na cama com outro cara. Lembro da risada deles quando me viram parado ali, congelado como um i****a. Como se eu fosse o palhaço da piada.
Ela nem tentou se justificar. Só me olhou e disse que eu nunca fui suficiente.
Aquela frase foi a p***a do ponto final na minha vida emocional.
Desde então, nunca mais me permiti sentir nada por mulher nenhuma. Nem amor, nem ciúme, nem dor. Só desejo. Só prazer. Só noites sem amanhã.
E a vida como stripper encaixava perfeitamente nessa filosofia.
A vida de um stripper
Muita gente tem uma ideia errada do que significa ser stripper. Acham que é só subir no palco, rebolar um pouco e encher os bolsos de dinheiro.
Mas isso aqui é um jogo mental.
Você precisa entender como funciona o desejo de uma mulher, precisa saber como olhar, como tocar, como provocar. Tem que ser a fantasia dela. Tem que ser tudo o que ela quer por algumas horas.
E então, quando a noite termina, tem que saber desaparecer.
Eu aprendi a fazer isso tão bem que virou minha segunda pele.
Dançar era um poder. O palco era meu território, e ali, eu dominava tudo. Eu fazia as mulheres suspirarem, gemerem, se contorcerem na cadeira sem nem precisar tocá-las. Algumas vinham até mim depois do show, querendo mais. Outras pagavam por privacidade.
Eu dava a elas o que queriam, mas nunca deixava levarem nada de mim.
A boate era um ambiente de ilusões. O lugar onde mulheres bem-sucedidas e frustradas vinham para se libertar. Onde moças tímidas se perdiam na adrenalina da tentação. Onde casadas infelizes se sentiam desejadas novamente.
E eu estava lá para ser o sonho delas.
Nada mais do que isso.
Nada real.
E eu estava satisfeito assim.
Então Asia apareceu.
Asia: Obsessão, não amor
Ela me viu dançar pela primeira vez há um ano. Eu era novo na boate, ainda ganhando meu espaço. Ela já era uma das clientes fiéis, sempre na área VIP, sempre gastando dinheiro como se não tivesse fim.
Asia gostava de ter poder sobre os outros.
E tentou fazer isso comigo.
Ela começou jogando dinheiro, depois investiu nos bastidores. Primeiro, pagava pelas danças privadas. Depois, começou a me esperar do lado de fora da boate. Me oferecia carona, bebidas, viagens. Eu nunca aceitei nada além do que eu já dava no palco.
Mas ela não desistiu.
Asia não queria só o stripper. Ela queria me possuir.
A obsessão dela cresceu rápido. Queria que eu fosse dela e só dela. Queria que eu a tratasse diferente, que desse a ela o que eu não dava para nenhuma outra.
Mas eu não queria Asia.
Nunca quis.
Ela era intensa, sim. Sexy, sim. Mas também sufocante. Controladora. Doente.
E eu nunca tolerei esse tipo de coisa.
Por isso, nunca fui o namorado dela. Nunca prometi nada. Nunca vendi ilusões. Ela que se iludiu sozinha.
Quando percebeu que eu nunca daria o que ela queria, a obsessão virou ódio. Ela começou a aparecer do nada, causar cenas, invadir meus camarins. Tentava me atingir de qualquer forma, como se esperasse que, um dia, eu cedesse.
Mas eu nunca cedi.
E nunca vou.
Mulheres vêm e vão. Nenhuma fica.
Puxei um cigarro do bolso, acendi e soltei a fumaça devagar.
Meus pensamentos vagaram até Mel.
Ela não era como Asia. Não parecia o tipo de mulher que estava acostumada com esse mundo. Eu via nos olhos dela o conflito, a hesitação. Como se estivesse pisando em um território que não conhecia.
Isso me intrigava.
Mas não mudava nada.
Eu sabia exatamente o que aconteceria. Ela poderia se envolver, se perder no jogo por um tempo. Mas, no final, faria o mesmo que todas as outras.
Ou eu a deixaria ir antes disso.
Porque era assim que eu funcionava.
Porque o que aconteceu quando eu tinha dezessete anos me ensinou que confiar é perder.
E eu não perco nunca mais.
Eu estava exatamente onde queria estar.
No controle.
No jogo.
Sem sentimentos, sem fraquezas, sem laços.
Era assim que eu vivia.
E era assim que continuaria sendo.
Até que alguém provasse o contrário.
Se é que algum dia isso aconteceria.