Jardim de Chuvas

1597 Words
O príncipe acordara subitamente, barulhos estranhos vinham do quarto ao lado fizeram com que ele despertasse. Podia ouvir nitidamente aquilo que mais se parecia com um choro, e poderia reconhecer aquela voz vinda de qualquer lugar. Levantou-se rapidamente, passando pela porta e pelo corredor. A porta do quarto da frente nunca ficava trancada, era uma questão de segurança. Ao entrar no quarto de Changkyun, encontrara o ômega aos prantos, encolhido e com o cobertor na cabeça. Seu rosto estava encharcado e o menor apertava com força o tecido entre seus dedos. — O que aconteceu? — o alfa perguntou aflito, sentando-se ao seu lado na cama. As mãos alcançaram o rosto do menor, procurando por qualquer sinal que ele estivesse ferido — Alguém entrou aqui e te machucou? O Im tremia, encarava seu noivo com os olhos alargados, a boca se abria tentando dizer alguma coisa, e se Jooheon prestasse um pouco mais de atenção, poderia ouvir as batidas aceleradas de seu coração. — A água... — sussurrou — Está frio, está me machucando. — O que você está dizendo, meu pequeno? — o alfa não entendia, e ficava cada vez mais atordoado. — A chuva... — sussurrou — Está me machucando. Sem saber o que fazer, o alfa simplesmente o abraçou, sentindo o menor se encolher em seus braços. De fato, chovia grosso lá fora e ele podia ouvir nitidamente a água batendo e escoando pelos telhados. Changkyun continuava tremendo, o ômega parecia ficar cada vez menor contra o seu peito, enquanto as pequenas mãos apertavam suas roupas. Era tudo muito confuso. — Você tem medo da chuva, Changkyun? Obteve apenas o silêncio como uma resposta, podia ouvir o mesmo choramingo se repetir enquanto o ômega continuava a tremer muito. Jooheon conseguiu se ajeitar na cama, trazendo o menor para deitar em seu peito. Não houve nenhum protesto, apenas um Changkyun que se encolhia cada vez mais. Seu medo era quase palpável. — Está tudo bem, eu vou proteger você dela. — dizia enquanto alisava os cabelos do mesmo, eram tão lisos e cheirosos, aquele cheiro estava se espalhando por sua camisa — Ela não vai mais te machucar. Nunca imaginara ver o Im tão frágil e vulnerável daquela maneira, justo ele, sempre tão absoluto com tudo, atrevido, parecia ser outra pessoa ali. Era estranho, incompreensível, mas Jooheon fazia o possível para que aquela situação se encaixasse em sua cabeça. As pessoas carregam traumas, e talvez aquele fosse o caso. Changkyun segurava com força em sua camisa, como se temesse ser deixado para trás a qualquer momento, fora o mais próximo que chegara dele, e estando como estava. — Jooheon... — o ômega sussurrou — Não deixa ela me machucar.     [...]     Acordou sentindo toques em seu cabelo, ao se mexer notara que estava sobre uma superfície que não parecia a sua cama. Seus olhos se abriram dando de cara com um peito que descia e subia lentamente, a princípio, susto. Levantou o olhar encontrando o rosto de Jooheon, que estava com os olhos abertos, porém em outra direção. Se sentiu confuso, mas as lembranças da noite passada lhe surgiam em flashs um pouco bagunçados, todavia, podia entender. Se afastou do corpo do alfa, sentando-se com as pernas dobradas. — Você está melhor agora? — o homem atrás de si lhe perguntou. Changkyun apenas balançou a cabeça afirmando, estava pensativo e um pouco envergonhado, sabia muito bem que seu comportamento era confuso e estranho quando aquilo acontecia. — Quer falar sobre isso? — o alfa perguntou, estava olhando fixamente para sua nuca, esperando pelo momento em que o Im olharia para ele. Mas continuava de costas. — Nós somos noivos, Changkyun, acho que já está na hora de nos aproximarmos, não acha? — se manteve calmo ao dizer isto, sequer alterara seu tom de voz — Pode me contar o que se sentir confortável, eu vou apoiar você. Jooheon também se sentou, e vendo o silêncio que vinha de Changkyun, colocou uma das mãos sobre suas costas as alisando como quem confortava alguém por algo. Mais se silêncio existiu. A verdade era que Changkyun pensava, ele sabia que Jooheon estava certo, e que aquela birra não adiantaria de nada, as coisas não mudariam, eles se casariam no fim das contas, e sempre haveriam outras chuvas. Não havia motivos para querer distância. — Quando eu tinha oito anos... — suas primeiras palavras saíram em simples sussurros, por sorte a audição dos alfas era muito boa — Eu estava brincando nos fundos da fazendo, a mamãe disse que eu não podia sujar a minha roupa, pois se eu a sujasse, ela me bateria. Estava começando a chover, eu havia me esquecido do que ela havia dito e fiquei brincando na chuva... Ela gritou por mim, corri para casa, mas acabei pisando em algumas poças de lama e sujando toda a minha roupa... Ela não gostou de ver meus pés sujando toda a casa que ela havia acabado de limpar. Ela não me bateu. Ela me pegou pelas orelhas e me arrastou pra fora, me amassou à um gancho onde prendiam os cavalos, e eu fiquei na chuva... por muito tempo, até que ela parasse e o sol secasse a minha roupa e os meus pés... Por alguns segundos, o príncipe não sabia o que dizer, aquela história fugia completamente do instinto materno, o que havia de errado com aquela mulher? Seu coração estava ardendo, e naquele momento a única coisa que queria era proteger Changkyun de qualquer m*l. Ela não podia machuca-lo mais. — Foram tantas chuvas, Kihyun sempre me abraçava quando chovia. — lembrou com tristeza daquelas noites, a saudade que sentia de seu irmão começou a querer bater na porta. Sentiu quando braços rodearam seu corpo em um abraço, suas costas se encaixaram contra o peito do alfa. Sentiu seu cheiro, Jooheon tinha um cheiro bom. Mas acima de tudo, ele tinha sabor, sabor de conforto, de carinho, algo que nem sempre foi lhe oferecido na vida. Changkyun só recebera carinho de duas pessoas, de seu pai e de Kihyun, e ter isso de outra pessoa era algo complexo demais. Mas era bom. — Eu sempre vou te abraçar nas noites de chuva, Changkyun. — sussurrou para o ômega. Permaneceu abraçado a ele por longos segundos, sentindo a respiração de Changkyun mudar, seu coração acelerar. Ergueu-se da cama e saiu do quarto, por fim deixando o ômega sozinho com seus pensamentos. Talvez Hyungwon estivesse mesmo certo, e Jooheon não fosse nada do que ele estava pensando. O calor do alfa pareceu tão bom, tão acolhedor e sentir ele era algo que o deixava confortável. Jooheon era alguém para se confiar, talvez só agora se desse conta disso. Ele precisava mudar as coisas, olhar sem as travas feitas por seu orgulho infantil. Jooheon seria seu marido e não havia como mudar isso, a não ser que fosse mudar para algo melhor, afinal, Jooheon poderia ser bem mais que seu marido... Ele podia ser seu amor.     [...]     Era tardinha e estava sentado no jardim, sozinho. Olhava o pôr do sol imaginando como uma cena daquelas poderia ser mais bonita. Seu dia havia sido tranquilo, todavia estava insatisfeito, tentara olhar com outros olhos para o príncipe, mas acabara não o vendo durante todo o restante do dia, e só depois de perguntar a Hyungwon descobrira que o mesmo havia ido à cidade vizinha resolver alguns problemas. Já estava quase ficando escuro quando alguém sentou ao seu lado, o sorriso quase não coube na boca quando se deu conta de quem se tratava. — Kihyun! — gritou abraçando o irmão, e por estarem sentados acabaram por cair para trás, com o mais novo ainda o apertando naquele abraço. — Também senti sua falta, Chang. — respondera sufocado, feliz por rever o irmão, porém em asfixia. Ainda demorara para que o ômega saísse de cima do mais velho sentira tanta falta dele e agora aquela saudade precisava ser tirada por completo. Nem sabia quando iria poder ver Kihyun de novo, as coisas eram tão complicadas estando naquele castelo, mudavam de uma hora para outra e ele sequer conseguia acompanhar. — Uma carruagem parou na minha porta informando que vossa majestade sentia-se sozinho e solicitava a minha presença. Bem, aqui estou, majestade. O mais novo lhe empurrara com o ombro em resposta. — Então, como andam as coisas com o seu noivo? Changkyun mordeu os lábios, era um pouco difícil explicar como eram as coisas com Jooheon, até porque nem ele mesmo entendia, poderia tentar resumir a história e lhe contar sobre qualquer momento em que estiveram juntos, ou que estiveram a sós, todavia não sabia como começar. Sua história com Jooheon sequer havia se tornado uma história, para ser contada. — Estão bem, na verdade, bem demais. — rira um pouco — Ele me trata muito bem, é gentil e carinhoso, não é nada como eu imaginava. — sussurrou era última parte. Suspirou, ainda era difícil admitir que havia errado quanto ao seu julgamento precipitado. — Fico feliz em saber disso, muito feliz, sabe que o que eu mais quero é que você seja feliz... com o marido que mamãe queria para o Minhyuk. — se permitiu rir um pouco, sendo acompanhado pelo mais novo, sempre que ambos se lembrava da cara que a matriarca fizera, já era um motivo para rir — Mas Chang... Ontem choveu, eu queria saber se você ficou bem. Changkyun mordeu a parte interna de suas bochechas, estava pensando a respeito do que dizer, e até olhou para o outro lado para falar: — Jooheon me protegeu.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD