O DESABAFO DO SNIPER E A PAZ QUE É EMPRÉSTIMO
O Pulga, o Faísca e o Neguim desceram a escada de ferro fazendo um barulho do cão, chutando latinha e discutindo aos berros se o pastel de queijo com orégano era superior ao de carne com ovo, enquanto a risada escandalosa deles ia sumindo, ecoando nos vãos dos becos até se misturar com o som do morro acordando. Na laje, o silêncio absoluto voltou a reinar, mas não era aquele vazio de solidão. Era um silêncio denso, com massa, com peso de responsabilidade.
O Gargalo não desceu. Ele continuou ali, escorado na mureta, com a silhueta escura contra as luzes da cidade. Ele limpou o resto de riso do rosto e a postura dele mudou num estalo. O cara que agora era rotulado como o "romântico da nova geração" por causa da Juliana, o cara que falava de futuro e de sossego, ainda era o mesmo Gargalo que eu cresci: o cara que não errava um tiro de precisão, que não piscava no meio do tiroteio e que nunca brincava em serviço quando o assunto era sobrevivência.
Ele tirou um maço de cigarro amassado do bolso da calça tática, acendeu um com um isqueiro fosco e deu uma tragada tão funda que parecia querer que a fumaça chegasse no pé. Soltou o ar devagar, desenhando nuvens cinzas contra o breu do céu.
— “E aí, Murilo…” — Ele soltou, com aquela voz grave, vinda do diafragma, que parece que faz o chão vibrar. — “Os anos passam, a gente ganha cicatriz nova por cima da velha, ganha família, ganha nome no jornal, ganha dinheiro pra limpar a bunda... mas nada muda de verdade na essência, né, parça? A gente continua sendo o mesmo bando de moleque acuado na escada da escola, só que agora o nosso estojo tem munição de verdade.”
Eu olhei pra ele de canto de olho, respeitando o tempo dele. O Gargalo era o que mais me entendia sem eu precisar soltar um texto gigante de explicação. A gente tinha uma conexão de alma que o crime forjou no fogo.
— “O que tu quer dizer com esse papo filosófico agora, Gargalo? Tá lendo livro de autoajuda ou a Juliana tá te deixando mole?” — Perguntei, ajustando a bandoleira do fuzil no meu ombro.
Ele deu um meio sorriso triste, daqueles que carrega o peso de dez vidas cansadas e uma lealdade que beira o fanatismo.
— “Olha pra gente, mano. Analisa o quadro. Tu é pai de dois, o Murilinho é tua cara e a Aurora é a tua luz. Tu tem a Melissa que é uma rainha, uma mulher que peita o sistema de salto alto e não abaixa a cabeça pra nenhum de toga. Tu é o dono dessa p***a toda, o imperador do asfalto. Eu tô lá com a Juliana, tentando dar pra ela a paz que eu nunca tive, tentando fingir que a gente é um casal normal de comercial de margarina. Mas a gente continua exatamente aqui, Murilo. No topo de uma laje fria, de fuzil atravessado no peito, esperando o bote do Estado, esperando a bala que tem o nosso nome. A gente mudou por dentro, o coração amoleceu pros nossos, mas o mundo lá fora continua sendo uma selva que quer o nosso sangue do mesmo jeito, sem desconto.”
Ele deu mais uma tragada longa, o brilho laranja da brasa do cigarro iluminando o olhar dele por um milésimo de segundo um olhar de sniper que já viu muita coisa que não deveria.
— “Às vezes parece que a gente tá correndo numa esteira de alta velocidade, mano. A gente corre, sua, sangra, conquista o império, protege os nossos com unhas e dentes, mas o perigo nunca tira férias, nunca dorme, nunca cansa. Tu sente isso no teu osso? Que a qualquer momento a conta de tudo o que a gente fez pra chegar aqui pode vir cobrada em dobro e a gente vai ter que pagar com o que sobrou da nossa alma, ou pior... com o futuro de quem a gente ama?”
Eu respirei fundo, sentindo o ar gelado e úmido da madrugada invadir meu peito. O Gargalo tinha enfiado o dedo na ferida que eu tentava ignorar todo dia quando olhava pros meus filhos dormindo.
— “Sinto todo santo dia, irmão. Sinto na nuca.” — Respondi, seco, sem rodeios. — “A diferença é que antigamente, quando a gente era só pele e osso, a gente não tinha p***a nenhuma a perder. Se o chumbo vinha, a gente só ia pra vala com um sorriso no rosto. Agora… agora eu tenho o Murilinho perguntando por mim, tenho a Aurora que é o meu ponto fraco, tenho a Mel que é a minha base. O medo hoje não é mais de morrer, Gargalo. Morrer é lucro pra quem vive assim. O medo real, aquele que me faz perder o sono, é de deixar eles sozinhos nesse inferno que eu ajudei a construir.”
Gargalo assentiu devagar, jogando a cinza do cigarro pra fora da laje, observando ela sumir na escuridão.
— “É por isso que eu não desço com os moleques pra rir de coxinha. É por isso que eu fico aqui, afiando a minha visão e limpando a minha lente. Porque se o sistema vier babando como o Faísca falou, se eles tentarem o bote de mestre, vão ter que passar por cima de um muro de aço e ódio antes de encostar um dedo na nossa família. Tu sabe, né, Murilo? O bonde é eterno, o pacto é de sangue, mas a paz... a paz é só um empréstimo de curto prazo que o crime faz pra gente com juros de agiota. E a gente sabe que uma hora o cobrador bate na porta.”
Ficamos ali, os dois, em silêncio absoluto por longos minutos. Dois homens que a rua forjou no ódio e na exclusão, mas que o amor tava tentando resgatar do abismo. Mas ali em cima, na calada da noite, com o fuzil na mão, a gente sabia a verdade nua e crua: a guerra nunca dorme, ela só tira um cochilo pra voltar mais forte.
— “Vai lá ver a tua mulher, Gargalo. Vai dar um beijo na Juliana e fingir que o mundo é bonito por algumas horas.” — Falei, batendo no ombro dele com força, um gesto de carinho bruto. — “Deixa que o Fantasma cuida da ronda hoje. Tu merece um pouco de sossego antes do temporal que tá se armando no horizonte. O céu tá ficando preto, e não é de chuva.”
Ele me olhou nos olhos, deu um toque de punho firme no meu peito e deu aquele sorriso de quem sabe que a morte é uma velha amiga.
— “Vou lá. Mas se o bicho pegar, se ouvir o primeiro estalo, tu já sabe o mantra: cai um, cai geral. Ninguém solta a mão de ninguém no meio do tiroteio.”
Ele desceu em silêncio, como um rastro de fumaça. E eu fiquei ali, o último vigia da Vila, o Fantasma solitário, sentindo o peso da coroa de espinhos, esperando a Dona da Lei chegar com o perfume dela pra me lembrar por que eu ainda não puxei o gatilho contra a minha própria cabeça e por que eu vou lutar até o último cartucho por esse império de sangue.