O NOIVADO DO CRIME E O TERROR DA LÁBIA
[NARRADO POR FAÍSCA — Lucas da Silva Ramos]
O bagulho tá doido e o processo é lento, mas meu motor é 2.0 mexido, aspirado e eu não sei o que é freio desde que saí do útero da minha mãe, tá ligado? Eu sou o Faísca. Se tem barulho de pneu fritando, eu tô no meio. Se tem confusão generalizada, eu sou o dono da festa e o DJ que anima o caos. O mundo pode tá desabando, o blindado pode tá subindo a ladeira cuspindo fogo, mas se tiver uma brecha mínima pra uma resenha ou pra um deboche, eu tô lá com o sorriso de orelha a orelha e o deboche engatilhado. Os anos passaram, o bando cresceu, o faturamento da firma triplicou, uns ficaram sérios demais, tipo o Gargalo que agora vive no mundo da lua, com olhar de peixe morto por causa da Juliana, mas eu? Eu continuo sendo a mesma peça rara, o mesmo louco de pedra que faz o Murilo querer me dar um tiro de advertência na testa dia sim, e o outro também, só pra ver se meu cérebro volta pro lugar.
Mulher? p***a, nem me fala esse nome que eu chego a ter urticária. Tô fora, tô aposentado, tô em modo avião permanente pra qualquer sentimento que dure mais que uma noite de suor. Depois de tanta dor de cabeça, de tanta ex que tentou rastrear meu radinho e de tanta doida querendo mandar na minha agenda de guerra, eu decidi que meu único amor verdadeiro é o meu fuzil 7.62 e a minha sagrada liberdade de vadiagem. Mulher é igual granada: se tu não souber manusear com luva de pelica, ela explode na tua mão, leva teu juízo junto e ainda deixa um rastro de destruição que nem a Melissa consegue consertar no fórum. Eu olho pro Murilo todo derretido, parecendo um sorvete no sol pela Melissa, olho pro Gargalo naquele clima de "lar doce lar" e pantufa, e só consigo pensar: "Coitados, perderam a essência da malandragem, foram domados pela coleira de ouro". Eu não quero saber de compromisso nem tão cedo, meu negócio é a pista, é o movimento, é a adrenalina de não saber se amanhã eu acordo no topo do morro ou no setor de triagem do inferno.
Só que, né... a carne é fraca, o sangue ferve e o espírito é sem-vergonha pra c*****o.
Eu tava ali, tranquilão, encostado no muro baixo da rua 4, aproveitando que o movimento de incursão tava calmo e o sol de São Paulo tava dando uma trégua pra pele. Tinha uma novinha, a Anna Rúbia, que tava me dando mole tem um tempo. Pensa numa mina que é um perigo biológico: olhar de gata, sorriso de quem sabe exatamente onde o pecado mora e um papo que faz até o d***o pedir arrego e assinar termo de confissão. Eu tava ali, todo trabalhado na lábia de mestre, destilando aquele mel de bandido que elas adoram, com o peito estufado e o cordão de ouro brilhando mais que farol de viatura.
— "Pô, Anna Rúbia... tu sabe que o pai aqui é correria pura, né? O tempo é escasso e o perigo é constante." — Falei, chegando mais perto, invadindo o espaço pessoal dela, sentindo o cheiro do perfume de baunilha dela que tava me deixando mais tonto que dose de conhaque barato em jejum. — "Mas pra tu, princesa, eu sempre arrumo uma brecha no cronograma da guerra. Tu é diferenciada, tem um brilho que ofusca até o reflexo da minha máquina recém-lubrificada. Tô quase virando poeta por tua causa."
Ela deu aquela risadinha de canto, mexendo no cabelo ruivo, já caindo no meu lero-lero como um patinho.
— "Ah é, Faísca? O grande bandido impiedoso, o terror do asfalto, tá ficando romântico agora? Achei que você só pensava em pólvora, munição e fuga."
— "Pólvora é pro trabalho, gata. Pra você, eu só penso em fogo, mas do tipo que consome a gente entre quatro paredes..." — Eu já tava no ápice da minha performance, o clima tava tão quente que dava pra fritar um ovo no asfalto. Eu fui me aproximando, o rosto chegando perto do dela, os lábios quase se encostando pra mandar aquele xeque-mate que ia garantir o entretenimento pós-plantão.
Mas o destino é um filho da p**a de marca maior e ele tem nome, sobrenome e cara de retardado: Pulga.
👰 O NOIVADO MAIS INDESEJADO DA HISTÓRIA
Do nada, senti um braço pesado sendo jogado por cima do meu ombro com uma força de quem não tem a menor noção de espaço pessoal ou de tempo. Antes que eu pudesse sequer processar a invasão, aquela voz de taquara rachada, aguda pra c*****o, estourou no meu tímpano como uma granada de efeito moral:
— “IHHHHHHH! QUE COISA MAIS LINDA! TÁ ME TRAINDO NA CARA DUURA, AMOR? É ASSIM QUE TU HONRA NOSSA ALIANÇA DE SANGUE, SUOR E DEBOCHE?”
Eu travei. O mundo parou de girar. A Anna Rúbia arregalou os olhos como se tivesse visto um fantasma de terno. O Pulga tava ali, colado em mim, com aquela cara de hiena drogada, me olhando com um olhar de "cachorro abandonado" totalmente fake, fazendo um biquinho ridículo que me deu vontade de vomitar.
— “SAI DAQUI, SEU VERME DESGRAÇADO!” — Gritei, tentando empurrar o desgraçado com o cotovelo, mas o Pulga é igual carrapato de beira de estrada: quando gruda, só sai com reza brava. — “Tu não tem uma entrega pra fazer? Um rádio pra checar? Uma vida pra viver que não seja a minha, c*****o?”
— “Pô, Faísca... logo com essa aí? Tu não tem critério nenhum mesmo!” — Pulga continuou, ignorando totalmente o meu ódio mortal e olhando pra Anna Rúbia como se estivesse analisando uma rival de peso numa final de reality show. — “Tu falou pra mim ontem, lá no sofá rasgado da boca, enquanto a gente dividia aquele miojo, que eu era o único que entendia a complexidade do teu coração de pedra! Falou que o nosso amor era mais forte que o recuo de uma AK-47 disparando no modo rajada! E agora te pego aqui, todo cheio de gracinha com a concorrência? Meu coração tá em frangalhos, Lucas! Em pedacinhos de vidro!”
A Anna Rúbia ficou ali, estática, parecendo uma estátua de sal, alternando o olhar entre a minha cara de desespero absoluto e a cara de p*u monumental do Pulga, que agora tava com a mão no peito, fingindo que ia ter um troço, uma falta de ar dramática digna de Oscar de melhor ator coadjuvante.
— "Vocês... vocês dois... são...?" — Ela soltou, a voz falhando, tentando processar a bizarrice jurídica e moral daquela cena.
O Pulga nem esperou ela terminar de formular a dúvida. Ele deu um passo à frente, afinou a voz num tom melancólico de viúva de novela mexicana das nove e soltou a bomba atômica:
— "Sim, lindinha... nós somos namorados! O Lucas não te contou? Ele tem esse jeito de 'macho alfa' do crime, mas em casa ele é o meu gatinho dengoso. A gente vive um romance proibido entre as barricadas e os becos úmidos. É um amor que nasceu no meio do tiroteio, sabe? O cheiro da pólvora é o nosso incenso! Ele prometeu solene que eu era a única joia rara do morro dele!"
Eu engasguei com a minha própria saliva. Comecei a tossir de forma violenta, a cara ficando vermelha como um pimentão, o ar sumindo. Se eu tivesse um infarto ali, a culpa era daquele anão de jardim maldito.
— "O QUÊ? Tá louco, seu viado desgraçado?! Tá querendo morrer?!" — Consegui gritar por entre as tosses, recuperando o fôlego e tentando empurrar o Pulga pra longe, mas ele parecia um chiclete esticado grudado no meu braço. — "Desmente essa p***a agora! Anna, pelo amor de Deus, esse moleque é retardado mental, ele tá zoando, ele é um doente que fugiu do hospício, ele quer estregar meu esquema porque é um invejoso de merda!"
Mas o Pulga é um mestre nato do caos e da discórdia. Ele ignorou meu surto psicótico, limpou uma lágrima imaginária com o dedinho mindinho e continuou o show de horrores:
— "Não adianta negar agora, mozão! Assume logo pro mundo! O amor não tem que ter vergonha! A gente já até marcou o dia: vamos nos casar no civil mês que vem, com tudo o que a gente tem direito! O Murilo vai ser o padrinho de honra e o Neguim vai levar as alianças numa bandeja de ouro cravejada de diamante! Eu já escolhi até o meu terno branco, Lucas! Para de querer esconder nossa felicidade por causa dessa... dessa 'outra' passageira!"
Eu olhei pra Anna Rúbia e vi o desastre completo, o naufrágio total do meu Titanic de lábia. Ela deu três passos pra trás, cruzou os braços e soltou aquela risadinha nervosa de quem acabou de descobrir que entrou numa cilada da deep web.
— "Gente... eu... eu não quero problema com a justiça nem com a 'família', viu?" — Ela falou, já virando o pé pra direção oposta com uma velocidade olímpica. — "Pô, Faísca, achei que você era solteiro de verdade, papo reto. Não quero ficar no meio de DR de casal, ainda mais de vocês dois que são conhecidos por serem tudo doido de pedra. Felicidades aos noivos, hein! Me convida pro chá de panela que eu levo o conjunto de canecas!"
— "ANNA, ESPERA! É TUDO MENTIRA DESSE ARROMBADO! EU SOU HÉTERO, c*****o!" — Berrei desesperado, mas ela já tava apertando o passo, sumindo na curva da viela enquanto a risada dela ecoava como uma hiena.
Eu me virei pro Pulga. Se meus olhos fossem fuzis .50, ele já tava transformado em peneira. O desgraçado tava dobrado no meio, perdendo o ar de tanto rir, batendo a mão com força no joelho, quase chorando de alegria com a minha desgraça.
— "Tu tem noção do que tu fez, seu projeto de verme? Tu tem noção do investimento que eu perdi?" — Rosnei, segurando ele pela gola da camisa e levantando ele uns dez centímetros do chão. — "Eu tava há três semanas cozinhando essa mina! Três semanas de lábia fina, de investimento em lanche, de papo cabeça! E tu chega e mete um 'casamento no civil' no meio do meu beijo?"
— "Ai... ai, meu estômago! Eu vou morrer!" — Pulga gaguejou, tentando respirar no meio das gargalhadas. — "A cara dela... 'felicidades aos noivos'... p**a que pariu, Faísca! Tu tinha que ver a tua cara de 'engasgado'! Parecia que tinha engolido uma granada sem pino e tava esperando a explosão! 'Mozão', me segura!"
— "Eu vou te dar um tiro na b***a, Pulga! Eu vou te pendurar de cabeça pra baixo no poste da principal pra todo mundo ver quem é a 'noivinha' da Vila!" — Comecei a correr atrás dele, e o fdp saiu desembestado, pulando caixa, desviando de lixo, gritando pro morro inteiro ouvir:
— "SOCORRO! MEU NOIVO TÁ AGRESSIVO! É O ESTRESSE PRÉ-NUPCIAL, GENTE! É O MEDO DE ASSINAR OS PAPÉIS! ALGUÉM CHAMA A DRA. MELISSA PRA FAZER O CONTRATO PRÉ-NUPCIAL ANTES QUE ELE ME MATE DE AMOR!"
As tiazinhas nas janelas tavam tudo rindo, os moleques na rua tavam assobiando e gritando "VIVA OS NOIVOS!", "CADÊ O BOLO?". Minha moral caiu mais que o valor do real em dia de crise mundial. Entrei na boca dez minutos depois, ainda espumando de raiva, com o cabelo todo bagunçado, e vi o Murilo sentado com o Gargalo, os dois me olhando com aquela cara de quem tá assistindo um episódio de comédia pastelão.
— "E aí, Faísca?" — Murilo soltou, tentando e falhando miseravelmente segurar o riso, enquanto limpava o canto do olho. — "Soube que o bando vai ter festa. Preciso comprar terno novo de padrinho ou o traje da cerimônia é camuflado com colete à prova de balas?"
Eu sentei no sofá velho que soltou uma nuvem de poeira, joguei meu boné longe e cruzei os braços, sentindo o ódio e a vergonha lutarem um vale-tudo dentro do meu peito.
— "Cês tudo se fodam. Bando de desocupado. O próximo que falar de casamento, de noivo ou de aliança vai levar uma coronhada de 45 no meio da testa. E o Pulga... o Pulga eu vou usar de alvo fixo pro treinamento de sniper do Gargalo amanhã cedo. Sem dó e sem piedade."
— “Faz isso não, mozão! O amor é lindo, a dor é passageira, mas a nossa história é eterna!” — O Pulga soltou essa pérola enquanto se escondia atrás das costas largas do Gargalo, rindo tanto que a cara dele tava da cor de um pimentão maduro. Eu já tava com a mão no ferro, só calculando o ângulo pra dar um susto que fizesse ele borrar a calça, mas o Murilo levantou a mão, a expressão mudou num estalo, e o clima de circo evaporou.
— “Basta vocês dois! Já deu de palhaçada, a cota de circo foi batida.” — A voz do Murilo saiu seca, autoritária, cortando a resenha como uma navalha afiada. Ele se levantou, ajeitou a postura de patrão e olhou fixo pra nós dois, com aquele olhar que faz o coração acelerar. — “O circo tava muito bom, a audiência foi ótima, mas a lona vai cair agora. Pulga, Faísca... os dois vão se arrumar agora. Quero vocês prontos, trajados de guerra, com as máquinas alimentadas e a mente no lugar. A nossa missão na casa do Cavalcanti é hoje à noite, e eu não aceito um milímetro de erro. Se alguém vacilar porque tava pensando em piadinha, eu mesmo cuido do vacilão.”
Eu bufei, tentando baixar a adrenalina do ódio que o Pulga me fez passar, focando no que realmente importava agora.
— “Tô pronto, Murilo. Sempre tive. Só vou ali lavar a alma pra tirar o cheiro de traição desse verme.” — Falei, dando um último olhar mortal pro Pulga, que ainda tava fazendo biquinho de longe.
— “É sério, bando de louco.” — Murilo continuou, a expressão fechada como um túmulo. — “Se eu ouvir um 'ai' sobre casamento, terno branco, chá de panela ou civil no meio da incursão na mansão, eu mesmo cancelo o CPF de vocês ali mesmo no jardim do promotor. O Octávio Cavalcanti não é piada de feira. Ele quer o meu sangue, quer o da Melissa e quer destruir a Vila. Hoje a gente vai mostrar pra ele que o Bonde do Ferreira não brinca em serviço quando a família tá na reta.”
O Pulga finalmente parou de rir, ajeitou a postura, limpou o rosto e sentiu o peso da responsabilidade bater no peito. Ele sabia quando o limite era atingido.
— “Pode crer, patrão. A zoeira acaba aqui no portão da boca. No quintal do doutorzinho o bagulho vai ser sério, profissional. Vou preparar o kit de invasão, as granadas de fumaça e o 'presentinho' psicológico que tu pediu.”
— “Marcha então.” — Murilo sentenciou, dando as costas. — “Vão se organizar. Gargalo já tá com a visão limpa e o rádio na escuta. Neguim já mapeou cada câmera do setor. Só falta a minha linha de frente parar de ser criança por cinco minutos e virar os assassinos que eu sei que vocês são.”
Eu saí da boca bufando, mas com o sangue fervendo de um jeito diferente agora. O Pulga estragou meu esquema com a Anna Rúbia, me fez de chacota pro morro inteiro e ainda saiu rindo, mas o dever chamava mais alto. A gente podia ser um bando de retardado na resenha, mas quando o Murilo dava a ordem, a gente virava sombra, virava morte silenciosa.
Olhei pro céu que já tava começando a querer escurecer, ficando daquela cor de chumbo que eu gosto. A noite ia ser de terror absoluto pro Cavalcanti. E se o Pulga abrisse a boca pra falar de casamento no meio da mansão do promotor, eu jurava por Deus que o próximo "civil" que ele ia ver era o do próprio atestado de óbito, assinado por mim.
— “Bora, ‘noiva’!” — Gritei pro Pulga enquanto subia o beco em direção aos armamentos. — “Vamo ver se tu é bom de gatilho igual tu é bom de fofoca e teatro!”