O EVANGELHO SEGUNDO O PULGA — DEBOCHE, LÁBIA E O "QUASE" ÓBITO
[NARRADO POR PULGA — Carlos Eduardo Lima]
O sol tava batendo na laje de um jeito tão ignorante, tão sem educação, que parecia que ia fritar o resto de neurônio que eu ainda tenho sobrando aqui na minha caixa craniana, mas papo reto de quem tem a visão: quem é que precisa de cérebro quando se tem um estilo inconfundível, um carisma que transborda e uma língua que trabalha mais que motor de 1100 cilindradas em dia de racha na rodovia? Eu tava ali, encostado na mureta, vendo o Faísca subir o beco todo espumando, a cara vermelha de ódio destilado, parecendo um pitbull que acabou de levar um banho de mangueira gelada no meio do sono de beleza.
Eu não aguentava, parça. A risada saía de dentro da minha alma, uma gargalhada tão alta, tão escandalosa, que fazia até os pombos voarem em pânico da antena da vizinha, achando que o mundo tava acabando em deboche.
— “AI, MEU DEUS! EU VOU INFARTAR! ALGUÉM ME DÁ UM BALÃO DE OXIGÊNIO E UMA CERVEJA!” — Gritei, batendo na minha coxa, perdendo o fôlego e quase caindo sentado no chão de cimento quente. — “A cara da Anna Rúbia... ‘Felicidades aos noivos’! p**a que pariu, eu sou um gênio do marketing amoroso, um mestre da propaganda enganosa! O Faísca tá prometido, tá amarrado no altar da Vila, e o morro inteiro já tá esperando o convite impresso com buffet de churrasco de gato, cerveja de litrão e pagode de fundo! Aceita que dói menos, mozão! O amor é lindo e o nosso é eterno!”
Deixa eu mandar a real pra vocês, sem filtro, sem curva e sem massagem: eu sou o Pulga. Carlos Eduardo Lima pra quem quer me processar ou me cobrar pensão (boa sorte com isso, o sistema jurídico é lento e eu sou mais rápido que a justiça), mas Pulga pro resto do mundo que gosta de rir, viver a vida no modo "f**a-se" e aproveitar cada segundo de palhaçada. Sou pequeno no tamanho, confesso, mas minha presença ocupa três quarteirões e meu ego precisa de um terreno baldio de dez alqueires só pra ele se espreguiçar. Eu sou o cara que traz a cor pra esse cinza de pólvora e concreto da Vila. Sem mim, essa p***a aqui ia ser mais chata que documentário sobre a reprodução dos fungos em câmera lenta.
E deixa eu esclarecer um bagulho fundamental aqui antes que as gatas fiquem em choque, entrem em depressão e parem de mandar direct: não, eu não sou gay. Longe disso, meu parceiro! Eu sou um apreciador nato, um sommelier das curvas que Deus desenhou com tanto carinho e abundância naquelas moradoras da quebrada. Eu só meti o louco no Faísca porque o meu prazer supremo, o meu combustível diário, é tirar todo mundo do sério, quebrar a pose de bandido mau e ver o circo pegar fogo. Imagina só se esse bonde fosse todo mundo sério, carrancudo e poético igual ao Gargalo? p***a, ia ser um cemitério ambulante! O bando ia sair pra missão e ia parecer procissão de sexta-feira santa em cidade do interior. Ia ser só ‘sim senhor’, ‘não senhor’, ‘mira na cabeça e respira’. Chatice do c*****o!
Eu sou o equilíbrio tático, tá ligado? Se o Murilo é o comando supremo que não ri nem pra foto, o Gargalo é a mira de elite que fala com as paredes e o Neguim é o mapa milimétrico, eu sou a trilha sonora oficial do caos. Eu sou o deboche que faz o inimigo duvidar se a gente tá indo matar ele ou contar uma piada de tiozão no churrasco. E convenhamos... olha pra esse rosto aqui! — Peguei o celular, abri a câmera frontal, dei aquela conferida básica no topete e ajeitei o corte de cabelo no reflexo da tela. — Eu sou um monumento histórico da periferia, parça! Sou lindo, sou convencido porque eu tenho motivo de sobra. Esse sorriso aqui abre porta de cofre de banco e perna de princesa de condomínio de luxo. Eu sou o pacote completo: tenho papo, tenho veneno, tenho uma memória que não esquece nem o que o inimigo comeu no café da manhã e ainda tenho esse brilho de quem nasceu pra brilhar mais que ouro de bicheiro em dia de desfile na Sapucaí.
Eu vi o Faísca entrando na boca, bufando igual um touro premiado em exposição agropecuária, e eu só pensava: "Vou apanhar? Vou. Vou levar uma coronhada? Provavelmente. Mas valeu cada milésimo de segundo dessa humilhação pública". O cara tava crente, jurava por Deus que ia ganhar a Anna Rúbia no mel da lábia, e eu transformei ele na 'noiva do ano' em três minutos de teatro puro. Isso não é crime, isso é arte, meu irmão! Isso é poesia concreta de quebrada!
Aí o Murilo, com aquela cara de quem comeu vidro temperado e não gostou do gosto, deu a ordem da missão pro Octávio Cavalcanti. O clima pesou na hora, a tensão subiu como pressão de panela velha prestes a explodir, e eu ali, mantendo a pose de soldado disciplinado, mas por dentro eu já tava imaginando eu deixando um bilhetinho rosa com cheiro de lavanda na cama do promotor dizendo: "Ficou sabendo que o Faísca vai casar no civil e você não foi convidado? Assinado: O Fantasma". Mas guardei pra mim, né? Porque o Murilo, quando olha com aquela cara de 'vou te enterrar vivo debaixo da laje', até eu, que sou o mestre incontestável do deboche, dou uma segurada no esfíncter e fico pianinho. Só a gostosa da Melissa mesmo pra aguentar o humor de cão dele e ainda fazer ele suspirar pelos cantos.
— “Pode crer, patrão! Tô na voz, tô na sintonia!” — Falei, tentando ficar sério, fazendo uma cara de conteúdo intelectual, mas com aquele brilho de safadeza pura no fundo do olho que eu não consigo esconder nem se eu quiser. — “A zoeira dá uma pausa técnica pra hidratação, mas a performance não para nunca. O Cavalcanti vai ter a honra suprema de ser invadido pelo cara mais charmoso, perfumado e carismático do crime organizado. Vou preparar o kit de ferramentas, mas o Faísca vai ter que ir do meu lado na garupa da moto pra gente já ir treinando a nossa sintonia de casal pro grande dia, né não, mozão? Quer que eu segure a tua cintura ou tu prefere me abraçar por trás pra sentir meu perfume de vitória?”
O Faísca quase jogou o copo de café fervendo em mim, os olhos dele tavam soltando faísca literal, mas eu desviei com a agilidade de quem já fugiu de muito chinelo de tiras de mãe braba na infância. Eu sou isso aí: sem escrúpulos, sem filtro e com uma vontade de viver que simplesmente não cabe no meu tamanho reduzido. A gente vai pra guerra, o bagulho é sinistro, o Cavalcanti é um perigo real... mas se eu não puder rir da cara do perigo e tirar um sarro épico dos meus irmãos de farda, a vida perde o sentido pra mim. O crime é f**a, mas a resenha é o que mantém a alma viva.
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— “E ah! Pelo amor de Deus, de todos os santos e dos orixás da quebrada, não contem pro Murilo que eu chamei a Melissa de gostosa lá em cima!” — Soltei essa com um arrepio na espinha que não era de frio, era de puro instinto de preservação da espécie. — “Se o patrão sonha, se passar pela cabeça dele que eu usei esse adjetivo pra descrever a primeira-dama, ele não vai só me dar um esculacho ou um castigo de moleque... ele corta o meu documento fora com uma faca de pão cega e enferrujada, me faz engolir o que restou e eu vou ter que casar com o Faísca de verdade, por falta de opção biológica e funcional! Vou virar noiva à força!”
Imagine a cena trágica e dramática: eu, Pulga, o gênio do deboche, virando o "Eunuco da Vila" porque não segurei a minha língua de chicote. Deus me livre e guarde! O Murilo é meu irmão, meu fechamento, o cara que eu morro pra proteger, mas quando o assunto é o ciúme possessivo dele pela gordinha... sai da frente que o Fantasma vira o próprio Lúcifer com chifre, r**o e fuzil carregado. A Melissa é sagrada, é a Dona da Lei, a intocável, a deusa do morro, e o Murilo é o Dono do Ciúme Doentio e Explosivo.
Eu olhei pro lado, conferindo se não tinha nenhum radinho aberto, nenhuma escuta da Civil ou algum moleque fofoqueiro querendo ganhar ponto com o patrão por perto.
— “Sério, apaga isso da mente de vocês agora! Resetem o HD, deletem o histórico!” — Continuei, ajeitando meu cordão de ouro grosso no pescoço pra ele ficar bem visível no sol. — “Eu sou convencido, sou lindo, sou o Brad Pitt que nasceu no CEP errado por um erro de logística divina, mas eu não sou suicida. Minha sobrevivência física e reprodutiva depende do Murilo continuar achando que eu só tenho olhos pro meu reflexo maravilhoso no espelho e pras novinhas que não têm dono oficial.”
Puxei o ar com força, tentando recuperar a minha postura de galã de periferia, limpando a poeira da calça cargo.
— “Mas ó, papo de visão aqui entre nós, no sigilo total: quem tem uma gordinha daquela em casa, tem o mundo inteiro no colo e um pouco mais, né? O Murilo tirou a sorte grande na loteria da vida e a gente tirou a sorte de ter uma advogada que peita até o Papa, o Tribunal de Haia e o d***o pra tirar a gente da tranca. Mas o meu foco agora é outro... é o tal do Cavalcanti que tá querendo estragar o nosso lazer.”
Ajeitei a minha camisa de marca que custou o preço de uma moto CG, dei aquela conferida tática no desodorante porque missão de luxo em bairro de bacana pede cheiro de vitória e perfume caro pra não passar vergonha no mármore. Comecei a conferir o kit de invasão. Máscara de palhaço preta (pro clima ficar bem macabro), luva de couro tática, lanterna de alta potência e o meu carisma inabalável que quebra qualquer defesa, até de promotor amargurado.
Eu tava ali, conferindo os carregadores, quando o Faísca passou por mim dando um esbarrão de propósito. Ele ainda tava no veneno, parça. A cara dele parecia um pimentão maduro prestes a explodir.
— "Vai treinando o passo, 'noivinha'!" — Gritei pra ele, rindo igual um desgraçado enquanto ele me mandava o dedo médio. — "Vou mandar fazer o bolo de três andares com o topo de dois bonequinhos de fuzil se beijando! Vai ser o evento do ano!"
O Neguim, que tava num canto revisando os pontos de entrada da mansão, só balançava a cabeça.
— "Pulga, tu não tem medo de morrer não, é? O Faísca vai te apagar antes da gente chegar no portão do condomínio."
— "Que nada, Neguim! O amor dele por mim é incubado!" — Respondi, dando uma piscada. — "E outra, quem morre rindo é porque entendeu a piada da vida. O Cavalcanti que se cuide, porque o 'Doutor Morte' vai levar um choque de realidade. Imagina a cena: a gente lá dentro, ele tremendo de medo, e eu pergunto se ele prefere ser padrinho de terno preto ou azul marinho no meu casório com o Lucas. Ele vai infartar antes da gente dar o primeiro salve!"
Eu comecei a imitar a voz do Cavalcanti, empolgado com a minha própria criatividade:
— "Oh, Dra. Rocha, seu marido é um vândalo! E o bando dele é um grupo de coreógrafos de casamento!" — Gargalhei tanto que perdi o ar de novo.
— “Vamo lá, bando de urubu faminto!” — Gritei finalmente, dando um tapa estalado no ombro do Neguim que tava passando concentrado demais. — “Vamo mostrar pro doutorzinho de toga que o Morro da Vila tem etiqueta, tem estilo, tem deboche refinado e tem um bando que não arrega pra nada, nem pra promotor com complexo de Deus e hálito de vinho caro. Faísca, meu noivo amado e possessivo, sobe logo nessa moto que a gente tem um casamento jurídico pra arruinar e uma lua de mel no jardim do Cavalcanti pra organizar sob a luz do luar e do laser da mira!”
Saí no pique, rindo da minha própria desgraça e já imaginando a cara de tacho, de puro terror e confusão mental do Cavalcanti quando visse que o Morro não só tinha fuzil, granada e ódio, como tinha um Pulga pronto pra fazer ele virar piada nacional no tribunal das ruas. O medo? O medo eu deixei guardado em sete chaves debaixo da cama da Anna Rúbia pra ela cuidar com carinho enquanto eu não volto da guerra. Hoje o que manda na pista é a audácia, o fuzil no peito e o deboche na ponta da língua! O show do Ferreira tá só começando, e o ingresso pro Cavalcanti vai custar a sanidade dele!