O RITUAL DO ABATE: O FANTASMA E A RAINHA NO VALE DAS SOMBRAS [NARRADO POR MURILO FERREIRA] A gente cortou os becos da Vila como vultos amaldiçoados, sombras projetadas pelo próprio inferno contra o reboco cru das paredes. O morro tava num silêncio de cemitério profanado; não era a paz do descanso, era o vácuo que precede a detonação. Dava pra ouvir o som seco das nossas botas táticas batendo no concreto irregular e o chiado baixo, quase orgânico, do radinho na frequência criptografada do Neguim. Chegamos na boca do Setor 4 e o cenário era de guerra declarada: a segurança tava dobrada, triplicada. Os moleques tavam com o dedo no guarda-mato, os olhos injetados de adrenalina e medo, vigiando cada fresta de luz como se a própria morte fosse bater à porta pedindo licença. Assim que a gente

