Demoro mais do que imaginava, para chegar no lugar que Guilherme disse que me encontraria.
Era praticamente no meio do nada, perfeito para um homicídio e para esconder um corpo.
Como imaginado, Guilherme já estava me esperando, fingindo ter paciência, assim como eu.
- Achei que tivesse sido presa - Comenta, quando desço do carro, passando por ele, em direção de uma moita.
- Vou deixar essa honra para você - Atrás da moita, me agacho, após abaixar a calcinha que vestia e alívio minha bexiga. Segundos depois, vou ao encontro dele, me sentindo bem melhor - A vontade de fazer xixi aumentou agora no final da gravidez. Um copo de água que eu beba, faço xixi a manhã inteira - digo me aproximando.
- Sei como é - diz ele, desviando o olhar para ao nosso redor - O quê aconteceu de tão urgente para querer me ver?
- Não tem nada pra comer aí com você? - Estava quase tendo um treco por causa da fome, meu estômago estava roncando de uma forma dolorosa.
Ele caminha até o carro dele, pegando do banco traseiro um pacote de bolacha recheada.
- Serve?
Estava longe de ser o café da manhã ideal para uma grávida. Era algo completamente contraditório que comia pela manhã. Gostava de frutas, iorgute natural ou até mesmo torradas integrais.
Nem lembrava a última vez que havia comido uma bolacha recheada.
- Dá pro gasto - Abro o pacote com agilidade.
- E então? - insiste - O quê descobriu?
- O óbvio - digo antes de comer uma bolacha - O quê estava bem na nossa cara e não vimos.
- Continua.
Olho para ele.
- Gael está no Complexo do Alemão.
Ele semicerra os olhos.
- Não. Ele não está.
- Sim. Ele está.
Ele n**a com a cabeça, dando alguns passos.
- Saberia se ele estivesse.
- Será? - Ele para de andar, para me olhar novamente, antes de pegar o celular no bolso e fazer uma ligação ao se afastar com mais alguns passos.
Continuo comendo calmamente meu pacote de bolacha, desejando preencher aquele vazio no meu estômago o mais rápido possível.
Poucos segundos depois, Guilherme começa a falar com alguém pelo celular e pelo seu tom de voz, já havia perdido completamente sua paciência.
Na metade do pacote de bolacha, sinto sede, isso faz com que eu vá ver se achava água no carro dele e acho, no chão do carro.
- Não sei como, mas parece que você tem razão - diz se aproximando novamente - Fizeram uma festa pro filho da p**a.
- Parece que sempre tenho razão - Termino de beber a água.
- Filho da puta... - Ele xinga baixo, a expressão se tornando pensativa e olhar distante.
- Se está pensando em chegar nele sozinho, pode tirar essa ideia da cabeça - Ele me olha imediatamente - É suicídio.
- Me disseram também, quando foi pra encontrar você - Ergo uma sobrancelha.
- Não sou perigosa.
- Matou uma pessoa. Passou a ser.
Reviro os olhos, soltando o ar dos pulmões.
- Foi legítima defesa! - Tento alegar, mesmo soando i****a vindo da minha parte, pois sabia que não havia sido.
- No momento, não é com a sua prisão que estou preocupado e sim com a de Gael.
- Está fácil de resolver - Me sento no capô do carro dele, apoiando minhas mãos atrás do corpo. Um leve vento sopra meu cabelo, o jogando para frente dos ombros.
Guilherme observa a cena em silêncio, praticamente me analisando.
- Qual sua ideia brilhante?
- Você é da polícia. Só precisa de um mandato e organizar uma invasão - Ele ri debochado - O quê foi?
- Acha que é fácil assim, conseguir um mandato e organizar uma invasão?
- Nos filmes parece.
- Nos filmes! - diz irritado - Estamos na vida real. Onde conseguir um mandato, não é tão simples e convencer o governador de uma invasão com o apoio do exército um século!
- É o Gael. A polícia mais do que eu, quer por as mãos nele.
- E por ser o Gael, a polícia civil sabe que sozinha não consegue subir o morro. Precisamos de apoio.
- Então consiga o apoio! - digo elevando a voz - Já sabemos onde ele está!
A expressão dele volta a ficar pensativa, enquanto aperta a ponte do nariz com os olhos fechados.
- Ele não pode ser protegido o dia todo - murmura - Ele não pode.
- E ele não é - digo calmamente - Só que ali é como um castelo, só precisa derrubar os guardas da frente - Ele volta a se movimentar, só que agora de um lado para o outro.
- Samuel não vai invadir o Alemão só por causa do Gael - diz pensativo, parando de andar para me olhar - Ele quer você. Ele está pouco ligando se o Gael está ou não no comando. Mas prender ele, seria um mérito meu.
Não era surpresa ouvir tal coisa.
Samuel queria fazer vingança e o único jeito de fazer vingança, seria me prender e usar o poder que tinha, para me fazer sofrer antes de uma possível prisão ou morte.
Mas uma coisa, Jussara tinha razão: Me fazer sofrer, não faria o pai amado dele voltar, muito menos fazer ele se esquecer da dor.
A dor continuaria.
E o pai dele bem morto e enterrado.
Suspiro, colocando um leve sorriso no rosto.
- Então convença ele de que estou no Alemão.
Os olhos dele vagam pelo chão, ainda pensativo.
- Pra isso dar certo, você não pode dar bandeira.
- Não dou bandeira - Ressalto.
Ele ergue as sobrancelhas ao me olhar.
- Tem certeza? Não foi muito difícil encontrar você.
Se eu não tivesse ido naquele maldito baile funk, para ver com meus próprios olhos que meu irmão havia solto, não estaria na mira de um policial e sendo praticamente obrigado em ajudá-lo a prender o Gael, quando na verdade, tinha outros planos para ele.
- E você vai mesmo prender o Gael? - pergunto, querendo ouvir o contrário.
Guilherme dá de ombros.
- Se eu pegar ele, ele vai apodrecer atrás das grades.
Claro que ele apodreceria, claro, se ele quisesse.
Gael tinha capacidade de fugir de um presídio comum. Só pelas amizades, que Rubinho dizia que ele tinha, conseguia isso facilmente.
- Ficou preocupada com ele agora? - Ele pergunta com uma certa irônia na voz.
Balanço a cabeça, demorando um pouco para entender.
- Quero que ele queime no inferno - digo séria, encarando o mato em minha frente.
Por um instante, ele fica em silêncio, apenas me analisando, antes de quebrar o breve silêncio.
- Ele tentou mesmo matar você?
- Ele achou que tinha conseguido me matar - digo com uma mão no meu pescoço, aonde diariamente sentia que algo estava faltava - Ele tinha tanta certeza, que pegou minha medalhinha como lembrança do que havia feito.
Guilherme sorri sem acreditar.
- Só não entendo, como foi se envolver com um tipo como ele.
Nem eu entendia. Traficantes nunca foi um feitiche ou uma curiosidade.
Ricardo sempre os comparava como ervas-daninha da sociedade e cresci com este pensamento.
Mas acabou que me apaixonei e a raiva que eu sentia por ele, conseguia até superar a raiva que sentia por Ricardo.
Gael havia conseguido me machucar da pior maneira possível. De uma forma, que não tinha como tratar.
- Você já tem o quê você queria - digo, fingindo que o comentário dele não havia me abalado. Vou para meu carro, desejando poder voltar no tempo, mais uma vez, e reparar tudo que havia acontecido.
- Dirige com cuidado! - Guilherme grita, pouco antes de eu manobrar e o ver ficar para trás pelo retrovisor.