- É bom causa dele mesmo - Admito, me vendo sem saída.
Ela assenti lentamente, com o olhar distante.
- Que bom que não perdeu seu bebê - murmura - Não sabe a dor que é perder um filho.
- É uma menina - Corrijo automáticamente.
- Já tem um nome?
Nego com a cabeça.
- Ainda não - Sempre me senti indecisa em escolher roupas. Nunca sabia com qual roupa sair, com qual sapato ir ou acessório. Mas me aprofundei ainda mais na indecisão, quando descobri que estava grávida de uma menina e nenhum nome era bom o suficiente, chegando a me fazer inventar alguns completamente sem nexo.
- Sempre quis ter uma menina - diz com um meio sorriso no rosto - Mas Deus acabou me dando três homens, que não me davam trabalho nenhum.
- Com quantos anos seu filho morreu? - pergunto baixo.
- Meu caçula?
- É.
- Dois anos - Ela fecha os olhos por alguns instantes - Era um bebê ainda. Completamente indefeso.
Tento evitar a próxima pergunta por curiosidade, mas simplesmente ela salta da minha boca.
- Foi algum acidente?
Jussara abraça o próprio corpo, encarando o vazio.
- Antes fosse - diz com a voz fria - Ele foi estuprado. O pai fez isso.
A revelação me atinge em cheio. Um verdadeiro soco no estômago que me deixou completamente enjoada e enojada.
Como um pai, que tinha a obrigação de proteger e cuidar, podia fazer isso com o próprio filho? Ou melhor, com uma criança?!
Isto só me fez me lembrar, que tinha em baixo do meu teto um monstro parecido.
- ... eu sinto muito - murmuro.
- Também sinto até hoje. E me culpo - Ela inclina a cabeça para o lado - Se eu não tivesse que trabalhar, cuidar dos filhos das minhas patroas, tinha cuidado do meu. Hoje ele estaria vivo e nada do que aconteceu depois, não teria acontecido.
- Não é sua culpa - digo sem pensar - Você tinha que trabalhar.
O olhar dela lacrimejante, encontra o meu.
- É. Eu tinha. Não era sempre que o pai deles conseguia emprego e quando conseguia, não durava muito tempo. Ficava sobre minhas costas, toda a responsabilidade de por comida na mesa e de pagar as contas.
- Não devia se culpar mais - Aconselho.
- Mas eu me culpo e sinto tanta falta do meu Carlos, que você não imagina - Ela morde o lábio inferior - Fico feliz que pelo menos meu filho não arrancou seu filho de você, da mesma forma que o pai dele fez comigo.
Não tinha ideia, que se estivesse no lugar de Jussara, se teria aguentado tudo que ela aguentar. Era muita dor para uma pessoa só. E a injustiça por ser presa, quando apenas queria proteger os filhos, era mais angustiante.
- Ainda não me disse o quê veio fazer aqui - Ela continua, deixando para trás todas as emoções de antes.
- Precisava falar com o Gael.
Ela sorri.
- Depois de tudo que ele fez. Você quer conversar?
Dou de ombros.
- Preciso tirar essa raiva de dentro de mim.
- Sabe o quê fiz quando saí da prisão e me vi com todo o dinheiro que tenho acesso agora? - n**o sem hesitar - Fui atrás de Josué. Estava disposta em gastar o tanto que fosse, pra encontrar ele e encontrei - Ela passa o dedo indicador pela borda da xícara - Também não tinha pra onde ele correr. Por causa das machadadas que dei nele, ele ficou cadeirante. E por um momento, ao ficar cara a cara com ele, mesmo tendo imaginado tudo que iria fazer com ele, eu travei. A dor dentro de mim era tão grande que...tinha nojo dele, repulsa - Ela respira fundo, sorrindo lentamente - Mas eu o matei. Depois de cortar cada pedaço do corpo dele, fazer ele comer o p***o dele, eu o matei. E a todo momento, ele sabia que iria morrer pelas minhas mãos, isso meio que aumentou o desespero dele e me senti alimentada por isso - Ela recosta na cadeira - Meu filho não voltou depois que ele morreu, mas senti que havia vingado ele. Saber que ele havia sofrido antes de morrer, diminuir uma fração da dor que estava sentindo - Ela inclina a cabeça para o lado, sorrindo sem mostrar os dentes - Agora vem você e me diz que só quer conversar com meu filho, depois de tudo que ele fez.
Desvio o olhar, voltando a olhar para ela.
Parecia loucura chegar ali e dizer que estava ali para matar o filho dela. Poderia estar dando um tiro contra meu próprio pé.
- Vim aqui para saber, se sabe onde ele está - digo baixo.
- Pela primeira vez, depois de tanto tempo, posso dizer que sei onde meu filho está - Fico em silêncio, esperando que continuasse, quando ela não continua, decido perguntar.
- E onde ele está?
- Onde você acha que ele está? - Forço um sorriso, não querendo mostrar o quanto odiava aquele tipo de pergunta retórica. Ela só precisava me dizer onde o d***o se escondia, que daria um jeito de puxar ele para fora -Você não deve o conhecer tão bem quanto eu, mas deve imaginar o lugar que ele não deixaria nunca.
Estreito os olhos.
- Complexo do Alemão? - Deduzo.
- Viu aí, que não foi difícil? - Ela se serve de mais café.
- Não tem como ele está no Alemão - digo pensativa - Antônia tirou ele do poder. Ela está no comando agora. Isto depois que a polícia invadiu a favela e ele teve que fugir.
- Gael nunca deixou de comandar aquela favela. Mesmo escondido no Jacarezinho - Ela dá um gole no café - É como o Salvador. Mesmo longe, comanda isso tudo.
Passo as mãos pela minha cabeça.
- Então todo esse tempo, ele estava a frente do Alemão?
- Aquela mulher, Antônia, só acha que está a frente. Mas não está. Tanto que a droga que ele me pediu emprestada, foi pro abastecimento.
A vontade que tinha naquele momento, era de me estapear.
Me matando para descobrir onde ele estava e todo aquele tempo, ele estava no Complexo do Alemão!
Rubinho até podia saber disso e não queria me contar...
- Agora o quê vai fazer com essa informação. Vai depender de você - Ela finaliza calmamente.
Semicerro os olhos, a olhando com atenção.
- Você não está preocupada com ele?
- Sei que deveria estar. Mas está na hora de alguém parar meu filho, dele pagar por toda maldade que ele já fez.
- Deus faz a justiça - Forço um sorriso.
- A justiça de Deus pode tardar e você pode não estar com paciência de esperar.
Engulo em seco, soltando o ar dos pulmões.
- Não quero mais ocupar você - murmuro, me levantando - Obrigada por ter me recebido - Ela também levanta.
- Queria poder ajudar você mais.
- Já me ajudou o suficiente.
- Espero que sim - Ela se aproxima, afagando minha barriga gentilmente - Que Nossa Senhora lhe dê uma boa hora.
- Obrigada - sussurro, antes de me afastar, indo em direção do portão que se abria devagar.
Dentro do meu carro, demoro algum tempo até conseguir dar partida.
Tentava digerir tudo que havia escutado, enquanto tentava decidir o quê faria em seguida.
Gael estava no Complexo do Alemão.
Tentar entrar no Alemão sem ser notada, era uma tarefa quase impossível e tentar matar Gael lá, era sem dúvida impossível.
Sozinha não conseguiria.
Mas...
Se tivesse ajuda, com certeza conseguiria.
Pego meu celular dentro da minha bolsa, digitando uma mensagem rapidamente, sentindo minha mente fervilhar e meu coração acelerado dentro do meu peito.
Sou o mais direta possível.
Preciso ver você.
Envio a mensagem, jogando novamente o celular dentro da bolsa, não esperando uma resposta. Invés disso, ligo o motor do carro, me apressando em sair do Complexo da Pedreira.