PRÓLOGO — A CIDADE NUNCA DORMIA
A cidade nunca dormia.
Mesmo depois da meia-noite, as luzes dos arranha-céus continuavam acesas, refletindo no asfalto molhado como se cada gota de chuva escondesse um segredo.
Helena Valmont sempre gostou da noite.
Era no silêncio que a mente humana revelava o que passava o dia inteiro tentando esconder.
Ela deixou o Instituto de Psicologia Forense pouco depois das duas da manhã, exausta após horas analisando um caso que insistia em permanecer sem respostas. O estacionamento estava vazio, exceto pelo som ritmado da chuva atingindo o concreto.
Respirou fundo.
Algo parecia... diferente.
Não era medo.
Era uma sensação antiga.
Como se alguém a observasse.
Ela olhou ao redor.
Nada.
Apenas carros estacionados, pilares de concreto e lâmpadas brancas que piscavam de tempos em tempos.
Apertou o casaco contra o corpo e caminhou até seu carro.
Cada passo ecoava pelo estacionamento quase vazio.
Tac.
Tac.
Tac.
Então...
Outro som.
Um passo.
Ela parou.
O silêncio voltou a dominar tudo.
Helena fechou os olhos por um instante.
"Você está cansada."
Era isso.
Precisava ser.
Entrou no carro e ligou o motor.
Antes de sair, seu celular vibrou.
Uma única notificação.
Número desconhecido.
"Dirija com cuidado. Está chovendo muito esta noite."
Seu coração desacelerou por um segundo.
Depois voltou a bater forte.
Ela nunca havia visto aquele número.
Apagou a mensagem imediatamente.
Talvez fosse engano.
Talvez.
Enquanto deixava o estacionamento, não percebeu que, do último andar do prédio em frente, alguém observava os faróis de seu carro desaparecerem entre a chuva.
Sem pressa.
Sem desviar o olhar.
Como fazia havia muito tempo.
Muito antes de Helena imaginar que sua vida já havia cruzado a de um desconhecido.
Naquela noite, ela acreditava estar indo para casa.
Não fazia ideia de que, para alguém, ela sempre esteve exatamente onde deveria estar.
O limpador de para-brisa ia e voltava em um ritmo quase hipnótico.
A chuva transformava a cidade em um borrão de luzes e sombras, enquanto Helena mantinha as duas mãos firmes no volante. Tentava convencer a si mesma de que a mensagem recebida não significava absolutamente nada.
Um engano.
Uma coincidência.
Nada além disso.
Ainda assim, por impulso, olhou pelo retrovisor.
Um sedã preto seguia alguns carros atrás.
Ela desviou o olhar.
Não havia motivo para paranoia.
No semáforo seguinte, o sinal fechou.
Helena respirou fundo e levou a mão ao celular. Abriu novamente a conversa do número desconhecido.
A mensagem havia desaparecido.
Franziu a testa.
Ela tinha certeza de que não a apagara. Não daquela vez.
Um arrepio percorreu sua nuca.
O sinal abriu.
Ela acelerou.
Quinze minutos depois, estacionou em frente ao edifício onde morava. O porteiro acenou com simpatia, como fazia todas as noites.
— Boa madrugada, doutora Helena.
Ela sorriu de maneira discreta.
— Boa madrugada, Alberto.
Entrou no elevador e observou o próprio reflexo nas portas de aço. Havia olheiras sob seus olhos, mas não era o cansaço que a incomodava.
Era aquela sensação insistente de que algo invisível caminhava ao seu lado.
Quando chegou ao apartamento, trancou a porta, retirou os sapatos e deixou a bolsa sobre a bancada da cozinha.
Silêncio.
O tipo de silêncio que normalmente a confortava.
Naquela noite, porém, parecia pesado demais.
Foi até a varanda.
A chuva continuava caindo sobre a cidade.
Lá embaixo, carros cruzavam as avenidas como pequenos riscos de luz.
Helena fechou os olhos por alguns segundos.
Então os abriu.
Do outro lado da rua, no terraço de um edifício comercial, havia uma única silhueta.
Imóvel.
Distante.
Era impossível reconhecer um rosto.
A figura permaneceu ali por apenas um instante.
Quando um relâmpago iluminou o céu, desapareceu.
Helena prendeu a respiração.
Piscou algumas vezes.
Não havia mais ninguém.
Ela deu um passo para trás e fechou a cortina de uma vez.
— Você está ficando impressionada... — murmurou para si mesma.
Sem perceber, deixou a xícara de café sobre a mesa da sala e foi tomar um banho quente, tentando afastar a estranha inquietação.
Do lado de fora, a chuva continuava lavando a cidade.
Em outro ponto, muito acima das ruas iluminadas, um homem permanecia em silêncio diante de uma enorme parede de monitores.
Cada tela exibia um ângulo diferente da cidade.
Em uma delas, o prédio de Helena.
Em outra, a entrada do instituto.
Em outra, o estacionamento vazio.
Ele observou a imagem do apartamento escurecer quando a luz do banheiro se acendeu.
Seus dedos deslizaram lentamente sobre uma pequena fotografia já desgastada pelo tempo.
Nenhuma emoção atravessou seu rosto.
Apenas uma calma inquietante.
Então, quase em um sussurro, como se aquelas palavras fossem uma promessa feita muitos anos antes, ele disse:
— Ainda não...
Os monitores continuaram iluminando a sala escura.
E, pela primeira vez, o leitor podia ter certeza de apenas uma coisa.
Helena Valmont nunca esteve sozinha.
Só ainda não sabia disso.