Pietro Kuhn
Dezenove anos
Depois da viagem de família, precisei viajar para a Rússia, um dos carregamentos tinha sido roubado e eu precisava verificar quem havia feito isso.
Assim que eu desci do meu carro em frente a boate que tínhamos de fachada, um dos nossos homens já me esperava.
— Senhor! — Boris me cumprimenta.
— Tem certeza que ele é o informante? — pergunto, dobrando as mangas da minha camisa branca e puxando minha própria arma do quadril, engatilhando-a.
— Sim — afirma puxando sua arma e destravando.
Ele abre a porta do bar e seguimos pela lateral que dá acesso ao estoque, onde tinha uma passagem secreta que dava para o subsolo.
Boris aperta um botão que faz a parede vir um pouco para frente, onde a empurra, digitando uma senha e seguimos para dentro da sala que tinha isolamento acústico, o que nos dava privacidade para nossos trabalhos e negócios.
— Então é você! — afirmo enquanto encaro o homem. — Acredito que você não tenha entendido porque foi treinado e contratado. — Dou a ele um sorriso sarcástico. — O que você acha, Boris? — Caminho de um lado para outro.
— Tenho a mesma opinião que o senhor — afirma.
— Então vou explicar, Gusman, pois acredito que não tenha entendido. — Me sento na cadeira de madeira à sua frente.
Gusman está sentado numa cadeira velha e enferrujada, e seus braços e pés estão presos com uma corrente de metal. A camiseta que veste está com algumas manchas de sangue, seu rosto com alguns hematomas e não consegue abrir um dos seus olhos devido ao inchaço.
— Senhor… m-me… per-perdoe! — suplica.
Estava colocando em prática tudo o que me foi ensinado, essa era a terceira vez que meu pai e meu irmão me deixavam resolver as coisas da máfia.
— Cala a boca seu desgraçado — falo sem paciência, — você foi contratado para se infiltrar na máfia inimiga e trazer notícias sobre ela. — Me levanto e encosto minha arma em sua cabeça. — E não dar notícias nossas para eles.
— Senh… — Sua voz sai num fio, mas eu não quero ouvir.
— Já mandei calar a p***a dessa boca! — Me mantenho firme. — Não irei prolongar as coisas, pois quero estar presente no evento do ano.
Gusman chora descontroladamente e entre um soluço e outro pede perdão.
Não tinha tempo para torturá-lo, pois no dia seguinte será o casamento do meu irmão com a Bella e eu estou ansioso para ver Donna novamente.
— Seu corpo será entregue a sua família — faço uma pausa — pra que todos saibam que a familie Kuhn não brinca.
— Per-per-perdão…
— É meio tarde pra pedir perdão — falo, disparando a arma.
— Senhor… — Boris se aproxima me estendendo um lenço para poder limpar minha arma.
— Não esqueça de enviar o corpo dele como um aviso para todos que ousarem nos trair — aviso saindo para fora do lugar.
— Claro, senhor. — Ouço seus passos me acompanhando. — O senhor passará a noite… — Faz uma pausa. — Ou melhor, a madrugada no país?
— Não. Vou para o hangar — aviso. — Iam abastecer o jatinho para voltarmos hoje mesmo.
— Certo, senhor.
Entro em um dos carros que estava me esperando e seguimos para o hangar.
Um pouco mais de meia hora depois estou decolando, e em menos de dez horas estaria pousando na Itália.
O voo foi tempo bastante para me fazer pensar sobre casamentos e filhos. Sabia que em algum momento meu pai cobraria isso, e não poderia escapar, por ser uma “regra” dentro da máfia.
Donna poderia ser uma esposa perfeita, mas a sua atitude na noite do noivado, me faz duvidar, afinal uma boa esposa precisava ser fiel e acatar minhas ordens.
Estava seguindo para casa, já se passava um pouco mais das 18h, tinha que me arrumar às pressas para chegar a tempo ao casamento e ver mia piccola.
— Senhor Pietro… — Saio do meu devaneio quando ouço a voz do Boris. — Chegamos.
— Obrigado. — Olho para pela janela do carro e percebo que estou em casa, e que estaria em breve no “castelo”.
Donna McNight
Dezessete anos
Acordo com a claridade que vem da janela e me recordo que chegou o tão sonhado dia para a nossa família. Eu precisava acordar a sorella, o que me fez lembrar que já havia um tempo que Bella havia perdido a memória e no fundo eu sabia que ela estava com medo de casar com um estranho, mas depois do acidente, ela perdeu o brilho que tinha antes, como se tudo no Thomas fosse o motivo do seu sorriso e brilho diário.
Isso significava que mais um casamento por contrato estava dando certo, havia uma paixão entre eles, ou até mesmo um amor, porém, isso não me fazia mudar de ideia sobre um casamento. O que aconteceu com nossos pais e o que estava acontecendo com Bella podia nunca vir a acontecer comigo.
Mas, no fundo, eu pelo menos tinha uma pequena esperança de ver Pietro novamente.
— Não, Donna, pare de pensar nessas coisas — murmuro para mim mesma. — Isso nunca vai acontecer comigo, e eu não quero ser a p***a de uma esposa troféu.
Mas eu não tinha tempo para pensar nisso, não era o meu momento. Então, deixo os pensamentos de lado e me coloco em pé, me apressando para o quarto de Bella, porque alguém tinha que levantar o clima dessa casa e no momento, eu parecia ser a única consciente disso.
— Teffo… — Abro a porta aos berros. — Levanta, hoje é o casamento da Bella.
— Sai daqui, Donna… — ele reclama.
— Não, levanta logo! Qual é, não pode me deixar sozinha nessa! — resmungo.
— Largue a coberta... está cedo demais para alguém ser feliz ou fazer qualquer coisa — ele continuou a reclamar, como o bom m*l-humorado que ele era. E quando eu vi que não iria vencer, simplesmente desisto e o largo ali.
Eu podia dar conta de tudo sozinha e tentaria dar. Então, coloco o meu melhor sorriso – mesmo que meio forçado – e vou direto para o quarto de Bella. Ela estava feliz antes do acidente, parecia apaixonada por Thomas e eu sabia que logo que as memórias dela voltassem... minha sorella voltaria a sorrir do mesmo jeito que antes.
Bella só precisava que alguém estivesse feliz com esse dia.
— Sorella, acorda. — Entro aos gritos no seu quarto. — Hoje é o grande dia!
— Até parece que você é a noiva — ela comenta enquanto eu me jogo na cama dela.
— Eu quero me casar só para usar o vestido de noiva — declaro. — Sou apaixonada por vestidos de noivas — eu digo e essa parte não era mentira, eu amava folhear as revistas e ver os programas de televisão, adoro o estilo, os designers.
— Desde quando? — pergunta.
— Desde quando fomos no seu noivado e eu decidi olhar revistas de noivas e os programas de TV. — Suspiro. Mas isso não significava que eu queria me casar, pois uma coisa não tem nada a ver com outra, na verdade... eu me casaria, se pudesse me divorciar no dia seguinte.
— Meninas, se levantem. — A nossa mamma entra no quarto, nos chamando. — Vamos para o SPA, dia de princesa.
Ah, um SPA, era tudo o que eu mais amava e queria no momento.
***
Já estava para anoitecer, Bella estava no seu quarto terminando a maquiagem e chegando a hora de finalmente vestir o seu vestido.
Eu estava no quarto ao lado do Teffo, há pouco a maquiadora tinha finalizado seu belíssimo trabalho comigo e eu estava magnífica.
Me olho no espelho, admirando a maquiagem que tinha sido feita; os olhos suaves e os lábios intensamente pintados com um batom rosado, que harmonizava perfeitamente com o meu vestido longo, também nessa tonalidade. O vestido com as costas nuas e uma f***a numa das pernas.
— Donna… vamos? — Teffo me chama parando na porta do meu quarto. Apenas concordo com um leve aceno. — Você está linda, Donnatela — ele diz com um sorriso singelo.
— Você também não está nada m*l. — Retribuo o sorriso, meu irmão gêmeo estava trajando um smoking cinza que realçava seus olhos verdes. — Em breve será sua vez — afirmo pegando minha bolsa em cima da cama e caminhando em sua direção, Teffo apenas assente levemente com a cabeça.
Percorremos até a entrada da mansão, onde havia uma limusine nos esperando. Nossos pais, assim como o restante da família, já estavam no local do evento.
Pietro Kuhn
Dezenove anos
Eu permanecia encostado no parapeito ao lado do quarto em que o meu irmão estava se arrumando, estava contemplando cada convidado que chegava, na espera de encontrar meus olhos verdes favoritos.
Por esse motivo, pego a carteira de cigarro que estava no bolso de trás da minha calça, acompanhado do isqueiro dourado com o brasão da família Kuhn. Coloco o tabaco em meus lábios e aperto o acendedor, fazendo com que uma pequena fumaça subisse assim que dou a primeira tragada.
Meus olhos se atentaram novamente para a entrada do local, noto uma limusine se afastando e quando me dou conta, a mia piccola estava com o braço entrelaçado com o do seu irmão. Não posso negar que fiquei hipnotizado com a sua beleza realçada no vestido que ela estava usando.
Apago rapidamente o cigarro, entrando no quarto e jogando a bituca no cinzeiro da mesa de centro.
Saio do quarto às pressas, descendo a escadaria como se não houvesse amanhã. Quando coloco o meu pé no último degrau, Donna está passando pela porta principal ao lado do seu irmão. Sinto meu peito palpitar quando nossos olhares se cruzam.
Céus! O que é isso que estou sentindo por essa garota?
Com certeza não é amor, eu devo estar perdendo de vez o juízo para estar tão ficcionado em uma garota que nem tem idade para beber.
Mesmo assim, um sorriso genuíno surge em seus lábios, seus olhos amendoados parecem duas esmeraldas, seu corpo está perfeitamente desenhado dentro do tecido rosado e se eu não soubesse quantos anos tinha, ela facilmente se passaria por uma garota da minha idade.
Respiro fundo e quando dou um passo em sua direção, Henry McNight surge, abraçando a filha em seguida do filho.
Após a cerimônia, todos os convidados vão para o salão principal, onde aconteceria a festa, e meus olhos infelizmente não pareciam querer se afastar de Donnatela. E lógico que para piorar a minha situação, ela me encarava com a mesma intensidade.
— O que você está procurando? — A voz de Brian se fez presente logo atrás de mim e eu a perco de vista enquanto ela se afasta em meio aos convidados.
— Nada — minto, entornando um copo de whisky.
— Nada? — Arqueia uma de suas sobrancelhas e leva a taça de champanhe para a boca. — Certo, então não deve ser do seu interesse saber que Donna McNight acabou de entrar no banheiro da ala oeste — ele comenta dando de ombros e seguindo para direção contrária.