Vinte e Sete

1663 Words
Cherry narrando Me sento no meu lugar finalmente decidida: eu vou me demitir hoje! Faz mais de dois anos que trabalho na multibilionária empresa do senhor Queen. Sou sua secretária todo esse tempo, uma excelente, por sinal. E eu estou cansada de ser a número 27. Exatamente, ele nem se importou em aprender meu nome, e já se passaram mais de dois anos, caramba. Eu juro, em todo esse tempo ele nunca se dignou a me olhar. Ele nunca levantou a cabeça, sempre no celular, no computador, falando com alguém, e eu sei literalmente tudo sobre esse homem. Como alguém pode me tratar igual a nada, sendo que sou eu quem faz sua vida funcionar? Eu planejo cada aspecto para ele exatamente como pedido e não recebo o mínimo “mandou bem”, “obrigado, Cherry”. — 27, eu preciso da mesa de reuniões pronta em sete minutos e trinta segundos — ele passa dizendo e não me dá tempo de responder. Eu nunca tive a oportunidade de falar com ele. Eu até pensei que tive, mas aí descobri os seus fones. Ele realmente nunca nem ouviu minha voz. Por isso eu preciso pedir demissão. Quero que ele me escute e me veja pelo menos uma vez, nem que seja simplesmente para me ver partir. Eu mereço isso. Penso nisso já há um tempo, então me movimentei fazendo uma boa poupança. Consegui arrumar uma ótima nova vaga. Me levanto com a coragem que reúno há alguns dias. Seguro a carta feita à mão onde peço minha demissão. Tenho a cópia do RH e a dele, é claro. Sei que ele não vai guardar, mas eu fico feliz imaginando isso. Ando tranquila até sua sala, sabendo que já preparei o que ele me pediu antes mesmo do infeliz chegar. Ele nem pode ser chamado assim, na verdade. É igual a um robô, não tem sentimentos. Bato na porta e, como sei que sua resposta é sempre “não agora”, eu entro: — Não autorizei sua entrada — ele fala, e ando em silêncio até sua mesa, deixando o papel. — Aqui está, senhor. — Ele continua com os fones, mas ao menos viu o papel que coloquei em sua mesa. Ele passa rapidamente o olhar e o descarta na mesa. Grunho de raiva. Nem para isso ele consegue prestar atenção. Saio elegantemente pela sala, mas eu queria mesmo era pisar nele. Bato a porta um pouco forte, mas, como sempre, ele não diz nada. — Oi, Cherry, eu fiz café, querida. — Sorrio para a pessoa que mais gosto na empresa. Para muitos eu sou indiferente, e tudo bem, mas tem alguns colegas de quem gosto muito. — Obrigada, Cida. — Ela me abraça antes de me entregar a pequena xícara. — Nunca vi duas pessoas gostarem de café preto sem nada. De amargo já basta a vida — ela fala, e dou risada. Ela sai para o escritório dele e rapidamente volta com a expressão triste. — O que foi, Cida? — pergunto, mas já sei a resposta. — Eu fico com dó desse menino. Você sabe que eu trabalho aqui há oito anos. Vi esse menino construindo e fazendo a empresa crescer. Ele sempre foi centrado dessa maneira, sempre sozinho. Acho que nunca o vi sorrir. É tão triste. — E amargo. Não podemos ficar esperando as pessoas mudarem. Vem comigo, Cida. — Mas nunca, menina. Ainda acho bobeira você querer se demitir. Um emprego tão bom. — 27, reunião — o senhor Thomas fala, e pego meu notebook, o seguindo. Vejo os olhares dos diversos homens da reunião em mim assim que chegamos. Isso também me incomoda muito. Me sento no meu cantinho fora da mesa, mas onde ainda posso ouvir e anotar tudo de importante. Essa mini mesa no canto já existia aqui antes de eu chegar. Acho que uma das 26 antes de mim deve tê-la colocado. Não faço a menor ideia. [...] A reunião termina e finalmente dá a hora do almoço. Saio após todos da sala e pego minha bolsa. Só tenho que me ajeitar no banheiro e posso ir. Eu tenho esse probleminha. Bem, quase ninguém sabe sobre isso, tirando a minha mãe, que literalmente viu o começo, mas... eu sou lactante. Não, eu não tenho filhos. Não, eu não tive nenhuma “sucção” ou algo assim, até porque eu não tive esse tipo de relação com homens até agora. Simplesmente veio um dia. Me mandaram até para o psiquiatra, achando que eu tinha gravidez psicológica. Isso acontece desde que eu tinha dezenove anos. Eu estava finalizando o primeiro ano da faculdade e me abalou muito, mas consegui terminar os três anos e estou aqui, ainda sendo uma bombinha de leite, mas inteira. Já até pensei em doar esse leite, mas os hospitais não aceitam. Já até provei e tem gosto de água com açúcar. É horrível. Então só tiro e jogo fora. É horrível, me sinto repugnante por isso. O único benefício é que me deixa com p****s lindos de manhã. Me arrumo no banheiro e, quando estou saindo, vejo meu chefe retornar à sua sala. Sem pensar muito, vou atrás rapidamente. Dou uma batida na porta, mas ele não se vira enquanto procura algo na sua mesa: — 27, eu vi seu pedido de demissão. Eu te dou um aumento de dez por cento. Não precisa ir embora. — Eu não quero — falo, e finalmente vejo que ele me escutou. m*l consigo manter a euforia. — O quê? — ele de repente se vira e sobe a cabeça. Congelo sob seu olhar, que finalmente me analisa. Quase consigo ver suas engrenagens soltando fumaça enquanto ele analisa cada pedaço do meu corpo. Isso só me deixa mais brava. Esperei todo esse tempo para ele ainda ficar confuso comigo? Não consegue nem me tratar como uma pessoa normal? — Eu cansei de ser a 27. Estou oficialmente cumprindo o meu aviso prévio — falo, mesmo sendo mentira. Só começaria amanhã. Mas nem uma pequena mentira pode diminuir esse sabor. Viro as costas para ele e saio desfilando. Esse é meu momento. Saio sorrindo até o elevador, que por sorte já estava no meu andar. As portas começam a se fechar quando o vejo sair de sua sala. Que pena, eu poderia ter dado um tchauzinho. Aproveito a viagem para passar pelo RH. Deixo minha carta e saio sorridente até meu restaurante favorito. Em frente à empresa tem o melhor mousse de chocolate que já provei. Vou sentir saudade dessa comida. Me sento no lugar de sempre e sorrio para meu garçom favorito: — Senhorita Ruiva, o mesmo de sempre? — Dessa vez, com uma taça de vinho tinto, por favor. — Comemorando algo? — Minha demissão — falo, e ele arregala os olhos, mas ri. — Se isso te faz feliz, pode deixar que vou trazer mousse extra para a senhorita. — Obrigada. Não consigo parar de sorrir. Nem tão cedo vou esquecer aquele olhar dele. Tão bonito. Pena que é um robô. [...] Pago a conta e carrego meu potinho extra de mousse para viagem. Agradeço ao meu garçom enquanto caminho de volta à empresa. Vejo um dos seguranças me olhar estranho, mas sorrio do mesmo modo. Eu estou feliz, não tem como evitar. Divido o elevador com alguns homens que me olham apenas por um segundo para logo voltar ao seu assunto. Olho para minhas unhas até o elevador ficar vazio e, por ventura, chegar ao último andar. Vejo a Cida voltando da sala do nosso chefe. Ela me olha ansiosa e vem correndo até mim: — Menina, eu acho que alguém puxou o fio dele. O garoto estava todo pensativo quando passei lá. Ele olhou para a porta quando entrei. Ele nunca fez isso. — Sério? — pergunto, estranhando. Ele nunca muda sua atenção. — Sim, te juro, Cherry. Mas logo voltou a mexer no computador igual a um louco. O olho dele é azul, parece uma piscina clarinha. Reviro os olhos para a sua fala e a vejo rir. Me assusto quando ela para do nada e olha séria para trás: — Cida? — 27, para a minha sala, agora! — Minhas pernas fraquejam um pouco pelo susto, mas me viro reconhecendo meu chefe. Ele parece enorme parado dessa maneira. Acho que, se ele respirar mais forte, seu peito fará sua camiseta rasgar. Passo por ele devagar e não vejo os olhos claros de mais cedo. Parecem mais escuros nesse momento. Seguro meu pote de mousse mais forte quando ele aponta a poltrona de visitas. Me sento educadamente e escuto seus passos pesados até que se sente. Ele fica em silêncio e, em choque, percebo que ele me encara todo esse tempo, realmente me olhando. — Desculpa, mas sobre o que o senhor deseja discutir? — pergunto, mas ele continua em silêncio. Credo. Quando seu despertador de quinze minutos toca, percebo que já estamos há muito tempo nos olhando. Eu vou embora. Começo a me levantar e vejo finalmente ele reagir: — Eu vou embora, senhor Queen. Se você não vai dizer nada, tenho coisas para fazer. — Sente-se — ele fala grosseiramente, e obedeço por instinto. Ele se levanta e fica em minha frente, extremamente perto. — Você não vai se demitir — ele manda, e aperto os olhos com raiva. — Você é minha secretária. — Pelo tempo do RH arrumar minha demissão e colocarem alguém no meu lugar — falo, cruzando as pernas, e vejo seu olhar descer. Para quem não me olhou durante um ano, agora está vendo demais... Me levanto, ficando muitíssimo perto dele. Mesmo com salto, ainda estou na altura do seu peito. — Não adianta falar grosso comigo. Eu já fiz o que eu queria. Agora vou terminar meu serviço e irei embora. Tchau, senhor. Me viro com força para meu cabelo bater contra ele. Saio de sua sala tentando conter o sorriso de satisfação. É quase impossível.
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