Saul:
O dia tá acabando olho pro carro, que já tá ganhando jeito de carro foi um trampo dos infernos montar um carro zero do nada é mais difícil que lidar com os velhos o chefe, de duas em duas horas, manda mensagem querendo saber se tá tudo no prazo seja lá o que vão fazer com esse carro, é importante. Mauro e Sofia tão trabalhando no outro motor um reserva, caso algo dê errado.
Quem quer esse carro pra fuga deve tá fugindo do próprio inferno, só pode.
Marcos me interrompe.
—Marcos: Cara, não chegou a carta.
Olho pra ele todo dia ele esperando essa bendita carta, só fala disso já tô com a cara cheia...
— Deve ter atrasado.
digo, dando de ombros, apagando o cigarro com o pé.
—Marcos: Será?
ele pergunta, meio perdido.
— Vou tomar banho e já tô lá.. não me incomoda.
falo, já me afastando vou pra cabine de controle, olho as câmeras minha Pérola tá desenhando tá tão linda... Pego uma roupa qualquer e a toalha, sigo pro banheiro a água aqui é gelada, perfeita pra aliviar o corpo do calor do dia o sol castiga, e as manchas de graxa nas mãos custam a sair minhas mãos ásperas... não gosto disso se eu tocar a Priscila, posso machucá-la, sei lá a pele dela é tão macia, tão delicada.
Termino o banho, me sentindo renovado me seco, coloco a roupa, ajeito o cabelo ainda pingando tá calor, melhor assim saio do banheiro, e o Marcos já tá na fila pra se banhar, com aquela cara de cachorro sem dono.
— Essa cara tá de doer, hein.
digo, rindo.
—Marcos: Me erra..
ele retruca, sem ânimo.
Passo por uma mesa, pego um chiclete pra enganar o estômago lembro que nem comi hoje que se dane caminho até o quarto dela, afastado, no fundo da propriedade, passando por pneus velhos e um galpão sujo, cheio de descartes parece nada, mas é tudo.
Chego, olho pros lados nada de errado abro a porta, destrancando a fechadura entro, e ela me olha, sem se assustar hoje, ela tá calma.
—Priscila: Demorou
diz ela, a voz leve sorrio de leve hoje ela tá linda, doce.
— Desculpa tá desenhando?
pergunto, me aproximando sento do lado dela, apoiando as mãos na mesinha olho pra ela e pro desenho.
—Priscila: Me lembrei de um lugar. Quis desenhar.
— Tá bem que lugar é esse?.
pergunto, olhando não reconheço nada parece um lugar com livros, estantes.
—Priscila:Não sei acho que alguém me levava, mas não lembro..
ela diz, os olhos distantes.
— Não tem pressa pra lembrar hoje tu tá bem
falo, tentando soar leve.
—Priscila: Aham...queria sair pro pátio já saí pro pátio?.
ela pergunta, me pegando desprevenido olho pra ela, sério antes que eu responda, ela continua.
—Priscila:Tentei abrir a porta, e não deu eu sempre fico trancada aqui?
— É pelo teu bem.
digo, a voz pesando.
—Priscila: Tem mais gente como eu aqui?.
ela insiste, os olhos grandes, redondos, sem piscar a pele pálida pela falta de sol me encara, e eu me sinto um maldito por mentir.
— Tu ainda não pode sair, mas já tá quase pronta.
falo, me levantando, olhando pra ela por um tempo ela espera algo mais, mas eu sou covarde...
— Daqui a pouco a comida chega tá com fome?
—Priscila: Não.
ela responde, seca.
— Tá certo
digo, me virando devagar.
—Priscila: Espera..
ela chama, levantando a mão olho pra trás.
—Priscila:Pode dizer pra minha mãe que eu quero vê-la?
Fico parado por milésimos de segundos. Respiro fundo, só mexo a cabeça concordando ela não lembra hoje que a mãe morreu eu podia falar, mas ela entraria em crise, e não precisa disso saio, me sentindo um lixo, impotente ver ela viver numa realidade paralela dói, mas se ela precisa disso pra ficar bem, eu dou.