Saul:
Acordei e olhei meu relógio de pulso são cinco da manhã meu corpo já está acostumado, anos de serviço sendo militar moldam hábitos, bons e ruins o r**m é que sou metódico.
Se não levantar em um minuto, começo o dia m*l levanto, arrumo minha cama aqui sou o mais organizado meu irmão, Marcos, é o oposto de mim vive a vida sem regras, sem pressa vou pro banheiro, verifico se tudo está no lugar, alinho as toalhas e só então escovo os dentes, lavo o rosto, me barbeio, passo loção e estou pronto pego minha camiseta, coloco o tênis e saio do quarto.
Dou de cara com o Davi ele só me olha Davi não dorme à noite, só de dia quando o mundo acorda, ele vai dormir traumas deixam sequelas saio, e aqui fora o dia começa a ganhar cor a sucata tá ali, passo por ela e sigo caminhando pro fundo da propriedade um ano atrás, resgatei minha pérola mais preciosa, mas ela não sabe. Priscila tem mudado muito, mas ainda não está cem por cento entro no quarto antes do dela e vejo as telas aqui, monitoro ela.
Tenho sensores de movimento que me avisam se ela se mexe o quarto é uma versão maior do que ela tinha lá no hospício, claro, com melhorias olho e vejo ela se mexendo na cama ela se senta na beira do colchão, olhando pros lados, e vai até o banheiro.
Hoje ela consegue fazer isso quando chegou, não conseguia, era só na fralda ela tinha desaprendido, fora os remédios que a dopavam e a deixavam desorientada respiro fundo só de lembrar, meu peito dói. Ela ganhou peso nesse tempo aqui eu faço questão de mantê-la ativa, leio pra ela, faço companhia, mas ela ainda não lembra de mim... cem por cento..
Batidas na porta olho é a Sofia, mulher do meu primo, filha do chefe e enfermeira da Priscila.
— Sofia: Hoje trouxe cedo o café da manhã dela, pra ela se banhar logo vou ter que sair pra fazer um trampo.
— Tá bom, pode entrar.
Ela sai com a bandeja, usando até um jaleco branco com crachá ideia dela olho enquanto ela entra Priscila gosta dela Sofia a abraça tô olhando elas conversando quando o alarme do perímetro toca só olho pro lado aqui é cercado por muros e alarmes prece um ferro-velho, sucata pra todo lado, mas a gente desmonta e monta carros pros trabalhos menos... propícios. Corro até as telas no canto do quarto o monitor pisca, mostrando o setor oeste da propriedade algo disparou o sensor de movimento ali não é a primeira vez essa semana pode ser só um bicho, um gambá xeretando o lixo, mas não gosto de arriscar não com a Priscila aqui.
Pego o rádio no cinto e chamo o Marcos. Ele atende com aquela voz de quem tá comendo alguma coisa, como sempre.
— Mano, tá onde?
pergunto, já calçando as botas pesadas que deixo perto da porta.
—Maros: Tô no galpão, desmontando um motor que foi?
Ele cospe as palavras, meio preguiçoso.
— Alarme disparou no oeste vai lá ver e leva o Davi, ele tá acordado.
—Marcos: Davi? Aquele maluco não dorme. Tá, já vou.
Ele desliga, e eu sei que vai demorar uns minutos pra ele se mexer volto o olhar pras telas Sofia tá dando o café da manhã pra Priscila, que segura a colher com as mãos trêmulas, mas tá conseguindo comer sozinha isso é progresso um ano atrás, ela nem segurava talher Sofia fala com ela, voz calma, como se fosse uma criança não sei se isso me conforta ou me irrita Priscila sorri, mas é um sorriso vazio, como se não entendesse direito o que tá acontecendo.
Meu peito aperta de novo pego minha jaqueta e saio pro quintal o sol tá subindo, o céu ficando alaranjado o cheiro de graxa e metal tá forte hoje passo pela sucata, montes de peças enferrujadas e carcaças de carros que parecem prontas pra contar histórias no fundo, o galpão tá com a porta entreaberta, e ouço o Marcos xingando alguma coisa ele tá lá, com uma chave de f***a na mão, suado, mesmo sendo cedo.
— E aí, já foi ver o alarme?
pergunto, parando na entrada.
—Marcos: Tô indo, Saul, calma aí o Davi já tá lá fora, rondando com aquele jeito dele.
Marcos aponta com o queixo pro lado de fora, limpando a mão na calça Davi aparece na esquina do galpão, com a cara fechada, segurando uma lanterna e uma barra de ferro ele não fala nada, só faz um sinal com a cabeça trauma faz isso com a gente ele não confia em ninguém, nem em mim mas é bom nisso, ronda melhor que qualquer cão de guarda.
—Tô indo com ele.
digo pro Marcos.
— Fica de olho nas telas enquanto eu estiver fora.
Ele resmunga, mas concorda volto pro caminho do setor oeste, com o Davi na minha cola o alarme parou de tocar, mas isso não significa que tá tudo bem aqui, as coisas nunca são o que parecem.