Capítulo 03

1511 Words
Abri meus olhos lentamente, pois os sentia pesados, minha vista ainda embaçada não identificava ninguém na sala, somente eu.  Lágrimas escorriam ao meu rosto após me lembrar de que se eu estava acordada provavelmente meu sonho de ser mãe já não seria mais possível. Toquei minha barriga por cima da roupa do hospital, porém não senti nada, nem ao menos dor estava sentindo. Levantei aquele vestido até a barriga e não encontrei pontos. Fiquei sem entender o que ocorrera. Não houve cirurgia?  O certo seria que eu estivesse com uma cicatriz — com um tamanho considerável —, que seria notada facilmente com os meus dedos. A não ser que realmente a cirurgia não tivesse ocorrido, já que não havia outra maneira de retirarem o meu útero sem terem que me "cortar". Logo a porta se abre, e vejo meu médico entrando junto com Lorena, que tinha uma expressão de preocupação.  — Boa noite, Lívia! — Disse o médico perambulando na sala e olhando alguns papéis. Lorena apenas sorriu para mim. — Boa noite, Doutor! Tenho uma duvida. Não tem pontos onde era pra ter ocorrido à cirurgia, houve algum imprevisto?  — Não, Lívia! Na verdade... — Ele mordia a boca, pensando no que falar. — An,  a sua cirurgia... foi confundida com a de Melissa Andrade. — Não estou entendendo. — Estava meio perdida no assunto. Se não fora a cirurgia para eu retirar o útero, qual outra seria?  — Lívia. — E mais uma vez ele parou. — Primeiramente, o hospital e nós médicos pedimos nossas desculpas. Bom como dizia, sua cirurgia foi confundida com uma inseminação artificial. — No momento em que ele deu essa notícia, era como se o mundo tivesse parado, e por um momento eu pensei que poderia dar certo, mas me veio à mente o resultado dos meus exames, que isso não era possível. Apenas se um milagre acontecesse. Então apenas abaixei a cabeça e deixei que ele terminasse. — Mas como você não pode gerar um filho, teremos que remarcar a sua cirurgia. Veremos um dia e lhe falaremos. Peço mais uma vez que nos perdoe. Sua alta será amanhã. Obrigada! Boa noite.  Assim que ele fechou a porta, senti as lágrimas frias percorrerem minhas bochechas até cair na camisola do hospital. Lorena se ajoelhou e segurou minha mão direita. — Eu não tenho palavras, Lívia. — Ela disse e ficou cabisbaixa. Eu a entendia, pois para esse assunto não há argumentos.  — Está tudo bem, Lo. — Limpei as lágrimas que insistiam em cair. — Eu só pensei que poderia dar certo, mas infelizmente é impossível.  — Você ainda pode adotar, talvez dê certo! Tenta. — Já tinha desistido dessa hipótese há muito tempo. Quem não tem um companheiro, as chances diminuem para menos de 50% digamos.  — Não será possível, Lo. O que eu tenho que fazer, é aceitar que eu nunca serei mãe! Apenas isso.  Ela apenas ficou quieta.  Ficamos um tempo quietas, quando percebi que ela havia dormido.  Foi a gota da água para que eu começasse a pensar no Thiago, da forma em que nos "amávamos" eu amei sozinha, porque se fosse recíproco, ele não me deixaria por esse problema, mesmo sendo o sonho dele, era ele que deveria estar ao meu lado me apoiando e segurando minha mão, mas preferiu deixar com que eu me virasse sozinha. Mas tudo bem, uma hora tudo passa não é mesmo? E isso vai passar. Tem que passar.  Ouvia algumas pessoas dizerem que a saudade passa, chega um tempo que não há mais nenhum sentimento envolvido e eu pedia exatamente para que isso ocorresse comigo. Não era possível superar tudo de uma vez só — eu sabia disso —, mas não teria tempo suficiente para pensar no Thiago, sendo que algo mais importante havia afetado a minha vida, o fato de eu não poder ser mãe. Meus olhos começaram a ficar pesados. E por fim, dormi.  Ouvi alguém me chamar, abri meus olhos e vi Lorena sorrindo.  — Acorda! Hora de ir pra casa, seu pai já está aqui. O médico já tirou os aparelhos ligados a você.  — Vamos! — Me levantei em direção à cadeira onde minha roupa estava perfeitamente dobrada. Fui ao banheiro para me vestir e percebi meu rosto inchado, olheiras enormes, meu cabelo castanho claro estava solto e embaraçado, meus olhos estavam profundos.  Tirei aquele vestido hospitalar, coloquei uma calça jeans, e uma blusa branca, na qual estava escrita "I Love NEW YORK" a mesma que Thiago me presenteou.  — Trouxe um presente para você. — Thiago falou, enquanto eu secava meus cabelos.  — O que trouxe? — Perguntei ansiosa pela resposta.  — Isso. — Ele me entregou uma caixa, da cor vermelha. Eu apenas o encarava sorrindo. Desliguei o secador, e me aproximei da caixa, retirando a tampa. A camisa estava por cima.  — Que linda! — Disse com um sorriso enorme, Thiago nunca teve bom gosto para me comprar presentes, mas dessa vez, confesso que tivera acertado. — Tem mais coisas, vai olhando. — Ele me parecia bem ansioso. Retirei a blusa, e logo embaixo havia uma caixinha vermelha aveludada.  — O que é isso? — Perguntei não podendo esconder um sorriso, por imaginar que poderia ser o que eu sempre sonhava. Ele apenas sorriu e tirou a caixinha da minha mão. Ajoelhou-se a minha frente e disse: — Lívia, você aceita ser a mulher da minha vida, a mãe dos meus filhos, minha amante, minha amiga, minha companheira? — Ele respirou fundo, por falar tudo de uma vez só. Eu estava assustada, mas ao mesmo tempo ainda mais apaixonada por ele.  — Sim! Nunca me cansarei de dizer sim,  meu amor! — Abaixei e nos envolvi em um beijo apaixonado.  — Eu te amo! — Ele disse.  — Nunca na mesma intensidade que eu. — Afirmei. Confesso que lembrar-me dos momentos bons que vivemos juntos, deixava-me ainda mais triste, no entanto, não poderia negar que enquanto estive ao lado de Thiago, fui feliz. Infelizmente os cinco anos que eu considerava ter sido os melhores da minha vida, haviam terminado por parte de Thiago. Talvez o sentimento que me consumia ainda continuaria por um bom tempo. Tempo esse que eu deveria seguir a minha vida e esquecer o meu passado. Respirei fundo e sai do banheiro.  — Pronto? — Lorena me esperava sentada na poltrona.  — Pronto! Vamos.  Saímos do hospital e encontramos meu pai no estacionamento.  — Oi, pai! — Lhe dei um beijo no rosto.  — Olá, senhor Paulo. — Lorena o cumprimentou, e entramos no carro.  — O que houve? Você está andando normal. Não fez a cirurgia? — Olhei para Lorena, com uma expressão de dúvida, pois pensei que ela já havia contado.  — Depois converso com você e a mamãe, está bem? Assim que chegarmos em casa. — Ele apenas afirmou com a cabeça e deu partida no carro, e seguimos nosso caminho.  Essa noite eu dormiria na casa dos meus pais, Lorena iria me fazer companhia. Assim que chegamos, subi para o meu antigo quarto, para deixar minha bolsa. E desci novamente para conversar com meus pais.  — Oi filha. — Eles disseram em uníssono.  — Então, eu fui para o hospital fazer uma cirurgia pra retirar meu útero, como vocês já sabem. — Falei de um modo frio, não queria deixar transparecer a minha tristeza. — Mas parece que os médicos, não sei exatamente como, mas conseguiram confundir minha cirurgia com uma inseminação artificial. — Conclui comendo uma torrada com geleia.  — Mas que falta de atenção! — Exclamou minha mãe com irritação.  — Eu não acredito. — Disse meu pai, andando de um lado para o outro. — Eles remarcaram a cirurgia?  — Sim, para exatamente quatro semanas. — Disse comendo minha segunda torrada. Lorena estava encostada no batente da porta.  — Desde quando você gosta de torrada? — Pergunta minha mãe, passando geleia em uma torrada para ela.  — Desde hoje! — Levantei a torrada para Lorena, pra ver se ela queria. Ela sorriu e balançou a cabeça negativamente.  Então depois de comer mais algumas torradas, chamei Lorena para irmos para o quarto.  — Como você está? — Lo me perguntou, aproveite que ela estava sentada na cama, e deitei em seu colo.  — Ah! Estou bem, na medida do possível. — Respondi, olhando para o teto branco e sem graça do meu antigo quarto.  — Livi, se você quiser... Eu posso fazer uma barriga de aluguel. — Ela disse seriamente.  — Está louca? — Perguntei. Mesmo sendo uma atitude bonita da parte dela, é uma loucura!  — Não Livi, não gosto de ver você triste. Você é tudo pra mim! E dói aqui — Ela disse apontando para o coração. — Te ver dessa maneira. Existe alguma melhor amiga, melhor do que a minha? Acho que não! Eu a amo.  — Já disse que te amo? Obrigada! — A abracei. — Mas não posso aceitar! Eu só posso aceitar uma coisa, eu nunca serei mãe. — Deitei novamente no colo dela. — Nunca.    
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