Capítulo 06

1471 Words
Ir caminhando para o meu apartamento nunca fora tão produtivo como naquela noite. Enquanto caminhava pelas ruas desertas e às vezes barulhentas, pensei em diversas formas de expandir os negócios — em relação à farmácia —, tentava de toda maneira colocar algo na minha cabeça que não estivesse relacionado ao Thiago ou então a minha cirurgia que havia sido remarcada. Lorena me ligou algumas vezes na manhã seguinte, querendo saber o motivo pelo qual sumi da balada em que me levara. O motivo era simples, eu não estava preparada para um lugar com tantas pessoas, não estava preparada para receber uma cantada ou beijar alguém novo. Eu precisava estar dentro do consultório para a ultrassonografia em vinte minutos. O problema é que eu pensava demais e talvez esse fosse um dos motivos pelos quais eu sempre chegava atrasada quando o assunto era de extrema importância. Talvez porque se tratava de algo tão particular e importante, estávamos falando de um útero que eu teria que tirar o quão antes possível e nunca ter filhos. — Senhorita Lívia Lima? — A recepcionista da clinica chamou-me, despertando-me dos meus pensamentos. — Sou eu. — Avisei. — Segunda sala à direita, por favor. — Apontou pelo corredor onde eu deveria seguir. Gostaria de saber o motivo pelo qual neguei o pedido da minha melhor amiga para me acompanhar até o exame, eu estava nervosa. Na verdade, Lorena precisava terminar um trabalho e eu não poderia interrompê-la novamente. A médica que havia me indicado o exame era a mesma que estava no consultório, indicando para que eu me deitasse na maca. — Nós iremos apenas fazer a ultrassonografia para analisarmos o seu útero novamente. — Ela explicou simplificadamente. — Há alguma possibilidade de evitarmos a cirurgia? — Perguntei nervosa. — Segundo os exames que você já fez, é quase impossível não haver a cirurgia. — Respondeu. Aos poucos ela começou a passar o aparelho sob a minha barriga — o que gerou certo desconforto — e eu estava prestes a sair daquela sala. Negava-me a olhar para aquela tela, onde eu havia imaginado diversas vezes como se eu estivesse olhando o meu bebê — que agora era impossível —, deixei uma lágrima cair e limpei rapidamente para que não fosse notada pela doutora. — Nossa. — Ela falou, fazendo-me estranhar a fisionomia da sua face, era de total estranheza e ao mesmo tempo de preocupação. — O que está acontecendo? — Perguntei preocupada. Não seria possível que mais um erro houvesse aparecido, seria muito injusto comigo. Ela olhou em minha direção e logo após retornou seus olhos para a tela, mexia a cabeça de um lado para o outro como se não acreditasse no que estava vendo. — Encontrou outro problema? — Perguntei, mas não ouve resposta. — Mesmo que seja algo difícil, prefiro que me conte agora. — Insisti. Dessa vez ela balançou a cabeça positivamente, concordando provavelmente com a última frase que eu disse. — Lívia... Realmente é algo complicado de lhe falar. — Iniciou falando e meu coração a qualquer momento sairia pela boca. — Mas, segundo esse ultrassom, existe um bebê de mais ou menos duas semanas no seu útero. E eu imaginava que não poderia chorar mais do que no dia que descobri que não poderia ter filhos, agora com essa notícia eu havia desabado. Olhava da médica para a tela, apesar de não entender exatamente nada, ela indicou onde estava o bebê, um pequeno borrão. — Eu estou grávida? — Perguntei aos soluços. — Como isso é possível? — Perguntei. — Nós teremos que fazer uma série de exames para descobrir o que aconteceu. — Respondeu. E em vez de ir para o meu apartamento e possivelmente contar a notícia para a minha família, ela me internou naquele dia para fazer os exames. — Você gostaria que eu ligasse para alguém? — A enfermeira que havia ficado responsável pelo meu quarto, perguntou. — Este número. — Indiquei, mostrando o número da minha melhor amiga. — Lorena? — Ela perguntou, olhando o número na tela. — Exato. — Concordei. A enfermeira saiu da sala com o meu celular em mãos para fazer a ligação. Escolhi minha melhor amiga porque provavelmente mamãe e papai poderiam ter um ataque cardíaco com a notícia que eu estava grávida. Talvez a minha ficha ainda não houvesse caído. Pode ser que na minha cabeça tudo fosse apenas um sonho e a qualquer momento eu poderia acordar. Inclinei-me na cama na tentativa de arrumar o travesseiro para que eu pudesse dormir de maneira mais aconchegante. E quem sabe eu tenha dormido por alguns minutos, mas logo fui acordada com a minha melhor amiga entrando desesperada no quarto onde eu estava. Olhou-me com aquele olhar de preocupação, a qualquer momento ela começaria a chorar. — O que aconteceu com você? — Perguntou preocupada. — Vim assim que recebi a ligação de que você havia sido internada. — Acalme-se, por favor. — Pedi. — Será que você pode trazer um copo de água para a minha amiga? — Pedi para a enfermeira que havia feito à ligação. Quem sabe não fosse certo pedir uma água para a minha amiga, sendo que a enfermeira não tinha nenhum dever com ela e sim comigo, mas a mesma agiu com bondade e logo retornou a sala com um copo de água. Assim que Lorena acalmou-se resolvi que seria a hora certa de contar. — Eu não irei mais fazer a cirurgia para remover meu útero, pelo menos não agora. — Comecei a contar. — Como assim? O que houve? — Porque Lorena não podia simplesmente escutar eu terminar de falar? Respirei fundo para não mandar a minha melhor amiga calar a boca. — Eu estou grávida. As minhas palavras foram suficientes para toda a água que estava na boca de Lorena, espalhar-se sob a minha face. É, ela havia cuspido em mim. — Você o que? — Ela perguntou quase aos berros. — Moça, você poderia falar mais baixo? — A enfermeira pediu para ela. Lorena assentiu envergonhada com sua atitude e seus olhos atentos voltaram em minha direção. — Você está grávida? — Perguntou baixo. — Exatamente. — Respondi. Seus olhos encheram de lágrimas assim que ouviu a minha confirmação. — E como isso aconteceu? Como é possível? Até ontem você não poderia ter filhos? — Lorena fazia muitas perguntas ao mesmo tempo. — Eu vim até a clinica para fazer o exame, só para checar se tudo estava certo para a minha cirurgia. — Comecei a contar. — E então a médica descobriu que existe um bebê dentro de mim. — Expliquei. Ela sorriu e voltou a chorar. E então nós choramos juntas abraçadas. — Eu vou ser titia. — Falou entre as lágrimas. — A médica informou que teremos que tomar cuidado, já que será uma gravidez de risco por conta dos meus problemas com o meu útero. — Avisei. — Você terá que ficar de repouso? — Lô perguntou. — Segundo ela só após o sexto, sétimo mês da gravidez. Respondi. A enfermeira havia me avisado que dentro de algumas horas eu receberia alta, porque logo terminaria de fazer os outros exames que faltavam e não era necessário que eu ficasse internada. Minha melhor amiga ficou aliviada e estava louca para sair contando para todos que eu iria ser mamãe. — Você já imaginou como o Thiago poderá reagir quando souber da notícia? — Perguntou curiosa. — Tenho pensado muito nisso. Afinal estou grávida de outro homem, eu nem sequer sei seu nome. — Respondi. — Ele realmente é o seu milagre. — Comentou. — Eu gostaria de conhecê-lo para agradecer, por mais que ele não saiba da minha existência e desse bebê que está dentro de mim, se não fosse a sua doação e esse erro médico eu não estaria grávida. — Afirmei. Lorena pensou um pouco e confesso que a sua fisionomia de quem a qualquer momento aprontaria alguma coisa estava me deixando curiosa. — No que você tanto pensa? — Perguntei. — Seria interessante se arrumássemos uma forma de encontra-lo. — Comentou. — O problema é esse, não existe essa forma. — Contei. — É totalmente restrito o perfil do doador, a enfermeira já me explicou. Lorena sorriu com o que eu falei. — Ah, mas não é nada que uns contatos não resolvam. — Deu de ombros. Enquanto minha amiga focava sua atenção na televisão, ou quem sabe estivesse apenas olhando para um ponto fixo e pensando em seu plano para encontrar o “meu milagre”, fiquei imaginando como tudo aconteceria. Qual será a reação do meu ex-noivo ao saber que agora eu estava grávida, sendo que ele terminou comigo porque eu não teria um bebê? Será que eu conseguiria encontrar o doador para agradecê-lo ou recompensá-lo de alguma forma?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD