Alexandre, meu pai, não é exatamente o cara mais musculoso do mundo, mas ele é alto pra caramba, e está em muito boa forma pra alguém de quase cinquenta anos. Seu cabelo castanho claro é salpicado de fios brancos, e há algumas rugas minúsculas ao redor dos seus olhos azuis, idênticos aos meus.
— Quer ajuda com essa aí? — Pergunto assim que volto para a sala, vendo-o erguer uma caixa quase do meu tamanho.
— Tudo bem, Ela é mais leve do que parece. Mas você pode ir ajudar a Laura lá fora. — Ele responde, me lançando um pequeno sorriso, mostrando o quanto ele está feliz com essa mudança, e isso me faz automaticamente devolver o sorriso.
— Vou lá, então. — Afirmo, já começando a andar em direção a porta de vidro da sala.
A nossa casa fica num condomínio fechado e absurdamente caro de Copacabana, e mesmo que não sejamos tão ricos assim, é como falei antes: durou anos pros meus pais conseguirem esse lugar.
Estou vestindo um calção curto e velho e uma camisa branca simples cheia de pequenas folhinhas verdes e laranjadas, que na verdade foram as primeiras coisas que encontrei quando abri o meu guarda-roupas. Não estava com tanto tempo pra ficar procurando algo melhor, e além disso, eu não vou sair pra lugar nenhum mesmo, e está quente pra caramba aqui (como de costume, quando se trata do Rio de Janeiro).
A nossa casa tem dois andares, duas salas, uma cozinha grande, quatro quartos e três banheiros, além de uma área de lazer no terraço do segundo andar e uma piscina enorme no quintal. Eu cresci a minha vida toda aqui e tenho um apego do caramba com cada centímetro desse lugar.
Assim que chego na porta de vidro, empurro-a sem muito ânimo e saio para o hall da casa, já conseguindo avistar Laura tirando algumas caixas de dentro do enorme caminhão de mudança que está estacionado na posição exata para que a parte de trás esteja encaixada no portão do muro.
— Vim ajudar você! — Grito para ela, colocando uma das mãos na frente do rosto para impedir os fortes raios de sol de baterem diretamente no meu rosto. O céu azul está salpicado de nuvens brancas e uma brisa fresca faz os coqueiros da praia balançarem levemente, mas isso não é o suficiente para diminuir o calor infernal.
— Oi chuchu! Você pode ajudar Lucas à levar o resto das caixas lá pra dentro? — Ela diz, passando por mim carregando uma caixa pequena com vários "FRÁGIL'S" rabiscados nela com pincel permanente.
— Claro.— respondo, tentando enxergar a pessoa que está dentro do caminhão, mas o sol forte me permite ver apenas um vulto meio escuro.
Bom. Acho que está na hora de conhecer esse garoto logo, certo? Espero pelo menos que ele tenha 10% da simpatia que a sua mãe tem, porque assim vai ser fácil conviver com ele.
Desço a pequena série de degraus que levam até o caminho de pedras circulares que cortam o granado, sentindo o meu coração dá um salto com o nervosismo, enquanto vou em direção ao caminhão.
— Oi! Meu nome é Nicolas, sou filho do Alexandre, acredito que vamos ser meio que irmãos postiços agora, por que nossos pais... — Paro de falar e dou um pulo para trás assim que um cara enorme pula do caminhão e aterrissa quase em cima de mim, me fazendo quase morrer do coração. O grito fino e assustado que escapa da minha garganta é quase tão humilhante quando o pulinho bem gay que eu dou pro lado.
— Você não é meu irmão, nanico. — A voz rouca e grave do cara quebra o silêncio, fazendo um arrepio subir pela minha minha espinha.
Eu analiso-o de cima à baixo, sentindo a minha boca secar de espanto com o quão próximos ainda estamos. Lucas não parece ter só dezoito anos, e sim uns vinte. Ele não veste mais do que um short branco fino de jogar futebol, mostrando o seu abdômen esculpido e uma quantidade excessiva demais de pele moreno dourada, que está coberta por uma fina camada de suor.
O seu cabelo preto é cortado num degradê estiloso, raspado dos lados e com um topete em cima. Os seus olhos são bem escuros, e o ele deve ter bem mais de 1.80 de altura.
— E-eu sei disso. — Reviro os olhos e dou um passo para trás, sentindo o seu olhar avaliativo me analisar de cima à baixo, exatamente como acabei de fazer também. O cara levanta uma das sobrancelhas grossas, como se estivesse analisando o meu físico.
Juro que se esse desgraçado me chamar de gordo ou fazer algum comentário engraçadinho sobre isso. Eu vou acabar com a raça dele.
— Então... — Lucas cruza os braços sobre o peitoral molhado de suor, enquanto apoia o peso do corpo em apenas uma das pernas.
— Então o que, mané? — Ergo uma das sobrancelhas também, tentando à todo custo ignorar o calção branco fino, que está marcando com certeza, principalmente porque o tecido também está um pouco molhado de suor.
— Você vai pegar às caixas pra levar pra dentro ou não? Até onde sei, elas não vão flutuando pra dentro sozinhas. — O desgraçado tem a ousadia de falar, soltando uma risadinha rouca que sequer chega aos olhos.
Solto um grunhido de raiva e ando até o caminhão, tentando ignorar a presença ao meu lado e não bater os pés como um garotinho birrento.
Minha atenção cai diretamente sobre a menor caixa em cima da caçamba do caminhão, que está revestida com fita isolante e vários "FRÁGIL'S" rabiscados nela.
— Deixa essa aí pra mim, nanico. Ela é bem pesada. — O desgraçado continua, soltando outra risadinha amarga, que é o suficiente para fazer cada pelo do meu corpo se eriçar de tanto incômodo.
— Eu consigo. i****a. — Rosno, agarrando as bordas da caixa. Estou à menos de dois minutos no mesmo ambiente que essa praga e já o odeio como todas as minhas forças.
Para meu pesar, a caixa realmente é absurdamente pesada, e parece ser preenchida por chumbo maciço. Mas mesmo assim não dou o gostinho da satisfação para esse filho da p**a de me ver colocar a caixa de volta no caminhão e pegar outra, então engulo uma série de palavrões que ameaçam sair pela minha garganta e começo a andar em direção à casa, praticamente morrendo de tanto colocar força.