Como se já não bastasse a tortura de ter que ficar carregando esses bagulhos durante umas duas horas, eu meio que surto quando vejo o merdinha levando umas caixas e malas para dentro do quarto vizinho ao meu, no andar de cima.
— O que cê tá fazendo aí?! — Ranjo os dentes com força, tremendo de tanta raiva e pouco me importando se meu pai e Laura estão à menos de dois metros de distância.
Lucas apenas dá de ombros e me dá um sorrisinho, antes de ignorar totalmente a minha pergunta e continuar levando as suas coisas para dentro do quarto.
— Ele vai ficar com esse quarto, Nick. — O meu pai responde no lugar dele, colocando as mãos na cintura de Laura.
— M-mas tem outro quarto vago logo alí no fim do corredor!! — Aponto para a porta trancada que há depois do quarto do casalzinho aqui na minha frente.
— Aquele quarto não tem banheiro, Nicolas. E o Lucas precisaria andar por todo o corredor pra usar um.
— Mas esse é o MEU banheiro!! — Rosno, sustentando o contato visual com meu pai, que solta um longo suspiro. Meus dedos estão formigando de tanto ódio. Se já não bastasse a minha casa, agora vou ter que dividir até banheiro do MEU quarto com aquele... Aquele ser insuportável!!
— B-bom... Acho que Lucas não se incomodaria de usar o banheiro compartilhado do corredor. Posso pedir pra ele mudar as coisas de quarto. — Laura se intromete na conversa, me fazendo querer chutar a caixa de entulhos que está perto dos meus pés até ela ficar só os fagalhos.
Abro a boca para confirmar com ela, mas o olhar sério e raivoso do meu pai (um que ele não usa comigo à tempos) me faz ficar de boca fechada.
— Não precisa, Laura. Vocês já tem feito o suficiente por hoje. — Rosno de forma tranquila, fazendo questão de mostrar o quanto essa maldita situação me desagrada.
Não espero a resposta de nenhum deles, antes de marchar em direção ao meu próprio quarto e fechar a porta, já completamente farto de fingir que estou adorando fazer parte do quarteto feliz aqui.
(***)
Umas músicas estranhas (como se fosse rock e funks misturados) vindas do quarto ao lado quebram a calmaria do meu próprio quarto, usando o MEU banheiro como porta de entrada, já que ele não tem isolamento acústico.
Uma vontade insana de começar a chorar me atinge em cheio, mas não posso dá o gostinho de me ver mais atormentado ainda por eles estarem aqui do que já estou, então tento ignorar à todo custo toda a situação.
Resolvo tentar dar uma organizada aqui dentro, enquanto me preparo psicologicamente para outra dose de interação em família. Eu dei um jeito na minha cama antes de sair do quarto, então ela está bem arrumadinha, com alguns travesseiros empilhados de qualquer jeito perto da cabeceira.
Há três prateleiras longas na parede ao lado da cama, onde eu coloco os meus livros. Eu queria ter uma estante, mas tomaria espaço demais aqui dentro, então preciso me contentar com os nichos de madeira presos na parede, que são decoradas com algumas fotografias impressas que tirei ao longo dos últimos meses e adesivos aleatórios, que dão um charme à mais a ela.

Uma das persianas de vidro fica exatamente ao lado da minha cama, e embora o ângulo não seja o ideal, se eu me inclinar bem quando acordo (ou durma com a cabeça virada para baixo) conseguiria ver a praia deserta durante a manhã.
O chão revestido de porcelanato é completamente coberto por um carpete felpudo cinza claro, e o há dois puffs coloridos alí no canto, além da minha escrivaninha repleta de papéis e itens de papelaria, cuidadosamente organizados dentro de copinhos redondos e coloridos. Eu não sou de acumular coisas desnecessárias, mais ao longo dos anos eu juntei tantos pincéis, marcadores, lápis e canetas que acho que não vou precisar comprar nunca mais.
O meu guarda-roupas é de longe o que mais ocupa espaço aqui dentro, e como ele é planejado e preso na parede, eu não posso me dar ao luxo de muda-lo de lugar para conseguir um aproveitamento melhor do espaço.
Estou bastante entretido arrumando os meus livros por tamanho, gênero e cores, que m*l noto quando o meu pai abre a porta do quarto e entra em passos silenciosos.
— Olá, pai. — Não olho por cima dos ombros e continuo organizando se minhas coisas. Agora eu estou bastante satisfeito com o barulho alto vindo do outro quarto, porque meu querido papai vai ver que não é só uma birra minha. E olha que só tem umas quatro horas que eles chegaram aqui.
— Nicolas, eu sei que... Você não gosta deles, okay?
— Não é que eu não goste da Laura. Eu gosto sim. Mas era mais fácil quando você não os tinha colocado dentro da nossa casa desse jeito. — Mando logo a real, falando o que sinto. Nunca fomos de esconder nada um do outro, então embora eu não possa impedir essa m***a toda de acontecer, espero que ele esteja totalmente ciente do quanto eu desgosto disso aqui.
— Eu gosto dela, Nick. Será que não mereço ser feliz também?
— Claro que merece!! — Exclamo, virando-me pra ele pela primeira vez. Encaro os seus olhos azuis e sustento o olhar, precisando inclinar bastante a cabeça para conseguir fazer isso.
— Eu amei a sua mãe como nunca amei ninguém, você sabe muito bem disso. E quando ela se foi...
— Tudo bem, pai. — Vou até ele e passo os braços ao redor do seu corpo, não querendo lembrar daqueles anos difíceis.
Meu pai ficou bastante depressivo depois que minha mãe morreu, e cuidar de uma criança de cinco anos sozinho... Não deve ter sido fácil.
Porra. Eu sou mesmo b****a por estar fazendo isso, né?
— Promete que vai pelo menos tentar ter um bom convívio com eles? — Meu pai me abraça de volta e apoia o queixo em cima da minha cabeça.
— Prometo. — Digo, decidido.
— Você é meu filho, e eu prometo que caso aconteça qualquer coisa, vou dar um fim nisso, okay?
— Okay.
— E sobre o Lucas... Ele pode ser um pouco difícil no começo, mas acho que vocês vão ser amigos logo logo.
— Duvido muito disso. — Solto uma risadinha sem graça, abrindo um sorriso para meu pai.
Acho que não custa tentar.