Acho que precisaram de uma caçamba de lixo inteirinha pra se livrarem de todas as caixas de papelão, pedaços de fita e plástico bolha que estavam espalhados por toda a casa, mas assim que saio do meu quarto, algum tempo depois, a casa está limpinha e totalmente organizada.
Tudo está quase como estava antes, exceto por algumas coisas aqui e alí que eu nunca tinha visto, como a mesinha de vídeo que agora está no canto do corredor, cheia de vasos de flores e uns cactos compridos e sem espinhos; os quadros bonitos presos nas paredes e o tapetes felpudos aqui e alí, onde tenho absoluta certeza que não estavam antes.
Eu gostava da aparência minimalista e simples que a decoração da casa tinha, mas também não tenho nenhuma objeção contra a nova. É um pouco estranho ter tudo completamente modificado depois de umas horas que passei trancado no meu quarto? Sim. Mas não vou criar uma tempestade no copo d'água por causa disso.
São quase 02:00 da tarde, e encontro todos os três colocando a comida na mesa da cozinha, que agora está com um vaso com hortências azuis bem no meio dela. Meu pai está colocando o almoço em cima da mesa, enquanto Laura está colocando os pratos e as colheres, e o filho tapado dela está sentado em uma das cadeiras, apenas mexendo no celular (e com fones de ouvido).
Pelo menos o escroto teve a descendência de tomar banho e vestir uma camisa.
— Nicolas! Já estava indo chamar você. — Meu pai diz, indicando com o queixo para eu sentar, então faço isso, tomando um cuidado minucioso pra escolher a cadeira mais distante possível de Lucas, do lado aposto.
Vê-lo com o celular me faz lembrar que eu não mando mensagem para Rafaella, minha melhor amiga, faz umas doze horas!! (O que pra gente é uma eternidade). Tiro o meu celular do bolso rapidamente e mando uma mensagem para ela.
"IAE PIRANHA."
13:49 P.M.
Faz quase um mês que eu não a vejo pessoalmente, porque a s****a foi passar as férias no interior, mas como as aulas começam novamente amanhã, estou ansioso para vê-la, embora toda a correria e o climão aqui em casa tenha me feito praticamente esquecer disso.
"IAE, PUNHETEIRO."
13:50 P.M.
A sua resposta vem quase que instantaneamente, arrancando uma risada engraçada de mim. Porque a s****a sempre inventa uns apelidos nada à ver.
— Nick, sabe que eu não gosto que fiquem mexendo no celular enquanto estamos na mesa. — O meu pai diz de forma tranquila, sem irritação ou arrogância alguma.
— Desculpa, pai. — Respondo, antes de mandar uma última mensagem para Rafaella e enfiar o celular de volta no bolso.
"TENHO UMAS m***a PRA CONTAR PRA VOSSA SENHORIA, MAS NÃO POSSO FALAR AGORA, ENTÃO VOU TE EXPLICAR TUDINHO AMANHÃ NA ESCOLA".
13:51 P.M.
Meu olhar vai automaticamente para Lucas, porque tenho certeza que ele ouviu o que meu pai acabou de dizer, mas o desgraçado apenas dá de ombros e continua mexendo no celular de forma tranquila,
Parte de mim quer puxar o celular do bolso e fazer questão de ficar fazendo alguma coisa nele, até porque se vamos ser a família fofinha aqui, esse merdinha também tem que obedecer se regras.
Mas eu prometi que ia pelo menos tentar, certo?
Solto um suspiro rápido e observo a comida sobre a mesa. O meu pai é simplesmente o fã número um de feijão, então ele sempre dá um jeito de colocar em alguma coisa, mesmo que ninguém coma. Uma tigela com o arroz soltinho do jeito que só ele sabe fazer está no centro da mesa, e há também frango e batatas assadas, a bendita tigela com feijão e aspargos. uma tigela de salada está lá no final da mesa, junto com uma jarra d'água com cubos de gelo dentro.
A gente meio que começa a se servir sem muita cerimônia, sem nenhuma frescura antes. A regra da mesa é bem clara: nada de celular e Conversas descontraídas sobre como foram os nossos dias. Pelo menos era isso quando éramos apenas eu e meu pai, então não sei como vai ser daqui pra frente.
Eu levanto da cadeira e fico um pouco envergonhado pela presença deles dois aqui, e ao sentir o olhar de Lucas sobre mim, uma vontade insana de contrair a barriga me atinge, não que eu faça isso. Pego o meu prato vazio e coloco de tudo um pouco nele, tomando cuidado para deixar os aspargos de fora enquanto coloco um pouco de feijão.
— Não vai colocar salada, querido? — Laura pergunta, arrancando uma risadinha de Lucas.
— Não, por que? — Pergunto, erguendo uma das sobrancelhas para ela, fazendo questão de ignorar a presença do filho dela logo atrás de mim e o seu escárnio sobre o meu peso.
— Ãhn... Acho que tem um refrigerante na geladeira ainda. De laranja, o seu favorito, Nicolas. — Meu pai pigarreia, provavelmente para quebrar o clima estranho aqui. Ele sabe que estamos pisando em ovos caso ela me pressione em relação à isso.
— Não, obrigado, pai. — Respondo, antes de pegar o prato e voltar a minha cadeira.
(***)
O resto do dia é um pouco menos agonizante do que a manhã, mas o barulho vindo do outro quarto continuou tão alto que me fez ferver de ódio durante cada segundo, e já passava das 7:00 da noite quando aquele merdinha finalmente decidiu dar sossego.
Quase tive um troço quando entrei no meu banheiro e vi a bagunça que ele deixou lá, mas pelo menos Lucas teve o senso de não mexer nos meus shampoos, e no armário repleto de coisas pessoais.
Esse lance do banheiro definitivamente é uma m***a, porque há duas portas nele. Uma dando acesso do meu quarto, e outra do quarto que estava desocupado até hoje de manhã. E se eu estiver tomando banho e aquele cara entrar do nada?! E se eu tiver usando o vaso, ou sei lá?!
Quando entrei para tomar banho, fiz questão de fazer o máximo de barulho possível, só pra avisar que estava lá. Eu queria trancar a sua porta por dentro só pra garantir, mas a chave já não estava onde sempre ficava até hoje de manhã (ele deve ter tirado e trancando por fora. Como se eu fosse querer invadir a m***a do seu quarto ou algo assim!).
Eu prometi pro meu pai que ia tentar. Mas ainda estamos no primeiro dia, e já tá difícil pra caramba.