Não tenho o costume de acordar cedo, mas como estava tão empolgado para o primeiro dia de aula, fiquei acordando de hora em hora só pra ter certeza de que não me atrasaria. O horário da minha aula é das 8:00 às 13:00, e irei começar o segundo do médio.
Acordo 7:00 em ponto, escovo os meus dentes e tomo um banho rápido, antes de sair do banheiro e vestir o meu uniforme. Até hoje dou graças à Deus por não precisarmos usar aquelas calças estranhas, e tudo que somos obrigados à vestir é a farda, que é bem bonitinha até, branca e vermelha, com o símbolo da escola no ombro.
Estou ansioso pra caramba para ver Rafaella, e enquanto penteio o meu cabelo ruivo e meio ondulado (que já está quase chegando aos meus ombros) aproveito para mandar uma mensagem para ela.
Olho de relance pela janela de vidro e percebo que o céu está repleto de nuvens lá fora, mas não dá para confiar no clima volátil do Rio de janeiro, então passo bastante protetor solar mesmo assim, cobrindo cada centímetro dos meus braços, pescoço e rosto. Felizmente, ele não é daquele tipo oleoso que fica bem grudento na pele pelo resto do dia, e assim que eu termino de passar e ele é absorvido por completo, é como se nunca estivesse lá.
Vou levar apenas o caderno e e algumas canetas hoje, já que ainda não nos deram as apostilas e livros do segundo ano, então checo o meu reflexo no espelho da parede uma última vez, antes de sair do quarto em passos rápidos.
Assim que passo pelo corredor, percebo que o quarto ao lado do meu está um total silêncio, e que provavelmente Lucas ainda está dormindo. Parte de mim (uma bem grande) espera que ele durma por mais algumas horas e perca o horário da escola, porque algo me diz que ele vai implicar pra caramba comigo lá, e pra essa função já basta o Henrique (outro desgraçado do terceiro ano, que adora me infernizar).
Encontro meu pai sentado na mesa da cozinha, tomando café, como de costume, só que agora Laura está sentada ao seu lado, conversando tranquilamente com ele. A cena é bastante fofa, na verdade, e as mãos dos dois estão entrelaçadas de uma forma que é como se eles sequer percebessem. Bom... Acho que vou ter que me acostumar com isso, né?
— Bom dia, gente. — murmuro enquanto me aproximo para pegar uma torrada da cesta cuidadosamente colocada em cima da mesa.
— Bom dia. — Ambos respondem no mesmo segundo. Eu recebo um sorriso do meu pai e outro de Laura, que está com o cabelo loiro preso num coque alto. Ela aparenta estar na casa dos trinta anos, apesar de eu ter certeza absoluta que ela tem quarenta e poucos.
— Falei pro Lucas levar você de carro quando for. Acho que ele já deve estar se vestindo. — Ela diz, mas eu n**o levemente com a cabeça.
— Tá cedo ainda, e a escola não fica à mais do que uns 15 minutos à pé daqui. Acho que vou caminhando mesmo. — Tento soar o mais convincente e tranquilo possível, para não parecer que estou só fazendo birra.
A escola realmente fica perto, e já perdi a conta das inúmeras vezes que eu fui e vim de pé (em outras ocasiões o meu pai me levou).
— tem certeza? Seria bom pra vocês se aproximarem. — Ele diz, antes de tomar um gole do café.
— Tenho. Mas não se preocupem. O momento certo vai chegar. — respondo, virando-me para sair da cozinha e tirando o celular do bolso para checar às horas.
?????
A escola onde tenho estudado desde o nono ano tem três andares, é bonita pra caramba e fica num bairro que não é tão perigoso (quando o assunto é Rio, todo cuidado é pouco). O único problema é que eu nunca me enturmei com a maioria das pessoas daqui, e caso não fosse Rafaella, eu estava completamente fodido.
É um pouco nostálgico subir a série de degraus que levam até a enorme entrada depois de tanto tempo, fazendo uma mistura de sentimentos diversos surgirem dentro de mim. Eu sei que provavelmente toda essa empolgação vai sumir depois de uma semana, e eu vou precisar vir arrastado o resto do ano inteirinho, mas por enquanto, vou tentar curtir a animação.
Quase todo mundo já chegou, e enquanto passo pelo corredor gigantesco, aceno para alguns colegas de classe, embora não seja tão próximo assim deles.
Sempre sonhei em ter um ensino médio estilo high school, naquelas escolas americanas com armários nos corredores, líderes de torcida de jogadores de futebol americano, mas essa não é a realidade do nosso Brasilzão, e estou bastante satisfeito com o que temos aqui.
Assim que dobro a esquina do corredor, dou de cara com Rafaella encostada na parede.
— Oi!! — Exclamo, praticamente me jogando em cima dela e à abraçando com força, arrancando uma risada alta da s****a, que devolve o abraço na mesma intensidade.
— Oi, meu ruivinho favorito. Senti saudades de você. — Ela murmura, bagunçando o meu cabelo e dando um peteleco no meu nariz como a mãezona que ela é.
Rafaella é morena e tem um cabelo lindo absurdamente cacheado, mas que hoje está preso em duas tranças longas e castanhas. Ela usa óculos e tem os olhos cor de mel mais bonitos que eu já vi em toda a minha vida. E a s****a é exatamente da minha altura (ou seja, ambos desprovidos nesse requisito).
— mas então, você precisa me atualizar de tudo que aconteceu nas férias!! Quase morri ontem quando você soltou a bomba de que tinha algo pra me contar, mas que só ia dizer pessoalmente!! — Ela me puxa pelo braço em direção a um dos bancos de madeira que há alí no canto, praticamente desfilando com os all star's que tem uns solados absurdamente altos (o que à deixam com uma vantagem de alguns centímetros sobre mim).
Eu sento ao seu lado no banco e solto um suspiro longo, sem saber por onde começar.
— Sabe aquela namorada do meu pai?
— Sim. Eles já estavam juntos à uns meses né? Você disse que ela era legal.
— Pois é, mas... — conto tudo que tem acontecido mas últimas semanas, sem deixar nenhum detalhe de fora. conto sobre a mudança. Sobre como o filho de Laura é irritante. Sobre como esse último dia tem sido difícil.
Acho que passo uns quinze minutos explicando tudo, enquanto ela apenas me encara atentamente e pergunta uma coisa aqui e alí.
— Então que dizer que tem que um cara nojento de atormentando dentro da sua própria casa agora?! — Ela pergunta, mas quando eu abro a boca para confirmar, um pequeno alvoroço começa no corredor.
Eu olho automaticamente por cima dos ombros, encontrando Lucas surgindo através do portão e passando pelas pessoas como se fosse o dono do lugar. Todos (principalmente as garotas) abrem espaço para ele como se ele fosse Moisés abrindo o mar vermelho, e à medida que o desgraçado passa, vai levando uma série de suspiros e cochichinhos apaixonados.
— Pois é, Ella. E ele tá bem alí. — Respondo para a minha amiga, no mesmo instante em que o olhar do desgraçado se conecta com o meu.