Assim que Lucas estaciona na garagem, eu pulo do carro como se ele tivesse pensando fogo ou com escorpiões saindo por cada canto dele. Laura está molhando a grama e algumas flores do quintal, e assim que eu passo por ela, recebo um sorriso largo (provavelmente por ter aceitado a carona com o boca de sacola do filho dela).
Aceno pra ela e inclino o corpo drasticamente para o lado para compensar o peso absurdo da bolsa com os livros, marchando para dentro da casa em passos rápidos. O interior da construção está bastante arejado, não que eu esteja com tanto calor assim.
Eu tô com uma preguiça do caramba de tomar banho, então só jogo a mochila dentro do quarto e desço novamente para o primeiro andar, já encontrando o meu pai e Laura na cozinha, colocando a comida na mesa. Uma música de décadas atrás está vindo do celular de um deles.
— Como foi a aula, Nick? — Alexandre, meu pai, pergunta, abrindo um sorriso largo, que faz as ruguinhas ao redor do seus olhos ficarem mais visíveis.
— Ótima!! Mas só teve aquelas apresentações de boas-vindas e tals. — Sento ao lado dele e dou de ombros, como se a animação dos dois estivesse passando pra mim.
Eu adoro a energia animada desses dois, na verdade. E não vejo meu pai assim em tempos.
— Está com fome? — Laura pergunta, enquanto coloca a comida em cima da mesa, usando luvas de silicone para não se queimar enquanto traz a travessa com Strogonoff.
— Um pouco, na verdade. Vou sair daqui a pouco para andar de bicicleta e dar uma passadinha na academia. — Respondo, batucando os dedos na meda de vidro, enquanto observo a comida. O cheiro está ótimo, e quando meu pai coloca uma tigela com batata palha ao lado do Strogonoff, minha boca enche d'água.
Não demora mais do que uns cinco minutos para Lucas aparecer, para enfim começarmos a nos servir e almoçarmos juntos.
(***)
Copacabana é um bairro bem nobre, e isso nos passa uma sensação de segurança que sei que boa parte do Rio não tem, mas enquanto pedalo de forma tranquila pela calçada ao lado da praia, usando a sombra dos coqueiros para ficar longe o máximo possível do sol, eu estou pouco me importando para coisas como... Uma facada, balas perdidas e coisas desse tipo (coisas leves).
Há alguns banhistas na linha da areia, vestindo sungas e maiôs, mas essa parte aqui não é muito utilizada porque é área dos condomínios. Eu gosto do mar, mas as vezes esqueço que moro tão perto dele.
Gosto de andar de bicicleta e ir malhar algumas vezes por semana (geralmente só três vezes), não que esteja descontroladamente tentando mudar o meu corpo ou algo do tipo. Só acho que ser hiper-sedentário pode não ser lá o ideal. Também não sigo nenhuma lista rigorosa de exercícios, e só faço o que me dá vontade (escolho de forma aleatória o que quero fazer quando estou lá).
Não demora mais do que uns 10 minutos até eu chegar na academia, já com um pouco de suor descendo pela minha camisa, mas estou satisfeito comigo mesmo, e a pedalada até aqui pode ter sido um ótimo alongamento.
Eu prendo a minha bicicleta no poste mais próximo e vou em direção a entrada sem muita pressa, passando pela catraca e agradecendo internamente por não ter tanta gente (até porque tenho vergonha de fazer certos exercícios na frente de muitas pessoas), mas assim que eu vejo uma cabeleireira loira perto dos pesos, e o cara ergue o rosto para olhar pra mim, meu bom humor morre na hora.
Henrique abre um sorriso largo e começa a caminhar até onde eu estou, usando os bons centímetros que ele tem a mais que eu para me intimidar. Nem sabia que essa desgraça morava aqui por perto, já que nunca o encontrei fora da escola.
— Nick! Veio perder os quilinhos extras? — Ele provoca, erguendo a camisa para limpar o suor do rosto anguloso (embora tenha certeza absoluta de que foi apenas para exibir o tanquinho sarado).
— Não. Vim ter certeza de que você tá enfiando todos os pesos no meio do seu cu. — Reviro os olhos, tentando não me deixar abalar com as suas palavras, embora machuque um pouquinho.
— Ora ora, Nick. — Ele ergue as mãos em sinal de rendição, lançando-me um sorriso travesso. Eu olho por cima dos ombros e percebo que o personal disponível está bem próximo da gente (um cara tatuado e gigantesco), então Henrique não pode fazer nenhuma gracinha que passe de insultos sussurrados para que apenas eu ouça.
Eu começo a andar na direção da esteira disponível, pronto para dar uma corridinha, mas ele vem atrás de mim como quem não quer nada e deita no supino, que fica exatamente ao lado da esteira.
— Sabe Nick, sempre quis saber se esse negócio na sua cara e nos seus braços é contagioso. Você pegou de algum cachorro, ou sei lá?
— São só sardas, i****a. Essa sua burrice é contagiosa? Você pegou de algum ser acéfalo por aí? — Respondo automaticamente, e antes que ele fale alguma coisa, eu retiro os meus fones dos bolsos do calção e os coloco nos meus ouvidos, ligando a minha playlist aleatória e já começando a correr na esteira.
"(Não) era amor" da Júlia Be é uma das minhas músicas favoritas, e o volume máximo dos fones me faz praticamente esquecer a presença incômoda ao meu lado, embora tenha total ciência de que ele está com os olhos em mim.
Forço-me à encarar a parede da frente, onde tem um enorme espelho, enquanto tento não cantar a música junto com a Júlia (porque minha voz é um pouco estranha e eu não quero oferecer mais material para ser caçoado por Henrique).