Quando a aula acaba, eu começo a andar em direção à saída levando a minha mochila que está pesando cinco toneladas, por causa dos livros e apostilas que recebi. Rafaella está com o mesmo problema que eu, mas pelo menos o pai dela está esperando pela s****a logo alí na esquina.
São umas 01:30 da tarde, e o sol está quente pra caramba, apesar da brisa fresca ajudar um pouco nesse requisito. Eu agradeço internamente por ter passado o protetor solar de manhã, porque senão iria chegar em casa parecendo um pimentão.
Eu estou tão concentrado em andar na sobra dos Coqueiros e desviar das pessoas que m*l noto quando uma picape para ao meu lado, e quando o motorista buzina praticamente em cima de mim, o meu coração quase sai pela boca de tanto susto.
— Entra aí, nanico! — Lucas diz, baixando os vídeos escuros da Hillux prateada e inclinando levemente a cabeça, para conseguir me encarar.
— Não, obrigado. Tô bem assim. — Continuo caminhando pela calçada, praticamente curvado de tanto peso. A praga continua me seguindo devagarinho, com o carro na mesma velocidade que eu.
— Entra logo, seu merdinha.
— Tu tá parando o trânsito desgraça, mete o pé logo! — Rosno, morrendo de raiva, arrancando uma risada engraçada dele. Lucas parece não estar ouvindo os carros buzinando logo atrás.
— É melhor entrar logo, nanico. Não tô pra brincadeira. — Ele continua calmamente, sustentando o olhar.
Eu solto um suspiro longo e vou até o carro, sabendo que ele é insano o suficiente para não ficar apenas blefando. Abro a porta do banco traseiro e jogo minha mochila pra dentro de qualquer jeito, antes de entrar no carro também e cruzar os braços.
— Você fica parecendo uma criancinha birrenta assim, nanico. Só falta inflar as bochechas. — Ele provoca, voltando a dirigir numa velocidade considerável, enquanto me encara pelo retrovisor. Os seus olhos escuros estão semicerrados, mas há certa diversão neles.
— Vai se f***r, cara. — Digo sem muito ânimo, olhando pela janela do carro.
— Naah. Atividades sexuais envolvendo o gostoso aqui necessariamente envolvem EU f***r.
— Você é nojento, Lucas. — Franzo as sobrancelhas para ele, não gostando nem um pouco do rumo que esse diálogo está tomando, principalmente porque meu coração está quase saindo pela boca.
Felizmente, um silêncio desconfortável toma o lugar da conversa. Mas é melhor um silêncio desconfortável do que uma conversa desconfortável. Eu só falo novamente quando percebo que essa viagem está demorando bem mais do que demoraria de carro, até porquê não é tão longe assim.
Presto atenção nas ruas e percebo que nós estamos dando uma volta do caramba.
— Errou o caminho, mané. Vai demorar pra chegarmos por aqui. — Digo, mas ele simplesmente dá de ombros e continua dirigindo, alternando entre me encarar pelo retrovisor e olhar para a estrada. Os meus dedos estão formigando com a vontade de mostrar o dedo médio pra ele, mas eu resisto bravamente à isso.
— É o seguinte, Nanico. Eu também não queria me mudar pra sua casa, tá?? — Ele começa, com um tom absurdamente arrogante, me fazendo querer levantar e dar um cascudo tão forte na cabeça dele que iria rachar o crânio no meio.
— O que? — murmuro, incrédulo.
— Acha que eu tô feliz em me mudar pra cada de vocês? Só tô fazendo por causa da minha mãe, okay?
— E eu só tô suportando você fazendo do meu banheiro um chiqueiro e aquelas músicas podres por causa do meu pai, tá bom? — Devolvo na mesma arrogância, porque quem tem sangue frio é réptil.
— Tu é bem birrento ein, nanico.
— E tu é insuportável, seu merdinha. — Mostro o dedo pra ele, aliviando aquela vontade insana de antes, mas Lucas parece está se divertindo com a situação, abrindo um sorrisinho charmoso e mostrando dentes retos e perfeitos (que eu quero quebrar no soco).
— Eu estava até me preparando mentalmente pra uma trégua, mas agora vou ter o maior prazer de fazer você pagar pela insolência, Nanico. — Ele diz, encarando o meu dedo erguido cheio de sardas, porque como falei, cada centímetro da minha pele é cheia delas.
— Acha que eu vou aguentar calado? É só eu falar com meu pai que ele chuta você de lá. — Minto.
— Tô esperando justamente por isso. Na verdade você estaria me fazendo um favor. — Lucas mostra o dedo pra mim também pelo retrovisor.
— O que? Por que? — Uma certa confusão me atinge, mas faço questão de colocar um tom de insolência na pergunta.
— Eu tô fazendo isso pela minha mãe. Mas acha que ela ficaria lá se o seu querido papai não me quiser mais lá também? Então me expulsar seria mais do que um favor. — Ele explica, fazendo um calafrio subir pela minha espinha.
Lucas ir embora significa Laura ir embora, e Laura ir embora significa ter o meu pai infeliz.
Merda.
Eu fico em silêncio o resto da viagem inteira, debatendo sobre sobre isso. Então será que vou ter que aguentar tudo calado? Isso com certeza eu não vou fazer, mas vou tentar dar o meu próprio jeito de acabar com esse desgraçado.