Primeira vista
Primeira vista
O aeroporto de Moscou estava lotado, e Heleonora quase voava entre os passageiros, a mochila balançando nas costas. Os passos apressados ecoavam no chão de mármore frio, e o coração batia acelerado não só pelo esforço físico, mas pela ansiedade. Havia acabado de chegar da África da reserva de Maasai Mara, onde passara semanas cuidando de filhotes feridos e animais resgatados e agora precisava correr para não perder o voo para os Estados Unidos, de onde seguiria para o Brasil. Bahia. Lar. Mãe.
E como sentia falta. Das trigêmeas, do irmãozinho caçula, da bagunça da casa. Era o aniversário de Belinda, e ela se recusava a chegar atrasada de novo.
Ofegante, Heleonora chegou ao balcão de check-in e entregou os documentos. A atendente sorriu educadamente e confirmou:
"Seu passaporte, senhorita. Está tudo certo para o voo."
Ela pegou o passaporte com um sorriso rápido.
"Obrigada" murmurou, já se virando para correr até o portão.
Mas antes que desses dois passos, esbarrou com força em alguém. Não, era qualquer alguém. Era uma verdadeira parede de músculos.
Ela caiu de costas no chão frio, o ar escapando de seus pulmões como um soco invisível.
"Merda!" rosnou, tentando se levantar. "Olha por onde anda, ogro!"
Uma voz grave, firme, com sotaque carregado de autoridade, respondeu:
"Perdão, senhorita."
Ela ergueu o olhar... e parou.
Olhos escuros. Intensos. Um tipo de escuridão que parecia ver através da alma. Sobrancelhas marcadas. Rosto másculo. Ele era... perigoso. Imponente. Familiar de alguma forma que ela não soube nomear. E irritantemente bonito.
Ele estendeu a mão. Ela a ignorou e se levantou sozinha, batendo a poeira imaginária da calça.
"i****a" resmungou, já se virando para ir embora.
"Prazer, Santiago" ele disse com um sorriso de canto, voz baixa e provocativa.
Ela olhou por cima do ombro, incrédula.
"Tá de brincadeira?" bufou. "Estou atrasada!"
Saiu apressada, sem olhar para trás.
No avião, Heleonora afundou na poltrona da primeira classe e soltou um longo suspiro. Finalmente.
Mas o alívio durou pouco.
Alguém se sentou ao seu lado.
Devagar, ela virou o rosto.
"Não. Não. Não é possível." murmurou.
"Olá de novo" disse ele, com o mesmo sorriso tranquilo e aquele brilho malicioso nos olhos.
"Você tá me seguindo? Isso tá começando a parecer perseguição!"
"A senhorita é bonita, admito, mas sua delicadeza impede qualquer obsessão da minha parte." Ele se ajeitou com elegância, cruzando as pernas. "Vamos chamar de coincidência incômoda."
Ela apertou os lábios, irritada. Não queria admitir que estava se perguntando se o universo estava pregando alguma peça. Ele devia ter uns 47, talvez 49 anos, mas seu porte físico faria qualquer garoto de 30 parecer mole. Cabelos pretos com mechas grisalhas nas têmporas. Terno impecável. Perfume amadeirado. Másculo. Confiante. E insuportável.
"Vai ficar me encarando ou vai dizer algo espirituoso de novo?" ele provocou, sem sequer olhar para ela.
"Até parece" ela respondeu seca, desviando o olhar para a janela.
"Santiago" ele voltou a dizer, estendendo a mão novamente.
Ela ignorou o gesto.
"Heleonora."
"Nome forte" ele comentou, sem se abalar com a frieza. "Combina com você."
Ela fingiu não ouvir. Durante o voo, tentou se concentrar em suas anotações, nos fones de ouvido, no céu lá fora qualquer coisa para esquecer aquele homem. Mas em algum momento, o cansaço venceu. E ela adormeceu.
Acordou com um leve incômodo... a cabeça apoiada no ombro dele.
Levantou num pulo, embaraçada, ajeitando o cabelo.
"Relaxa. Pode dormir, não me incomoda" ele disse, com um tom casual.
Ela revirou os olhos, enfiou os fones de novo e ignorou.
Ao pousarem nos Estados Unidos, Heleonora não viu mais Santiago. Achou que, finalmente, o universo havia lhe dado um pouco de paz. Comprou a passagem para Salvador, Bahia, entregou os documentos e seguiu apressada ao próximo portão de embarque.
Vinte minutos depois, já acomodada na primeira classe do novo voo, ela parou. O assento ao lado dela estava ocupado.
Por ele.
"Não" ela sussurrou.
"Sim" ele respondeu, sem sequer olhar. "Coincidência número dois."
"Você só pode estar de s*******m!"
"Estou começando a pensar que o destino tem um senso de humor cruel."
"Ou você é um stalker bem pago" ela respondeu, ríspida.
"Se fosse, já teria seduzido você com sucesso" ele retrucou, sarcástico.
Ela arregalou os olhos.
"Vai se ferrar."
Ele riu. Um riso baixo, rouco, que vibrou entre os dois como um aviso de que aquele jogo m*l havia começado.
Heleonora se recostou, cruzando os braços, olhando pela janela, jurando para si mesma que ignoraria aquele homem até o pouso.