Elevador

809 Words
Amanheceu abafado, o céu nublado como o humor de Heleonora. A noite anterior ainda queimava na memória não pelos toques ou beijos roubados, mas pelo que ela quase permitiu. E o pior: pelo que queria ter permitido. Mas não cedeu. Porque Scannell que é Scannell sabe a hora de recuar… mesmo quando o sangue clama. Estava com os irmãos Ethan e Argo sentados no sofá, assistindo notícias sobre a nova apreensão nos portos e Solomom no telefone, como sempre, tentando desmentir mais uma acusação absurda. Ou nem tão absurda assim. “Vou descer até a recepção buscar uns documentos que deixaram para mim.” avisou Heleonora, ajeitando a saia justa e a camisa social branca Ethan a olhou com malícia: “Arrumada assim para pegar envelope? ” Ela revirou os olhos. “Arrumada? Estou de havaianas, seu louco.” “Ela anda com Vinicius Brandão.” Argo riu. “Cala a boca. Argo.” cortou ela, séria. Na descida pelo elevador, ainda em silêncio, ela se sentia segura. Sozinha. Tudo sob controle. Mas o destino aquele desgraçado cínico tinha outros planos. Ding. O elevador parou no 15º andar. E ali, com uma camisa cinza colada ao peito e um copo de café nas mãos, entrou ele. Santiago. Ambos se olharam por um segundo. E por um segundo… o mundo parou. Mas Heleonora virou o rosto e encostou-se na parede de aço inox. “Bom dia.” ele disse, tranquilo, como se não tivesse quase quebrado a porta do apartamento dela na noite anterior. “Oi, delegado.” respondeu ela, sem o olhar. “Dormiu bem?” ele provocou, a voz rouca. “Melhor do que esperava. Vento fresco, travesseiro limpo e ausência de policiais inconvenientes... combinação perfeita.” ela rebateu, com um leve sorriso. Ele riu. “Você está incrível nesse conjunto. Sua nova profissão é quebrar corações em reuniões jurídicas?” Ela olhou para ele, séria: “E a sua nova função é flertar com criminosas no elevador?” Santiago a encarou de volta, mas perto agora, como se o cubículo de aço fosse pequeno demais para a tensão entre os dois. “Sim, mas somente se ela for ruiva e, ter uma boca deliciosa” “Idiota.”, ela falou ficando corada Ele bufou, cruzando os braços. “Então sábado, está de pé?.”, ele perguntou se aproximando mais dela até prende-la contra parede de ferro fria O silêncio entre eles era denso. Só o barulho do elevador descendo, “Sim”, ela fala mordendo os lábios. Quando o elevador parou no térreo, Santiago deu um passo à frente e, antes de sair, virou o rosto e sussurrou: “Até sábado” Ela nem respirou. Apenas manteve o olhar fixo. “Se eu abrir, é para atirar.” “E eu... vou agradecer pela bala.” Ele saiu. Ela ficou parada, com o coração fora de compasso, o corpo tremendo por dentro e o perfume dele ainda preso no ar. “Idiota...”, murmurou. Mas sorriu de canto. Porque, no fundo, sabia que aquele jogo estava só começando. Heleonora estava esparramada entre os irmãos no enorme sofá da sala, um cobertor compartilhado cobrindo os três, baldes de pipoca espalhados e o som grotesco de "Olhos Famintos” fazendo Argo reclamar: “Esse bicho vai aparecer de novo do nada, certeza… Heleonora, você é doente." Ela riu, com Ethan quase dormindo sobre o ombro dela. O celular vibrou sobre a mesinha. Ela esticou o braço, pegou com preguiça e desbloqueou a tela. Santiago: “Posso levar o bolo?” O canto dos lábios dela se curvou num sorriso. Ela digitou, sem pressa: Heleonora: “Não. A não ser que queira dividir com meus irmãos.” Segundos depois, nova notificação: Santiago: “Pena. Queria ver você provar só com os dedos.” Ela arqueou uma sobrancelha e prendeu o riso. Ethan, ao lado, olhou de esguelha: “Que foi?” “Nada, conversa de gente civilizada.” Digitou de volta: Heleonora: “Prefiro bolo com garfo. E, de preferência, sem policiais enxeridos na minha porta.” Ele foi rápido: Santiago: “Sou mais doce que o chocolate. Pode perguntar para o Thor.” Ela mordeu o lábio para não rir. Heleonora: “Thor não sabe escrever, mas se soubesse... provavelmente diria que é o melhor policial da rua dele.” Santiago: “Você tem medo de mim, Heleonora Scannell?” Ela ficou um tempo encarando a tela. O tom mudou. Um arrepio percorreu sua espinha. Heleonora: “Não,delegado.” Silêncio. Três minutos. Até ele responder: Santiago: “Que bom.” Ela sorriu. E então respondeu: Heleonora: “Boa noite, delegado.” Santiago: “Sonha comigo.” Ela desligou o celular, largou no colo, e bufou. “Tá tudo bem?” perguntou Argo, mastigando pipoca. “Tá sim... é só um problema disfarçado de bolo.”
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