DV narrando. O cheiro dela ainda tava no lençol. Mesmo depois de dois banhos, da cama arrumada, da janela aberta, ainda era o perfume dela que dominava o quarto. E eu deixei. Porque era a única coisa que sobrou. Ester tava diferente. Não era mais a menina que tremia no primeiro tiro. Agora ela era fogo. E o fogo dela queimava até mim. Nos últimos dias, ela acordava cedo, colocava a farda, saía sem olhar pra trás. Respondia os rádios, cobrava os vapôs, fazia ronda como se tivesse nascido pra isso. E talvez tenha mesmo. Talvez o destino dela sempre tenha sido o morro. Mas, eu não queria isso. Fiquei parado na laje, olhando o Vintém respirar. A quebrada funcionava, viva, agitada. Mas no meu peito só tinha barulho. Um caos que não parava nunca. Branquelo chegou com dois copos de café.

