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1005 Words
Ester narrando Tem gente que nasce pra brilhar. Outros, só pra aguentar a porrada. Eu acho que nasci pra sobreviver. Meu nome é Ester, tenho 20 anos e carrego nas costas mais dor do que muita gente com o dobro da minha idade. A primeira lembrança que tenho da vida é minha mãe com o rosto roxo e a boca cortada, limpando o chão da sala com sangue escorrendo no pano. E meu pai gritando, jogando a garrafa contra a parede, como se o mundo fosse culpa dela. Ele dizia que a gente era o erro da vida dele. A minha mãe só chorava. Eu segurava a mão da minha irmãzinha, a Eloá, que na época m*l sabia andar. E foi assim por anos. A cada tapa, minha mãe ficava mais calada. A cada noite, eu ficava mais com raiva. Mas eu era só uma menina. E ele era um monstro com nome de pai. Até o dia que ele passou dos limites. Foi numa terça-feira. Chuvosa. A casa fedendo a pinga e medo. Eu voltei da escola mais cedo, e a porta tava entreaberta. Quando entrei, ele tava com a mão no pescoço da minha mãe, e os olhos... os olhos dele não tinham mais alma. Eu gritei, Eloá chorava no quarto. E ele ele apertou mais forte. Minha mãe morreu ali. No chão da cozinha. Comigo de joelhos, tentando puxar ela de volta com o olhar. Ela morreu me olhando. Com medo. Depois disso, a polícia veio. Levaram ele preso. Mas não levaram a dor. A gente foi parar na casa da minha avó. Mãe dele. Achei que, enfim, ia ter paz. Mas a avó Ivone era outra espécie de tortura. – Tua mãe era uma qualquer, e tu puxou ela – ela dizia, cuspindo veneno. – Vai acabar abrindo as pernas por aí igual ela. Cada vez que eu saía pra escola ou pro trabalho, ela xingava. Se eu passava batom, ela falava que era pra atrair homem. Se eu não passava, dizia que eu era feia e ingrata. Mas o pior era o que ela fazia com a Eloá. Botava a menina pra fazer serviço de adulto. Batia se a comida tava fria. Roubava até o dinheiro do lanche. E eu? Eu aguentava calada. Porque eu não podia perder a guarda da minha irmã. Porque ela era tudo que me restava da minha mãe. Trabalhava de manhã num mercadinho, estudava à noite. Dormia pouco, comia menos. Mas sonhava alto. Sonhava em alugar um cantinho só nosso. Comprar uma cama de verdade pra Eloá. Ver ela sorrir sem medo. Foi nessa luta que consegui uma entrevista como vendedora numa loja de roupas no Vintém. Não era o lugar mais calmo do mundo, mas pagava melhor. E eu tava disposta a tudo. O dia da entrevista foi quente, abafado, o sol rachando no asfalto. Peguei o ônibus apertado, cheguei suando, com medo de errar qualquer coisa. A loja era pequena, mas ajeitadinha. Dona Cleusa, a gerente, gostou de mim logo de cara. – Tu tem olho esperto, menina. E fala bem. Começa segunda. Saí de lá flutuando. Meu primeiro emprego de verdade. Resolvi cortar caminho por uma viela que ligava a rua principal ao ponto de ônibus. Tava com pressa pra buscar a Eloá na escola. Foi aí que tudo mudou. – Ei, princesa… tá com pressa por quê? A voz veio de trás. Arrastada, nojenta. Me virei devagar. Um cara encostado na parede, camiseta larga, dente amarelado, olhar podre. – Só quero passar – eu disse, firme, mas com o coração pulando na garganta. – Ihhh... que voz grossa. Vai me bater, é? Hein, bundinha? Ele se aproximou. Eu tentei correr, mas ele segurou meu braço com força. – Vai pra onde, boneca? Tá achando que pode andar sozinha nesse morro, é? Eu gritei. Ele me empurrou contra a parede. A mão dele veio pro meu rosto. Mas foi aí que o céu trovejou. Não com chuva. Com respeito. – Solta. A voz veio grossa, seca, pesada. Como uma sentença. Eu virei o rosto e vi ele. DV. Parado no beco, braço cruzado, dois caras atrás dele, armados. O sol batia de lado, desenhando a sombra dele como se fosse o próprio morro falando. O homem tentou fingir inocência. – E aí, DV… só uma brincadeirinha com a mina… – Eu falei pra soltar. Tu não escutou? Silêncio.... O cara largou meu braço, hesitante. DV se aproximou, os olhos fixos no dele. – Tu acha que eu sou o****o? Tu some da minha quebrada. Ou eu faço tu sumir de outro jeito. Aquele nojento tentou rir, mas era medo puro. – Demorô, chefia. Foi m*l. – Não, não foi. DV fez um sinal com a cabeça pros dois que tavam atrás. – Leva esse verme. Me espera no quartinho Eles puxaram o homem. E sumiram com ele por dentro da viela. Eu não sei o que fizeram. E parte de mim nem quer saber. Fiquei ali, parada, o corpo tremendo. DV me olhou. De cima abaixo. Não como os outros caras. Ele olhou como quem mede uma alma. – Tu tá bem? Acenei, sem conseguir falar. – Mora aqui? – Tô só passando. Trabalho aqui perto. -Ele se apresentou como se eu não soubesse quem ele fosse. – DV. Aquele tipo de apresentação que não precisa de sobrenome. – Ester – sussurrei. – Cuidado por onde anda, Ester-DV falou Ele virou as costas. Sumiu entre as sombras do beco. Naquela noite, fiquei deitada na cama improvisada, com a Eloá dormindo ao meu lado. O braço dela enroscado no meu, a respiração suave. Mas minha cabeça tava aquele olhar, aquela voz. O homem que parou um monstro com uma frase. Aquele homem, pode ser perigo ou salvação? Eu não sabia se era o começo de algo bom ou mais uma desgraça na minha vida Mas naquele momento, meu coração, que só apanhava, pulou de um jeito diferente. Eu não sabia se era medo ou esperança. Só sabia que a história tava só começando.
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