03

930 Words
DV narrando O jack tava tremendo antes mesmo da gente subir com ele amarrado. A cada passo, chorava e repetia as mesmas merda – Foi m*l, DV, pelo amor de Deus cara, foi mal Mas já era tarde, muito tarde. Na laje da casa abandonada, no lado escuro da favela, já tava tudo pronto. Os vapô já tinha montado o cenário. Um toco de madeira no chão, uma cadeira torta com os braços serrados pra amarrar melhor, uma toalha velha embaixo pra conter o sangue. Ali, não era pra machucar, era pra marcar. E o Jack ia virar exemplo. Amarraram ele com o peito nu, Na subida já tinha dado um lição nele então já tinha sangue seco no nariz. Um olho roxo, a boca cortada. Amarram ele e eu já fui dando a ideia – Pensa que é bagunça, seu merda? – cuspi no chão. – Encostar em mulher na quebrada? Tu é come m&rd@? – Foi impulso, juro, eu, eu não toquei de verdade, foi só um aperto. – Tu vai apertar o capeta agora porr@ Fiz sinal. O vapô entregou a trena de ferro. Enferrujada fina e cortante. – Primeira regra do Vintém: mulher não se toca. Segunda: quem desrespeita, paga com a pele. Terceira: se o erro for grave... paga com a vida. Jack chorava, desesperado. Eu não disse nada só ajoelhei na frente dele e puxei o uma garrafa cheia de sal grosso misturado com álcool. – DV, pelo amor de tudo, não, eu tenho mãe, tenho irmã e meus filhos não faz isso. – Então por que tu não pensou nisso quando tentou agarrar a filha dos outros a força? Arranquei a camiseta rasgada do corpo dele com uma tesoura. E, com a faca que tava na mesinha comecei a cortar na sola do pé.Um corte pequeno, mas profundo. Jack gritou como se o inferno tivesse subido pra buscar ele ali mesmo. – Isso aqui é pra te lembrar do primeiro passo errado. Tu caminhou pro lado errado, seu Jack de merd@. Ligeirinho segurava a cabeça dele pra lembra lá no inf&rn0 de cada tortura que ele ta passando. Eu joguei o sal e o álcool na ferida. O grito que veio fez até cachorro latir lá embaixo. – PELAMORDEDEUS, DV! MATA LOGO! MATA LOGO! – Morte é alívio. Tu ainda não mereceu ela- falei cheio de 0di0 O vapô pegou uma barra de ferro enrolada no pano molhado e começou a bater nos dedos dele, um por um, um barulho seco, rápido e doloroso. O som dos ossos estalando misturava com os gemidos. Quando vi que o Jack já tava entre o consciente e o desmaio, fiz sinal. – Agora a marca final. Peguei a barra de ferro com o emblema do V, esquentada no fogão improvisado. Lingueirinho segurou o peito dele firme. Encostei o V incandescente no lado esquerdo do peito, a pele fritou, o fedor de pele queimada subiu. E o Jack gritou como um porco no matadouro. – Esse “V” é de verme, pra todo mundo lembrar que aqui não se encosta em mulher sem permissão, nem em pensamento. Ele começou a delirar. Falava com Deus, com a mãe, com a sombra. – Tá na hora. – falei baixo. – Ele já saiu do corpo. Só falta o corpo sair daqui. O vapô puxou o saco preto, Ligeirinho amarrou as mãos e os pés dele ,o Jack ainda respirava fraco. Mas não por muito tempo. – Queime ou enterre, tanto faz. Só não deixa rastro, aqui, lixo vai pra vala. E foi. Depois daquilo, o silêncio pesava. Só o som da cidade ao fundo: buzina, grito, moto subindo, rádio tocando funk antigo. Mas minha cabeça... tava noutro lugar. Aquela menina não saiu da minha mente. Tinha algo nela que me lembrava algo ou alguém, ela me fazia lembrar das minhas perdas, de um pedaço meu que ainda não enterrei. Será que era o olhar? Ou era o jeito que ela segurava o medo? Pior que nem ela teve medo, teve dignidade, teve postura. Como alguém que já passou por muitas coisas nessa vida. ** Desci da laje, camisa suada, braço sujo de sangue seco, na esquina, vi o vapo Bê, distraído no celular. – Ô, o****o. Tá achando que aqui é 4G de shopping? – Foi m*l, DV! Eu tava. – Se eu pego tu dormindo no ponto de novo, tu vai vender Wi-Fi no inf&rn0 – Entendido, chefia. Continuei andando. Parei no boteco do Seu Téo pra pegar um refrigerante. Uma criança passou correndo com o chinelo arrebentado. Lembrei do Tiaguinho. De quando ele fazia isso. E do sangue quente na minha mão no dia que ele morreu, meu coração apertou. – E aí, DV. Tá tudo certo? – perguntou o Seu Téo, limpando o balcão. – Tudo certo. Por enquanto. ** Mais tarde, Lingueirinho voltou da missão. – Jack foi pro buraco. Não tem como achar nem com cão farejador - Falou lingueirinho, com um sorriso no rosto. – Boa. – E a mina? A tal Ester? – Esquece ela- respondi – Tu tem certeza? – Não. Ele riu, sem entender. ** No fim do dia, sentei no telhado. O céu escurecendo, o morro brilhando com as luzinhas dos barracos, fiquei pensando. Se aquela mina cruzou meu caminho, não foi à toa. E se ela for um problema? ainda vou descobrir. Mas, e se for o que eu tô pensando? Pode ser que o morro tenha jogado uma promessa antiga na minha frente. E promessa, aqui no Vintém... Ou se cumpre, ou se morre por ela.
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